Abecedário

Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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O dia em que fui impedida de entrar na Unicamp

Por sabine
01/09/14 20:53

Desde 2011, ministro uma disciplina em uma pós-graduação da Unicamp na área de jornalismo científico. Comecei fazendo um estágio docente durante o doutorado, depois acabei virando colaboradora oficialmente.

Funciona assim: às segundas-feiras eu acordo em torno de 5h30, pego estrada rumo à Campinas, dou cerca de duas horas de aula e volto diretamente para a redação da Folha, onde fico até à noite. Preparo as aulas no final de semana.

É exaustivo, mas muito recompensador.

Nesta primeira segunda-feira de setembro (1º) minha rotina mudou: eu não consegui entrar na Unicamp para dar aula. Fiquei cerca de 1h30 do lado de fora de uma das entradas da universidade –que, teoricamente, era a única que estava aberta,– e acabei voltando para São Paulo.

Protesto fecha acessos à Unicamp

Senti na pele a greve da universidade que já passa de três meses.

Enquanto esperava no lado de fora da Unicamp, na tentativa de entrar no campus, vários alunos me mandaram mensagens dizendo que estavam na mesma situação –eles sabem que sou intolerante com atraso, por isso ficaram preocupados. Tinha gente que veio do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, de Passo Fundo. Todos chegaram na universidade e, assim como eu, não conseguiram chegar à sala de aula.

Pensei muito nesses alunos. Pensei em mim e nas 5 horas perdidas em que passei dentro do carro entre inda e vinda da Unicamp. Pensei nos grevistas.

Pensei também nos alunos mais novos, da graduação. As aulas da pós-graduação já tinham sido retomadas há algumas semanas, mas, nesta segunda-feira, seria o primeiro dia letivo dos alunos da graduação.

Lembrei-me da paralisação que eu enfrentei quando era aluna da graduação da Unesp, em 2000, que durou quase três meses e atrasou todo o calendário. Muitos alunos desistiram do curso naquela época. Será que mais alunos desanimariam também nesta nova greve? Os índices de evasão nas universidades públicas já é altíssimo mesmo sem greve (em torno de 25%).

Pensei na quantidade de dinheiro público perdido nas evasões.

TRÊS MESES

Os piquetes nas entradas da Unicamp foram organizados por funcionários, que pedem reajuste salarial. Parte deles está paralisada desde 27 de maio.

É legítimo fazer greve. Mas é legítimo impedir que um docente seja impedido de dar aula? Ou que um grupo de estudantes seja impedido de ter aula?

Esse tipo de atitude é democrática?

Na USP, que também está paralisada há mais de três meses, e que enfrenta grave crise financeira, vi decisões sobre a continuidade da paralisação sendo tomadas por grupos de cerca de 100 pessoas. A USP tem quase 90 mil alunos e 29 mil funcionários (incluindo os aposentados, que são 23% da folha de pagamento). Decisões tomadas por 100 pessoas –0,08% do universo da universidade– são válidas para toda a maioria?

Os grevistas podem, então, argumentar que quem é contra a greve deveria participar das assembleias. Novamente: obrigar a participação em assembleias é democrático? Ou, ainda, será que vozes contra a greve teriam espaço nas assembleias?

Lembrei-me ainda do relato de uma docente da Unesp, que disse que fora chamada de “vaca” por um grupo de grevistas que invadiu sua aula. Uma secretária da reitoria da USP teria sido submetida a um “corredor polonês” para chegar ao local de trabalho.  Isso tudo é legítimo?

Não, nenhuma forma de violência é legítima.

Mas, sim, é legítimo debater sobre o ensino superior público estadual. O modelo de gestão centralizado em um reitor está ultrapassado, as universidades não conseguem se manter com o dinheiro do governo, os funcionários não se sentem parte da vida universitária, os alunos não lutam por melhorias acadêmicas (como, por exemplo, a expansão do horário de funcionamento das bibliotecas).

Há algo errado nas universidades estaduais paulistas.

 

Folha explica a metodologia do Ranking Universitário Folha; participe

Por sabine
29/08/14 16:19

Muita gente me pergunta como é feito o RUF (Ranking Universitário Folha),  que avalia a qualidade das 192 universidades brasileiras e dos 40 cursos de graduação com mais ingressantes no país, como administração, direito e medicina.

A demanda vem principalmente de instituições de ensino superior, que querem saber como estão sendo avaliadas. A Folha vai explicar em um seminário na semana que vem.

Ranking Universitário Folha 2013

Na terça-feira (2), às 9h30, a Folha promove um evento sobre a metodologia do RUF. O evento será gratuito.

Na programação, estaremos eu, Mauro Paulino, diretor do Datafolha, e Rogério Meneghini, responsável pela medição da produção científica e tecnológica das universidades. A ideia é mostrar de onde veio a ideia de se fazer um ranking, como criamos a metodologia e como coletamos as informações.

Rankings universitários nacionais existem nos Estados Unidos desde 1983. Lá, o ranking é feito até hoje pelo “U.S.News“, veículo que acabou se especializando nesse tipo de classificação.

Aos poucos, a ideia de rankings foi se espalhando por todos os cantos. Só para se ter uma ideia, Reino Unido, Alemanha, Austrália, México, Chile e Rússia têm suas listagens nacionais. Todas são feitas por grupos de mídia.

Na China, os rankings universitários chegaram com ainda mais força. Foi lá que surgiu o primeiro ranking internacional de universidades, em 2003, avaliando instituições de todo o mundo.

A listagem é feita por um grupo da Universidade de Shangai –por isso ficou como conhecido como “ranking de Shangai“. Para se ter uma ideia, a USP está entre 101ª e 150ª posição na avaliação. A melhor do mundo é Harvard (nos EUA). O mesmo grupo também mergulhou nos rankings nacionais e lançou uma listagem da China em 2011.

CRITÉRIOS LOCAIS

Cada ranking nacional, claro, avalia o que é pertinente para o ensino superior do seu país. Nas listagens de países latino-americanos, por exemplo, indicadores de mercado de trabalho costumam ser importantes. Já na China, o importante é ter docentes premiados e cientistas com pesquisas publicadas em periódicos científicos “top” como “Nature” e “Science”. Por aí vai.

No Brasil, o RUF utiliza dados coletados em bases nacionais e internacionais –por exemplo, a produção científica das instituições e a formação do seu corpo docente,– além de informações de duas pesquisas de opinião feitas pelo Datafolha. Tudo isso será apresentado no seminário.

Venha e ajude a divulgar!

# Seminário sobre a metodologia do RUF
# Quando: 2.set, às 9h30
# Onde: Auditório da Folha (al. Barão de Limeira, 425, 9º andar, Campos Eliseos, São Paulo).

Para participar, é necessário fazer inscrição prévia pelo e-mail eventofolha@grupofolha.com.br ou pelo telefone (11) 3224-3473 (somente em dias úteis). O número de vagas é limitado.

 

Entenda por que estudar para o Enem é cada vez mais importante

Por sabine
25/08/14 02:00

O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) surgiu como uma tentativa de fazer um diagnóstico do ensino médio brasileiro, considerado o maior gargalo da educação do país. No Brasil, sabe-se que os estudantes insistem na escola até chegar no ensino médio, quando desistem dos estudos. Era preciso entender o que estava acontecendo.

Hoje, com o recorde de 9,5 milhões de inscritos para o próximo exame, que acontece nos dias 8 e 9 de novembro, o Enem se tornou peça fundamental para quem quer chegar ao ensino superior.

A nota do Enem é considerada no processo seletivo de instituições de ensino superior de todo o país –públicas e privadas. Quem quiser ter uma bolsa de estudos em instituições privadas de ensino via Prouni ou uma bolsa em universidades estrangeiras pelo programa Ciência sem Fronteiras também precisará de uma boa nota do Enem.

Sair-se bem no Enem agora é fundamental. 

Candidato da FGV poderá usar nota do Enem a partir do próximo vestibular

Insper também vai usar nota do Enem no próximo processo seletivo

O problema é que nem todas as escolas estão preparadas para ensinar aos alunos o que será cobrado no exame. Quer um exemplo? O Enem é essencialmente multidisciplinar. Suas questões misturam contas (matemática) com geografia ou juntam história e português na mesma pergunta.

Enquanto isso, as escolas continuam dividindo o conhecimento em caixinhas. O aluno aprende que geografia e biologia são duas áreas separadas –e têm professores distintos para cada disciplina.

Além disso, a proposta do Enem é cobrar essencialmente “competências” e não “conteúdo”. Isso significa que o aluno deve estar preparado para comparar períodos históricos no lugar de saber detalhes sobre um período específico (Grécia Antiga, por exemplo). A maioria das escolas ainda se concentra nos detalhes de cada fase da história. 

ATUALIDADES

Outra característica importante do Enem, que pouco aparece no currículo das escolas (especialmente daquelas que trabalham com apostilas), é a atualidade da prova. As questões do exame tendem a abordar fatos que apareceram recentemente no noticiário. E são justamente essas que os alunos mais erram.

No simulado para o Enem desenvolvido no ano passado pela Folha em parceria com a empresa Adaptativa, por exemplo, a única pergunta sobre Primavera Árabe (onda de manifestações no Oriente Médio), considerada “fácil” pela equipe da Adaptativa, teve 53% de respostas marcadas erradas. Para se ter uma ideia do que essa porcentagem significa, uma questão fácil de história tem um índice de erro de 20%.

Quem fez o simulado para o Enem da Folha em 2013 –foram 80 mil inscritos– também foi mal em interpretação de textos. Foi o segundo tópico com mais erro, com 41,7% de índice de incorreções. Interpretações de textos é uma competência altamente cobrada no Enem. 

SIMULADO

Quem quiser se preparar melhor para o Enem e fazer o simulado Folha-Adaptativa neste ano deve fazer inscrição aqui até o dia 14 de setembro. O exame é gratuito e a prova poderá ser feita de 8 a 14 de setembro, no mesmo site. No dia 15 de setembro os estudantes terão acesso ao gabarito para saber quais questões estão certas e quais estão erradas.

Cada estudante ainda terá acesso a uma espécie de boletim personalizado com seu desempenho no exame, feito com a mesma tecnologia utilizada pelo MEC, a TRI (Teoria de Resposta ao Item).

Esse diagnóstico estará disponível a partir do dia 19 de setembro. Ou seja: cada estudante terá ainda quase dois meses para estudar as áreas em que foi pior (sabe-se que, em geral, os alunos tendem a estudar mais os assuntos com os quais ele se sente confortável e acaba deixando de lado os temas que trazem mais dificuldade).

O simulado da Folha-Adaptativa também terá redação, que será corrigida de maneira colaborativa, pelos próprios alunos, de 15 a 18 de setembro. Depois de receber a correção do seu texto, o usuário será convidado a reescrevê-lo e a submetê-lo novamente.

No simulado do ano passado, 6.000 estudantes fizeram a redação e 78 mil correções foram enviadas.

 

Atropelamento de atleta na USP pode isolar ainda mais a universidade

Por sabine
23/08/14 13:42

Costumo dizer que a USP é um oásis no seu sentido religioso: uma terra fértil encravada no meio do que a Bíblia chamaria de deserto (e que eu chamo de São Paulo).

É a USP, com todos os seus problemas, que reúne os principais intelectuais brasileiros, a mais parruda produção científica do país e uma das poucas áreas verdes da cidade.

E, assim como um oásis, a universidade não se conecta com o deserto –apesar de estar encravada no meio dele.

Um dos poucos momentos em que a universidade abre suas portas para a sociedade é aos finais de semana. Aos sábados e domingos, a USP recebe cerca de 10 mil atletas que aproveitam seu espaço –equivalente a três parques Ibirapuera– para corridas e pedaladas.

Quem já passou por lá em um sábado de sol sabe que o campus fica lotado.

Mas, diferentemente do que acontece nos parques, os carros circulam pela universidade no meio dos atletas –o que nem sempre dá certo. No último sábado (16), por exemplo, o corredor veterano Alvaro Teno, 67, morreu atropelado durante um treino no campus da universidade (leia aqui).

Uma tragédia.

E aí ressurge um debate que vira e mexe volta à pauta: o fechamento da USP para quem não é aluno, docente ou funcionário. Isso “evitaria” episódios como o atropelamento do atleta. Oi?

SOFÁ DA SALA

Lembrei-me daquela piada que diz que, para não ser traído no sofá de sua sala, como vinha acontecendo, um fulano resolveu não ter mais sofá. É a mesma lógica. Impedir que a população circule nas áreas verdes da USP porque isso traz risco de acidentes fatais é tirar o sofá da sala.

O que precisa ser feito, ao contrário, é abrir ainda mais a universidade –que, afinal, fica em um espaço público, mantido por toda a sociedade, por mim e por você.

É preciso atrair as pessoas para dentro do campus e é preciso levar a USP para fora do oásis. Ao contrário do que acontece na maioria das cidades universitárias do mundo, a USP participa pouco da rotina artística, cultural e intelectual de São Paulo. A sociedade não frequenta suas bibliotecas. Ninguém –além dos corredores– diz “vamos passear ali na USP?”

Há um abismo entre quem está dentro da universidade (1% do total matriculado no ensino superior do país) e quem está fora (o restante da população).

Hoje (23), no ato que homenageou o corredor morto na Praça do Relógio da universidade, o grupo de atletas vestidos de preto, em luto, dizia que a USP não é responsável pelo acidente. Falta segurança para atletas de rua dentro e fora do campus, diz o grupo.

Que tal, então, reforçar a segurança dentro do campus? Por que não experimentar um modelo funcional na universidade em que pedestres, atletas e motoristas consigam interagir de maneira saudável? Tenho certeza de que há muitas dissertações e teses desenvolvidas na USP sobre isso.

Quanto mais a USP abrir suas portas e fizer parte da vida das pessoas, mais a sociedade vai se envolver com a sua dinâmica, vai valorizar a universidade, vai incentivar o investimento público no ensino superior.

Isolada e afundada em uma crise financeira, a USP vai acabar virando um grande elefante branco para quem está de fora. De solução vira um problema. Não me parece uma boa escolha.

Ninguém sabe se computadores e tablets melhoram ensino

Por sabine
14/08/14 11:59

Na semana passada mediei um debate interessante no evento Desafios da Educação, que ficou bastante centrado em uma questão: novas tecnologias usadas em sala de aula, como tablets e computadores, melhoram a qualidade do ensino?

De acordo com os especialistas que estavam presentes, brasileiros e estrangeiros, ainda não temos uma resposta.

Ao que parece, algumas tecnologias podem melhorar indicadores de ensino desde que associadas ao bom e velho ensino presencial.

Ou seja: de nada adianta ter tablets em sala de aula se o professor não souber como aproveitar esse recurso com a turma.

“É importante saber disso para que as instituições de ensino não saiam comprando equipamentos de forma desenfreada sem saber o resultado do seu uso”, disse a diretora acadêmica do Insper, Carolina Costa, que é doutora em educação.

INCERTEZA

Ela mostrou uma revisão do que os cientistas estão escrevendo sobre o uso dessas tecnologias na educação. Os estudos revelam mais pontos de interrogação do que certezas.

Parte desses trabalhos, por exemplo, mostra que tecnologias tendem a melhorar o aprendizado de alunos que já apresentam boas notas e daqueles com perfil mais auto-didata (que conseguem aprender sozinhos).

Isso significa que um aluno que vai bem sem computador irá melhor ainda com o equipamento, mas quem vai mal continuará com o boletim no vermelho diante de novas tecnologias.

O mesmo acontece com os cursos oferecidos pela internet, como complemento de aulas presenciais ou exclusivamente a distância.

Também nesses cursos, diz Costa, os alunos com melhores notas presencialmente tendem a se sair melhor a distância. Isso porque eles tendem a ser mais interessados nos estudos, menos dispersos e, claro, mais estudiosos.

MARKETING

Esse debate é importante porque muitas instituições de ensino fazem do uso de tablets e de computadores em sala de aula como uma forma de marketing. Certamente você já viu alguma publicidade desse tipo. Essas escolas vendem a ideia de que são melhores porque têm um dispositivo desses por aluno, por exemplo.

Será que são mesmo?

Muitas universidades de ponta dos EUA, por exemplo, estão fazendo o caminho contrário. Na Universidade de Michigan, que está entre as melhores do mundo, parte dos docentes começou recentemente a proibir celulares, tablets e laptops em sala de aula porque esses equipamentos acabam mais distraindo os estudantes do que ajudando no aprendizado.

Minha experiência como docente concorda com essa ideia. Nas aulas que ministro, esses equipamentos também são vetados –a menos que estejam em uso durante uma atividade, por exemplo. Se liberados durante uma explanação ou um debate, é batata: os alunos vão para o Facebook.

E você? O que pensa sobre o uso desse tipo de tecnologia em sala de aula? Comente aqui no blog!

 

Depois de FGV, Insper também vai usar nota do Enem no próximo processo seletivo

Por sabine
13/08/14 12:58

Depois de a FGV ter anunciado, em junho deste ano, que teria vagas reservadas para quem quiser entrar nos cursos de administração e de administração pública via Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), agora foi a vez do Insper ter a mesma iniciativa.

A partir do próximo processo seletivo, o instituto terá duas portas de entrada: o vestibular tradicional e o Enem.

Avaliar, certificar e selecionar: tudo por conta do Enem

A escola oferecerá 150 vagas para os cursos de graduação em administração e 75 para economia, das quais 20 e 10 vagas, respectivamente, serão destinadas aos  candidatos  que alcançarem a média acima de 700 pontos no Enem.

Ou seja: os alunos poderão concorrer as vagas pelo vestibular ou pelo exame nacional. As inscrições para o processo seletivo acontecem até 13 de outubro.

A ideia, de acordo com o coordenador executivo de processos seletivos do Insper,  Tadeu da Ponte, “é diversificar o perfil do ingressante do Insper facilitando assim o ingresso deles na escola.”

Trocando em miúdos, a proposta é atrair mais alunos de fora de São Paulo e também os egressos de escolas públicas.

Como isso acontece?

MILHÕES DE CANDIDATOS

Bom, o Enem tem milhões de inscritos. No ano passado, 7,7 milhões de estudantes fizeram o exame em todo o país. É muita gente.

Quem fizer Enem e atingir mais de 700 pontos, já se torna um aluno em potencial do Insper –mesmo que nem estivesse pensando em fazer algum curso no instituto.

O interessante é entender por que escolas de ponta, como FGV e Insper, que estão entre as três melhores escolas de administração do país de acordo com o último RUF, estão querendo “diversificar o perfil do aluno”, nas palavras do coordenador do instituto.

O que está por trás disso é a ideia de que quanto mais diverso o ambiente de estudos, mais rico ele será. Ou seja: uma turma heterogênea, com alunos de todo canto do país, e até de fora dele, tende a debater questões com mais profundidade e a chegar a soluções mais complexas.

BOLSA DE ESTUDOS

É claro que não basta criar mais uma porta de entrada para diversificar o perfil dos alunos. Hoje, a mensalidade do Insper sai por cerca de R$ 3,2 mil (cerca de cinco salários mínimos), o que obviamente limita –e muito– a quantidade de alunos que podem se manter no instituto.

Para quem for aprovado, mas não pode pagar, o Insper tem um programa de bolsas integral e parcial para quem não pode pagar. São 141 bolsistas –quase 45% a mais do que em 2010.

Agora, com a possibilidade de ingresso via Enem, esse número de bolsas pode crescer ainda mais. Tudo depende da quantidade de alunos egressos de escolas públicas, por exemplo.

MAIS ENEM

O Abecedário apurou que, além da FGV e do Insper, outras instituições de ensino superior renomadas estão estudando incluir o Enem no seu processo seletivo.

Uma dessas escolas é a Unicamp, que já tem um grupo de trabalho para analisar a possibilidade de ingresso na universidade também via Enem (como na FGV e no Insper) ou exclusivamente via Enem. Nesse caso, o tradicional vestibular dissertativo da Unicamp seria totalmente substituído pelo exame nacional do MEC, assim como aconteceu nas universidades federais.

 

Escolas devem ajudar na integração de alunos novos no meio do ano

Por sabine
31/07/14 18:20

O segundo semestre mal começou e já está chovendo mensagens de papais e de mamães cujos filhos mudaram de escola agora no meio do ano. Todos contam a mesma história: o filho não está conseguindo se adaptar.

Os principais problemas são relatados por aqueles que vão para uma escola bem diferente da anterior: de privada para pública, de escola grande para pequena, de modelo construtivista para uma pedagogia mais rígida. Por aí vai.

Tenho um caso na minha família. Meu sobrinho de 14 anos migrou de São Paulo para uma cidade do sul do país com a família e, claro, teve de mudar de escola. Está estranhando tudo e conta que passa os intervalos das aulas sozinho –o que parece ser o mais traumático.

Para um adulto, esse tipo de problema parece pequeno. Aliás, nem parece ser um problema. “Logo passa, dê tempo ao tempo.” Mas não é bem assim.

A escola é a principal atividade da maioria dos estudantes. É uma rotina diária, que pode durar metade do dia ou o dia inteiro. Agora imagine como é ficar sozinho, angustiado e sofrendo durante a sua atividade principal e diária?

Pois é. Isso pode atrapalhar bastante o rendimento escolar dos novatos e deixar traumas por bastante tempo. Justamente por isso, a escola nova tem a obrigação de ajudar na integração dos alunos novos.

COMISSÃO

Conversei com alguns professores, especialistas e alunos para tentar descobrir o que pode ser feito de bacana na integração dos novos aluninhos. Cheguei a um modelo que parece bem legal: a própria escola pode determinar quem serão os alunos responsáveis por receber e integrar quem está chegando.

Isso, aliás, já aconteceu comigo em uma das mudanças de escola mais difíceis que tive: quando fui estudar, sozinha, aos 16 anos, em uma cidadezinha de outro país.

A escola em que estava matriculada pediu que um aluno, também estrangeiro, ficasse responsável pela minha integração. Antes mesmo de começarem as aulas, ele foi se apresentar na minha casa e me ensinou o caminho até a escola.

No início da aulas, esse aluno me recebeu na porta da escola, mostrou onde era a minha sala e me apresentou para um grupo animado de estudantes, que me chamou na hora do intervalo. Pronto: eu já estava integrada.

Essa iniciativa é legal porque passa para os próprios alunos a função da integração. Acaba virando uma espécie de mentoria.

Por que não fazer a mesma coisa por aqui?

A maioria das escolas entende que o processo de integração deve se dar sozinho, sem intervenção, “naturalmente”. Algumas escolas até ajudam com aulas extras de conteúdo para os que chegam defasados. Mas poucas se preocupam com a socialização, como se o aprendizado envolvesse apenas processos racionais cognitivos.

Quanto mais a escola for acolhedora, mais o estudante irá se envolver com os estudos. E, para quem está chegando, esse acolhimento tem de ser especial.

Como são recebidos os alunos novos na sua escola? Conte para o blog!

 

Em ranking que considera salário de egresso, Babson é melhor que Harvard

Por sabine
28/07/14 17:00

Alguém aí já tinha ouvido falar do Babson College? Eu não. Mas essa instituição de Massachusetts (mesmo estado do famoso MIT) acaba de ser classificada como a melhor dos EUA em um ranking lançado nesta segunda-feira (28).

O novo ranking de universidades dos EUA é da revista “Money” (“Dinheiro”), que é do grupo “Time”.

A ideia da publicação foi classificar as universidades dos EUA a partir de três principais critérios: qualidade do ensino, acessibilidade (em termos de custo) e os salários do ex-alunos –que o ranking chamou chamou de “valor agregado”.

Babson College foi a escola com o melhor custo-benefício na matemática dos gastos e dos salários. Surpresa geral. É uma instituição focada em business, muito parecida com a brasileira FGV. Tem pouco mais de 2.000 alunos. Nem aparece em rankings internacionais de universidades.

A graduação na Babson sai por quase R$ 430 mil o curso todo, incluindo gastos com moradia e com alimentação durante a graduação. Caro? Sim, bastante, é 7% mais cara que a famosa Harvard. Mas os estudantes deixam a escola com um salário médio inicial de R$ 10,8 mil mensais.

Bacana, não?

Outra vantagem é que quem estuda no Babson College sai empregado. Durante a graduação, diz a “Money”, os alunos são incentivados a fazer trabalhos voluntários, fazem estágios na região e também são estimulados a abrir o próprio negócio.

Isso é importante. Concluir o ensino superior com dívida e sem emprego não é muito animador.

CARREIRA E SALÁRIO

De acordo com a “Money”, quem entra na universidade está preocupado com isso: carreira, o primeiro emprego e o salário em médio e longo prazo. Isso é especialmente importante nos EUA, em que todas as universidades são pagas (e caras).

Ou seja: na hora de avaliar uma instituição de ensino superior e escolher em qual estudar, é preciso avaliar o “valor agregado”.

Os indicadores usados pela “Money” para avaliar as universidades , claro, são polêmicos. Ao considerar gastos e salários, o ranking não prioriza critérios usados pela maioria dos rankings universitários, como a produção científica de cada universidade.

Entende-se, internacionalmente, que uma boa instituição de ensino superior faz pesquisa científica de qualidade.

Para se ter uma ideia, Harvard, que coleciona 47 docentes com prêmio Nobel e é a melhor do mundo de acordo com o ranking de Xangai, ficou em 6º na lista da “Money”.

80 ALUNOS

Além do Babson College, outra surpresa da lista da “Money” é o Instituto Webb, que tem apenas 80 alunos no curso único de engenharia naval. É uma graduação “barata” para os padrões americanos (R$ 170 mil). O salário inicial de quem sai de lá salta aos olhos: cerca de R$12 mil.

Dentre comentários e críticas que li sobre a nova avaliação de universidades da “Money”, gostei de uma: agora, com a lista de “Money”, os estudantes dos EUA têm uma forma a mais para avaliar as universidades e para tomar sua decisão de onde estudar.

Antes, o “US News” tinha o monopólio de rankings de universidades naquele país, feitos há mais de 30 anos. Quanto mais informações, melhor.

 

O Carnaval que passei ao lado de Rubem Alves

Por sabine
19/07/14 23:22

Eu nunca tive aula com Rubem Alves. Quando ingressei na Unicamp, recém-formada em jornalismo, para fazer a minha primeira pós, ele já estava aposentado e se dedicava principalmente à literatura. Teve mais de 120 livros publicados e foi colunista da Folha de 2002 a 2011.

Mas quando imagino uma aula do escritor, antropólogo, teólogo e educador que faleceu neste sábado (19), aos 80 anos, não penso em giz e lousa. Penso em troca de ideias e em construção coletiva do conhecimento.

“Não quero que a morte seja súbita”

“Sou grato pela vida”

Tive uma pequena amostra do que foi mestre Alves há cerca de dez anos, durante um Carnaval. Naquela época, eu fazia parte de um grupo de estudos de antropologia na Unicamp e viajei com alguns estudantes para o sítio de um docente da universidade, o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, grande amigo de Alves e co-autor, com ele, de “Encantar o mundo pela palavra” (Papirus, 2006).

O objetivo da viagem era fazer uma espécie de “retiro de leituras” especialmente nas áreas de educação, de filosofia e de antropologia. Eu estava me preparando para prestar uma prova do mestrado, então entrei de cabeça na proposta.

Acontece que o tal sítio do professor Brandão, no sul de Minas Gerais, ficava no alto de um montanha de onde se via outra montanha, onde era o sítio de Rubem Alves. De lá saía boas parte dos seus textos, era um lugar inspirador. Na beira da “montanha de Rubem Alves”, como chamavam, havia um lago com um barquinho branco estacionado –que já apareceram, lago e barquinho, em alguns dos seus contos. Parecia um lugar mágico.

Fiquei pensando que deve ter sido lá que Rubem Alves concebeu “O amor que acende a lua” (Papirus, 1999), coletânea de crônicas sobre o amor que foi lançada –e lida por mim– no ano em que comecei a estudar jornalismo. A lua no sul de Minas, aliás, é bem bonita.

Bem, eu e os colegas do grupo fazíamos caminhadas diárias pela região, que é linda, nos intervalos das leituras. Em alguns dos trajetos, contávamos com a companhia do professor Brandão. Às vezes, Alves também dava o ar de sua graça no meio do caminho. Ambos conversavam com os estudantes, indicavam leituras, trocavam ideias. Uma vez conversamos sobre astronomia. Tudo longe de giz, de lousa, de provas, de formalidades.

E eu nunca aprendi tanto.

ESCOLA CHATA

Era justamente isso que Rubem Alves pregava. Nos seus textos, ele pedia o fim da educação “chata”. Sim, aquele formato de escola onde eu estudei e provavelmente você também, cheia de regras, de provas, de metas.

Isso, dizia ele, atrapalha o livre aprendizado, a criatividade, o fluxo das ideias. Nas aulas de mestre Alves todos aprendiam: professor e aluno. Ele sempre dizia que o professor tem de aprender a ouvir os alunos –inclusive as crianças pequeninhas.

Tenho para mim que um bom docente é justamente aquele que se aproxima dos seus estudantes, que os escuta, que se conecta com eles. Esse docente, aliás, será imortal, como dizia o próprio Rubem Alves: “o bom professor sempre continua vivo.” Pois é.

Rubem Alves não morre totalmente porque suas ideias seguem existindo. E quanto mais a escola deixar de ser chata, mais vivo ele estará.

 

 

O que a Alemanha tem que nós não temos?

Por sabine
09/07/14 18:23

Já sabemos que o futebol da Alemanha é incrivelmente melhor do que o nosso. Isso ficou evidente na derrota brasileira por 7 a 1 na semifinal da Copa. O maior artilheiro das Copas, agora, é um alemão, Klose, que com 16 gols ultrapassou Ronaldo fenômeno, que tinha 15. A Alemanha é responsável pela maior derrota da seleção brasileira em campo.

Mas o fato é que o país é muito melhor do que o Brasil em muitos outros indicadores. Vamos, por exemplo, falar sobre educação.

A Alemanha está em 15º lugar no exame internacional Pisa, que avalia o desempenho de estudantes em ciências, matemática e leitura em 65 países. O Brasil está no final da fila no Pisa, em 58º lugar, atrás de países como Cazaquistão e Albânia.

André Luís Parreira: A goleada para a Alemanha

“Os alemães têm capacidade de se reerguer, o brasileiro não”

Não para por aí.

Um em cada quatro estudantes da Alemanha tem “alta performance” na avaliação de matemática do Pisa, o que significa que podem se transformar em ótimos engenheiros no futuro. Qualquer especialista em educação sabe que cursos “top” de engenharia dependem de boa formação de exatas na educação básica. Se a formação for ótima, bom, melhor ainda.

MELHORES EMPRESAS

Não é por coincidência que a Alemanha domina as engenharias e as tecnologias, internacionalmente, em empresas como VW, BMW, Bayer, Schering, Siemens, Basf, Dual, Adidas e outras. A Alemanha lidera a inovação mundial. Para se ter uma ideia, o país pede 20 vezes mais patentes do que o Brasil (com uma população que é menor do que a metade da brasileira).

E mais: o desempenho em matemática dos estudantes alemães no Pisa está melhorando gradativamente, assim como da China. Eles já são muitos bons, mas querem ser melhores ainda. O Brasil continua pífio.

Com educação básica em altíssimo nível, não fica difícil ter ensino superior de qualidade. Os alemães têm cinco universidades entre as cem melhores do mundo de acordo com o último ranking universitário THE (Times Higher Education). Já o Brasil não tem representante nem entre as 200 melhores da lista (a USP, melhor do Brasil, está em 226º lugar no mundo).

Das universidades e institutos de pesquisa da Alemanha saíram 103 prêmios Nobel, titulação máxima alcançada por um cientista. Nesse placar, estamos 103 x zero. A Argentina, nossa arqui-inimiga no futebol, que não tem um ensino superior lá tão consolidado, tem 4 prêmios Nobel. Olé!

O que falta no Brasil?

Muita coisa. Falta dinheiro, organização, liderança. Falta incluir a educação em um projeto do país –e falta uma“torcida” para acompanhar o desempenho desse projeto.

Falta até espírito guerreiro, como destacou Maria José Tonelli, especialista em psicologia social da FGV, em entrevista à Folha: “a Alemanha tem historicamente uma capacidade de se reerguer, o brasileiro não.”

É óbvio que a Alemanha tem lá seus muitos problemas, bastante conhecidos pela história da humanidade. A inflexibilidade e certa frieza dos alemães podem ser uma barreira a ser vencida em um mundo mais globalizado (eu, filha e neta de alemães, conheço bem isso!) Mas diríamos que é um obstáculo bem pequeno, certo?

“Acho que é a questão de ter menos emoção e mais preparo técnico, e isso não é restrito apenas ao futebol”, diz Tonelli. Sim, falta preparo técnico em tudo no Brasil. Mas a gente sempre acha que vai ganhar “no jeitinho”.

Não adianta querer ser o melhor do mundo “apenas” no futebol. Temos de nos inspirar na Alemanha. Que tal tentarmos sermos os melhores em tudo?

 

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