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Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Em ranking que considera salário de egresso, Babson é melhor que Harvard

Por sabine
28/07/14 17:00

Alguém aí já tinha ouvido falar do Babson College? Eu não. Mas essa instituição de Massachusetts (mesmo estado do famoso MIT) acaba de ser classificada como a melhor dos EUA em um ranking lançado nesta segunda-feira (28).

O novo ranking de universidades dos EUA é da revista “Money” (“Dinheiro”), que é do grupo “Time”.

A ideia da publicação foi classificar as universidades dos EUA a partir de três principais critérios: qualidade do ensino, acessibilidade (em termos de custo) e os salários do ex-alunos –que o ranking chamou chamou de “valor agregado”.

Babson College foi a escola com o melhor custo-benefício na matemática dos gastos e dos salários. Surpresa geral. É uma instituição focada em business, muito parecida com a brasileira FGV. Tem pouco mais de 2.000 alunos. Nem aparece em rankings internacionais de universidades.

A graduação na Babson sai por quase R$ 430 mil o curso todo, incluindo gastos com moradia e com alimentação durante a graduação. Caro? Sim, bastante, é 7% mais cara que a famosa Harvard. Mas os estudantes deixam a escola com um salário médio inicial de R$ 10,8 mil mensais.

Bacana, não?

Outra vantagem é que quem estuda no Babson College sai empregado. Durante a graduação, diz a “Money”, os alunos são incentivados a fazer trabalhos voluntários, fazem estágios na região e também são estimulados a abrir o próprio negócio.

Isso é importante. Concluir o ensino superior com dívida e sem emprego não é muito animador.

CARREIRA E SALÁRIO

De acordo com a “Money”, quem entra na universidade está preocupado com isso: carreira, o primeiro emprego e o salário em médio e longo prazo. Isso é especialmente importante nos EUA, em que todas as universidades são pagas (e caras).

Ou seja: na hora de avaliar uma instituição de ensino superior e escolher em qual estudar, é preciso avaliar o “valor agregado”.

Os indicadores usados pela “Money” para avaliar as universidades , claro, são polêmicos. Ao considerar gastos e salários, o ranking não prioriza critérios usados pela maioria dos rankings universitários, como a produção científica de cada universidade.

Entende-se, internacionalmente, que uma boa instituição de ensino superior faz pesquisa científica de qualidade.

Para se ter uma ideia, Harvard, que coleciona 47 docentes com prêmio Nobel e é a melhor do mundo de acordo com o ranking de Xangai, ficou em 6º na lista da “Money”.

80 ALUNOS

Além do Babson College, outra surpresa da lista da “Money” é o Instituto Webb, que tem apenas 80 alunos no curso único de engenharia naval. É uma graduação “barata” para os padrões americanos (R$ 170 mil). O salário inicial de quem sai de lá salta aos olhos: cerca de R$12 mil.

Dentre comentários e críticas que li sobre a nova avaliação de universidades da “Money”, gostei de uma: agora, com a lista de “Money”, os estudantes dos EUA têm uma forma a mais para avaliar as universidades e para tomar sua decisão de onde estudar.

Antes, o “US News” tinha o monopólio de rankings de universidades naquele país, feitos há mais de 30 anos. Quanto mais informações, melhor.

 

O Carnaval que passei ao lado de Rubem Alves

Por sabine
19/07/14 23:22

Eu nunca tive aula com Rubem Alves. Quando ingressei na Unicamp, recém-formada em jornalismo, para fazer a minha primeira pós, ele já estava aposentado e se dedicava principalmente à literatura. Teve mais de 120 livros publicados e foi colunista da Folha de 2002 a 2011.

Mas quando imagino uma aula do escritor, antropólogo, teólogo e educador que faleceu neste sábado (19), aos 80 anos, não penso em giz e lousa. Penso em troca de ideias e em construção coletiva do conhecimento.

“Não quero que a morte seja súbita”

“Sou grato pela vida”

Tive uma pequena amostra do que foi mestre Alves há cerca de dez anos, durante um Carnaval. Naquela época, eu fazia parte de um grupo de estudos de antropologia na Unicamp e viajei com alguns estudantes para o sítio de um docente da universidade, o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, grande amigo de Alves e co-autor, com ele, de “Encantar o mundo pela palavra” (Papirus, 2006).

O objetivo da viagem era fazer uma espécie de “retiro de leituras” especialmente nas áreas de educação, de filosofia e de antropologia. Eu estava me preparando para prestar uma prova do mestrado, então entrei de cabeça na proposta.

Acontece que o tal sítio do professor Brandão, no sul de Minas Gerais, ficava no alto de um montanha de onde se via outra montanha, onde era o sítio de Rubem Alves. De lá saía boas parte dos seus textos, era um lugar inspirador. Na beira da “montanha de Rubem Alves”, como chamavam, havia um lago com um barquinho branco estacionado –que já apareceram, lago e barquinho, em alguns dos seus contos. Parecia um lugar mágico.

Fiquei pensando que deve ter sido lá que Rubem Alves concebeu “O amor que acende a lua” (Papirus, 1999), coletânea de crônicas sobre o amor que foi lançada –e lida por mim– no ano em que comecei a estudar jornalismo. A lua no sul de Minas, aliás, é bem bonita.

Bem, eu e os colegas do grupo fazíamos caminhadas diárias pela região, que é linda, nos intervalos das leituras. Em alguns dos trajetos, contávamos com a companhia do professor Brandão. Às vezes, Alves também dava o ar de sua graça no meio do caminho. Ambos conversavam com os estudantes, indicavam leituras, trocavam ideias. Uma vez conversamos sobre astronomia. Tudo longe de giz, de lousa, de provas, de formalidades.

E eu nunca aprendi tanto.

ESCOLA CHATA

Era justamente isso que Rubem Alves pregava. Nos seus textos, ele pedia o fim da educação “chata”. Sim, aquele formato de escola onde eu estudei e provavelmente você também, cheia de regras, de provas, de metas.

Isso, dizia ele, atrapalha o livre aprendizado, a criatividade, o fluxo das ideias. Nas aulas de mestre Alves todos aprendiam: professor e aluno. Ele sempre dizia que o professor tem de aprender a ouvir os alunos –inclusive as crianças pequeninhas.

Tenho para mim que um bom docente é justamente aquele que se aproxima dos seus estudantes, que os escuta, que se conecta com eles. Esse docente, aliás, será imortal, como dizia o próprio Rubem Alves: “o bom professor sempre continua vivo.” Pois é.

Rubem Alves não morre totalmente porque suas ideias seguem existindo. E quanto mais a escola deixar de ser chata, mais vivo ele estará.

 

 

O que a Alemanha tem que nós não temos?

Por sabine
09/07/14 18:23

Já sabemos que o futebol da Alemanha é incrivelmente melhor do que o nosso. Isso ficou evidente na derrota brasileira por 7 a 1 na semifinal da Copa. O maior artilheiro das Copas, agora, é um alemão, Klose, que com 16 gols ultrapassou Ronaldo fenômeno, que tinha 15. A Alemanha é responsável pela maior derrota da seleção brasileira em campo.

Mas o fato é que o país é muito melhor do que o Brasil em muitos outros indicadores. Vamos, por exemplo, falar sobre educação.

A Alemanha está em 15º lugar no exame internacional Pisa, que avalia o desempenho de estudantes em ciências, matemática e leitura em 65 países. O Brasil está no final da fila no Pisa, em 58º lugar, atrás de países como Cazaquistão e Albânia.

André Luís Parreira: A goleada para a Alemanha

“Os alemães têm capacidade de se reerguer, o brasileiro não”

Não para por aí.

Um em cada quatro estudantes da Alemanha tem “alta performance” na avaliação de matemática do Pisa, o que significa que podem se transformar em ótimos engenheiros no futuro. Qualquer especialista em educação sabe que cursos “top” de engenharia dependem de boa formação de exatas na educação básica. Se a formação for ótima, bom, melhor ainda.

MELHORES EMPRESAS

Não é por coincidência que a Alemanha domina as engenharias e as tecnologias, internacionalmente, em empresas como VW, BMW, Bayer, Schering, Siemens, Basf, Dual, Adidas e outras. A Alemanha lidera a inovação mundial. Para se ter uma ideia, o país pede 20 vezes mais patentes do que o Brasil (com uma população que é menor do que a metade da brasileira).

E mais: o desempenho em matemática dos estudantes alemães no Pisa está melhorando gradativamente, assim como da China. Eles já são muitos bons, mas querem ser melhores ainda. O Brasil continua pífio.

Com educação básica em altíssimo nível, não fica difícil ter ensino superior de qualidade. Os alemães têm cinco universidades entre as cem melhores do mundo de acordo com o último ranking universitário THE (Times Higher Education). Já o Brasil não tem representante nem entre as 200 melhores da lista (a USP, melhor do Brasil, está em 226º lugar no mundo).

Das universidades e institutos de pesquisa da Alemanha saíram 103 prêmios Nobel, titulação máxima alcançada por um cientista. Nesse placar, estamos 103 x zero. A Argentina, nossa arqui-inimiga no futebol, que não tem um ensino superior lá tão consolidado, tem 4 prêmios Nobel. Olé!

O que falta no Brasil?

Muita coisa. Falta dinheiro, organização, liderança. Falta incluir a educação em um projeto do país –e falta uma“torcida” para acompanhar o desempenho desse projeto.

Falta até espírito guerreiro, como destacou Maria José Tonelli, especialista em psicologia social da FGV, em entrevista à Folha: “a Alemanha tem historicamente uma capacidade de se reerguer, o brasileiro não.”

É óbvio que a Alemanha tem lá seus muitos problemas, bastante conhecidos pela história da humanidade. A inflexibilidade e certa frieza dos alemães podem ser uma barreira a ser vencida em um mundo mais globalizado (eu, filha e neta de alemães, conheço bem isso!) Mas diríamos que é um obstáculo bem pequeno, certo?

“Acho que é a questão de ter menos emoção e mais preparo técnico, e isso não é restrito apenas ao futebol”, diz Tonelli. Sim, falta preparo técnico em tudo no Brasil. Mas a gente sempre acha que vai ganhar “no jeitinho”.

Não adianta querer ser o melhor do mundo “apenas” no futebol. Temos de nos inspirar na Alemanha. Que tal tentarmos sermos os melhores em tudo?

 

O que está por trás de “mãe é quem educa, pai é quem paga as contas”

Por sabine
08/07/14 12:46

Eu não assisto novela. Costumo deixar a TV desligada à noite em casa, pois passo muitas horas do dia diante de várias TVs ligadas na redação. Em casa, ouço música.

Ontem, no entanto, a TV estava ligada na novela das nove, da Rede Globo, enquanto eu preparava o jantar. Foi tempo suficiente para ouvir a seguinte frase, dita em um diálogo entre mãe para filha: “Mãe é quem educa, pai é quem paga as contas.”

Resolvi prestar atenção.

A mãe, Helena, personagem principal da trama, interpretada por Júlia Lemmertz, tentava conversar com a filha, interpretada por Bruna Marquezine (a namorada do Neymar), sobre o relacionamento dela com um cara mais velho.

Mães ainda são maioria nas reuniões das escolas

E aí surgiu a tal frase. Pois bem. O que há por trás da ideia de que “mãe é quem educa, pai é quem paga a conta”?

São dois pontos principais:  a ideia de que a educação dos filhos não é coisa para homem e a ideia de que a mulher é incapaz de ganhar o suficiente para sustentar um filho (e, talvez, a si própria).

Há também a ideia de divisão de tarefas por gênero. Enquanto um educa (a mulher), o outro paga as contas (o homem).

Já escrevi sobre o primeiro ponto algumas vezes aqui no blog. Ainda hoje, no Brasil, as mulheres são maioria nas reuniões das escolas, costumam acompanhar as tarefas de casa mais do que os pais e estão mais presentes na hora de dar bronca.

MAIORIA FEMININA

Também nas escolas o papel da educação é delegado à mulher. No Brasil, 80% dos docentes são mulheres e têm em média 40 anos anos (leia sobre isso aqui).

Isso, no entanto, está mudando. A geração de novos papais tem se mostrado muito mais presente do que os papais anteriores. E esse movimento tende a crescer aos poucos porque a mulher tem ganhado mais espaço no mercado de trabalho e o homem tem ganhado mais espaço em casa.

Bom, mas pela lógica da personagem da novela, o pai não educa porque paga as contas. Ok, vamos investigar isso.

Resolvi pesquisar sobre a tal Helena. De acordo com perfil no site da própria Globo, ela é uma “mulher independente”, com “personalidade forte”. E mais: é dona de uma casa de leilões. Isso dá dinheiro, certo?

Já o marido dela, Virgílio, “cavaleiro de Goiânia”, interpretado por Humberto Martins, “ajuda a esposa na casa de leilões” (do mesmo site da Globo).

Hum. Parece que, nesse caso, a mãe é quem está pagando as contas, não?

Qual é o problema disso? Nenhum. O problema é delegar à mulher a função solitária de educar as crianças mesmo quando existe a figura de um homem na família. Essa tarefa deve ser dividida entre pai e mãe, cada casal da sua maneira.

O pai deve estar presente além das brincadeiras e do pagamento das contas. Seria bom mostrar isso em uma novela.

 

A nova mulher ‘pedreira’ da Copa

Por sabine
01/07/14 13:15

Há um fenômeno interessante nesta Copa do Mundo no Brasil: a nova mulher “pedreira”.

São mulheres que tecem longos comentários sobre atributos físicos dos jogadores –assim como fariam os homens, caso o campeonato fosse feminino.

Tudo é assunto: os tanquinhos de quem está em campo (visível, especialmente, em times que usam um novo modelo justinho de uniforme), as pernas ou, sim, a bunda.

Na partida do Brasil contra o México, em que Hulk ficou de fora, a hashtag #nãovaiterbunda foi uma das mais usadas nas redes sociais como o Twitter. A mulherada estava inconformada com a ausência do jogador. “Nosso muso está no banco.” Já os homens, não se conformavam com os posts femininos.

Os elogios do tipo “pedreiro” são aqueles comumente escutados pelas mulheres nas ruas. Sabe quando se passa em frente a uma obra? Então.

‘PEDREIROS’

Ao que parece, o termo “pedreiro” foi cunhado pelas próprias mulheres para classificar os elogios mais “pesados”, com referências sexuais. Mas agora, nesta Copa, as mulheres também estão se mostrando pedreiras.

Qual é o problema disso? Em princípio, nenhum. O curioso é que o fenômeno está causando um estranhamento no universo masculino brasileiro.

Eu já ouvi de tudo.

Um primo, por exemplo, comentou, inconformado, sobre a sua chefe, que falara sobre os atributos do mesmo Hulk (sempre o Hulk!). Um amigo disse que as “mulheres não são mais as mesmas” e que agora estão “mais atiradas”.  Outro reclamava sobre a atenção dispensada às camisetas mais justinhas. “Isso é estranho porque as mulheres são menos visuais.” São?

A reação masculina sobre a “pedreirice” feminina reside em uma questão ligada a questões de gênero e de educação: nós não fomos treinados para isso.

Sim, isso mesmo.

Homens aprenderam a valorizar –e a comentar, inclusive em público,– os atributos femininos. As mulheres não.  Alguém aí já viu uma menina comentando com a mãe sobre um garoto bonito que passou na rua? Eu não.

Por que não?

NA ESCOLA

Esse tipo de treinamento, que define o papel do homem e da mulher, e estipula limites para cada sexo, está presente em casa e na escola. Já escrevi sobre isso aqui no blog.

Esses limites, obviamente, não são naturais. Devemos podar uma menina que comenta sobre a beleza de um coleguinha? Devemos estimular um garoto a chamar uma mulher de gostosa?

Nem uma coisa, nem outra.

Meninas e meninos devem ter o direito de admirar o belo. E meninas e meninos devem respeitar o limite do outro ao externalizar tal admiração.

Você pode até achar uma fulana que está passando na rua bonita, com formas perfeitas, mas gritar “gostosa” pode ser entendido por ela como uma baita agressão. A mesma regra deveria valer para as mulheres.

Regras iguais, papeis iguais, direitos iguais. Vamos debater isso?

Hulk: gigante pela própria natureza

 

Por falta de educação em ciências, brasileiro dispensa bula e corre riscos

Por sabine
25/06/14 14:21

Atire a primeira pedra quem nunca se desfez rapidamente da bula de um novo medicamente antes de armazená-lo.

A prática de ignorar a bula dos remédios é velha conhecida da cultura brasileira. O que especialistas dizem é que o problema está relacionado com a nossa educação.

Como o ensino de ciências no Brasil é muito ruim, classificado no final da lista de países avaliados pelo exame internacional Pisa, ninguém entende as bulas e, por isso, não se interessam por elas.

Quer ver?

Vamos pegar a bula da aspirina, um remédio consumido internacionalmente.

ÁCIDO ACETILSALICÍLICO

Sua bula informa que cada comprimido tem 500 mg de “ácido acetilsalicílico” e que os “componentes inertes” são amido e celulose.

Digo com segurança que a maioria dos brasileiros nunca ouviu as palavras entre aspas, mas consome aspirina (sem ter ideia do que está ingerindo).

O problema é que a bula da aspirina informa também que a sua ingestão aumenta o risco de sangramento. Isso pode ser fatal para pacientes, por exemplo, com dengue reincidente, que costuma causar hemorragias.

A bula da aspirina também alerta que os comprimidos devem ser armazenados “na sua embalagem original, em temperatura ambiente, entre 15 a 30°C” e protegidos da umidade.

Opa! Mas não tem um monte de gente que armazena medicamentos justamente no local mais úmido da casa, ou seja, o banheiro? Pois é. O medicamento pode, por exemplo, perder o efeito.

SEM BULA

Esse problema do descarte das bulas é conhecido pelas indústrias farmacêuticas.

Em visita recente a uma das fábricas da Pfizer no Brasil, que produz medicamentos como o Advil, o coordenador da logística, Reinaldo Oliveira, contou que a maioria dos medicamentos que retorna à fábrica por “problemas” chega sem bula.

“Sabemos que a bula é a primeira coisa que o usuário joga fora ao abrir o remédio”, diz Oliveira.

A taxa de retorno à fábrica de medicamentos Pfizer é de 0,2%. Podem voltar à fábrica comprimidos que, por exemplo, mudaram de cor ou de consistência –o que pode acontecer quando se armazena um medicamento como a aspirina no banheiro.

A pergunta que fica é: o que fazer para que as pessoas leiam mais as bulas e corram menos riscos?

INTERESSE 

Bom, as pessoas precisam se interessar pelas bulas. E sabe-se que o interesse pela ciência e a educação científica caminham juntos.

Em um trabalho publicado em 2010 por um grupo de pesquisa do qual faço parte na Unicamp, vimos que a leitura de bulas de remédios e de rótulos de alimentos aumenta quando o interesse declarado pela ciência é maior.

A pesquisa foi feita no estado de São Paulo para uma publicação da Fapesp com base em um questionário (veja aqui os resultados da pesquisa).

Vejam que bacana: 69,3% dos que declaram que se interessam muito por ciência também informaram que leem bulas de medicamentos. A rotina de ler bulas cai conforme o interesse por ciência diminui.

E, adivinhem: “Daqueles que frequentaram ou frequentam ensino superior e ou outros níveis superior de ensino, 71,7% declaram que leem bulas de remédios.”

A relação entre escolaridade, interesse por ciência e leitura de bulas de remédios, evidenciada nesta pesquisa, mostra o quanto educação e saúde caminham juntos.

Uma sociedade com melhores níveis de educação está mais preparada para entender e lidar com sua própria saúde.

 

Primeiro vestibular da Univesp mostra que ensino a distância tem demanda

Por sabine
23/06/14 08:00

Muita gente torce o nariz quando se fala sobre ensino a distância no Brasil. Mas o fato é que há demanda.

O primeiro vestibular para os cursos de engenharias a distância oferecidos pela Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), por exemplo, teve uma média de 5,7 candidatos por vaga.

A procura é semelhante a de engenharias do campus de Pirassununga da USP, que varia entre 6 e 7 candidatos por vaga.

O primeiro vestibular da Univesp aconteceu agora em junho. Os dados são fresquinhos.

A Univesp ainda não tem informação etária dos candidatos, mas a expectativa é que eles sejam mais velhos do que a média dos estudantes de uma universidade pública.

MAIS VELHOS

Isso porque quem procura ensino a distância tende a estar fora da chamada “idade universitária”, ou seja, de 18 a 24 anos.

Na tradicional Poli-USP, por exemplo, sete em cada dez matriculados em 2013 nos cursos de engenharias tinham até 18 anos.

Os mais velhos não conseguem entrar no curso ou sequer tentam porque moram longe de São Paulo, trabalham, ainda não concluíram o ensino médio ou não teriam condições de fazer aulas presencialmente em período integral.

Quem não pode fazer engenharia em uma escola como a Poli-USP enquanto jovem estará fadado à exclusão do curso de engenharia em uma universidade pública?

Quero acreditar que não.

MINORIA

No Brasil, apenas 14% dos jovens em idade universitária estão no ensino superior. Ou seja: muitos dos que estão fora da universidade enquanto jovens poderão se interessar por ela no futuro –e podem ver no ensino a distância uma alternativa de estudos.

O problema é que, por aqui, essa modalidade de ensino virou sinônimo de diploma fácil, de curso rápido e de pouco aprofundamento.

Trata-se de um cenário bem diferente do observados nas melhores universidades do mundo, como as norte-americanas MIT e Harvard, que estão entrando de cabeça no ensino a distância e conquistando alunos em todo o mundo.

Já escrevi sobre isso aqui no blog.

Entendo que cursos a distância têm qualidade questionável quando são oferecidos por instituições que também têm ensino presencial com qualidade questionável.

Quando o histórico presencial é positivo (caso das universidades norte-americanas) ou quando a instituição é criada com objetivo de ser virtual (caso da Univesp), os resultados podem ser bem melhores.

 

Em carta, reitor da USP diz que vai contratar auditoria e fala em desvios

Por sabine
18/06/14 18:39

A USP vai contratar uma auditoria externa para examinar os recentes gastos orçamentários “vultuosos” da universidade.

A informação é do próprio reitor da universidade, Marco Antonio Zago, em uma carta enviada por e-mail nesta semana aos cerca de 92.000 alunos da universidade.

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A possibilidade de uma auditoria externa já havia sido cantada no início de junho (leia aqui), mas não estava confirmada pelo reitor.

Foi confirmada porque, de acordo com Zago, a crise financeira da USP “é real”.

Hoje, a USP consome 105% do orçamento apenas em salários –o que significa um déficit mensal de R$15 milhões só na folha de pagamentos.

Considerando todos os gastos da universidade, o déficit deve chegar a R$ 1 bilhão neste ano, diz Zago.

O balanço no vermelho fez com que o reitor negasse o pedido de ajuste salarial a docentes e funcionários, que entraram em greve em maio.

Como a situação chegou neste ponto?

Zago diz que não sabe, apesar de que fazia parte da gestão anterior como pró-reitor de pesquisa.

“Para esclarecer os aspectos envolvidos, identificar os eventuais erros e desvios e apurar as responsabilidades, nomeei uma Comissão de Sindicância com plenos poderes para examinar os documentos e ouvir a quem julgar necessário para se desincumbir de sua missão”, escreve Zago na carta.

DESVIOS

Essa é a primeira vez que a universidade fala em “desvios”. Até o momento, a crise era atribuída a problemas de gestão, excesso de obras e até “supersalários” de docentes.

Pelo menos 167 docentes (3% do total da USP) ganhavam acima do teto estabelecido constitucionalmente –o que levou à reprovação das contas da universidade no TCE (Tribunal de Contas do Estado) em março deste ano.

Na carta aos alunos, Zago anuncia também uma maior transparência dos gastos financeiros da USP.

Hoje, não está claro como a USP gasta seu orçamento, para onde vai o dinheiro de doações e quanto há na “poupança” da universidade (se ainda houver alguma coisa).

Já escrevi sobre isso no blog (leia aqui).

A Folha vai acompanhar de perto a revisão dos gastos da USP mencionada pelo reitor. Todos os alunos, funcionários e docentes deveriam fazer o mesmo.

 

Leia carta do reitor aos alunos da USP: 

Aos estudantes da Universidade de São Paulo:

Ciente das preocupações do corpo discente, provocadas pelas atuais discussões sobre a questão orçamentária e a greve de servidores e docentes, acredito serem necessários esclarecimentos que ajudem os alunos a compreenderem o momento político.

A atual greve decretada pelos sindicatos de servidores e de docentes da USP é resultado da decisão do Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) de não conceder reajuste salarial neste momento, em virtude da situação financeira das três Universidades. Todas estão com mais de 95% dos respectivos orçamentos comprometidos com o pagamento de salários e outras vantagens pessoais. No caso da USP, esse percentual ultrapassa 100%.

Para que se tenha ideia da gravidade desse quadro, basta dizer que o Tribunal de Contas do Estado, nos recentes julgamentos das contas das três Universidades, tem repetidamente advertido as Instituições sobre o excessivo comprometimento com os gastos de pessoal, entre os anos de 2007 a 2011, em que a folha de pagamento perfazia até 86% do total.

Contrariamente ao que se procura difundir, a crise financeira é real. Durante o ano de 2013, houve apenas duas reuniões ordinárias do Conselho Universitário; não houve discussão e aprovação do orçamento de 2014.

Ao assumir a Reitoria, em janeiro de 2014, os atuais gestores encontraram um comprometimento sem precedentes do orçamento com gastos com pessoal: a USP desembolsa hoje, por mês, apenas com pagamento de pessoal, R$ 15 milhões a mais do que recebe de repasse da parcela que lhe cabe do ICMS do Estado.

Diante disso, a nova gestão convocou a todos os diretores e demais gestores da Universidade para estudar alternativas; suspendeu as contratações e, como lhe cabe fazer, transmitiu as informações disponíveis à Comissão de Orçamento e Patrimônio do Conselho Universitário, que encaminhou ao Co a proposta orçamentária, com a redução dos gastos de custeio aos níveis de 2010, e recomendou à gestão que procure limitar o déficit financeiro, no presente ano, a R$ 570 milhões.

Infelizmente, como os gastos com pessoal continuam crescendo, o ritmo atual projeta déficit de mais de R$ 1 bilhão para o presente ano (sendo que, nos anos de 2011, 2012 e 2013, já houve déficits crescentes de R$ 275 milhões, R$ 570 milhões e R$ 1 bilhão, respectivamente).

A sobrevivência da USP neste período, aí incluído o pagamento dos salários, somente foi possível devido à existência de uma “poupança”, da qual estão sendo sacados recursos para cobrir o déficit. Tal “poupança”, entretanto, está se reduzindo rapidamente, ao ritmo atual de R$ 90 milhões por mês.

A crise é, portanto, real e sua causa está no excessivo comprometimento com salários. Em 2009, a USP gastava com salários 82% dos repasses de ICMS. Entre 2009 e 2013, os recursos orçamentários da USP aumentaram em 50%, mas a massa salarial cresceu 83%, elevando para 100% o percentual do orçamento comprometido com a folha de pagamento no ano passado. Hoje, esse comprometimento atinge 105%.

Por que aconteceu isso? Para esclarecer os aspectos envolvidos, identificar os eventuais erros e desvios e apurar as responsabilidades, nomeei uma Comissão de Sindicância com plenos poderes para examinar os documentos e ouvir a quem julgar necessário para se desincumbir de sua missão. Além disso, determinei, ainda, providências para contratar firma de auditoria externa para examinar os procedimentos que resultaram em gastos vultosos de recursos orçamentários.

Visando evitar a repetição desses fatos, criei um Grupo de Trabalho para organizar uma Controladoria na USP, órgão que funcionará de maneira independente da Reitoria, podendo referir-se diretamente ao Conselho Universitário, para fazer o acompanhamento da execução orçamentária e, também, se responsabilizar pela divulgação e publicidade dos dados financeiros da USP.

Nenhuma decisão de monta sobre uso de recursos tem sido tomada sem exame pela Comissão de Orçamento e Patrimônio e pelo próprio Conselho Universitário. Assim, a solicitada transparência sobre contas e procedimentos está sendo progressivamente implantada por meio de ações concretas tomadas até o momento. Obviamente, esses procedimentos podem ser aperfeiçoados e ampliados e, para isso, contamos com as sugestões de todos.

Essas medidas fazem parte do conjunto de ações iniciadas desde a posse da nova equipe, marcando o início do processo de democratização da USP, consoante a demanda dos estudantes e nosso compromisso durante a campanha. Para isso:

  • Convoquei o Conselho Universitário, no dia 25 de março, com uma pauta exclusiva para organizar a reforma. Naquela sessão, foram definidos um calendário de reuniões, uma pauta específica e uma comissão de dez membros (seis docentes, dois estudantes e dois servidores) foi escolhida para estruturar os trabalhos, coletar e sistematizar as propostas e organizar os debates. No dia 3 de junho, ocorreu a primeira reunião de debates, gravada e transmitida pela IPTV-USP. A meu convite, manifestaram-se, na reunião, a Adusp, o Sintusp e o DCE. Naquela reunião, 34 conselheiros se manifestaram sobre os três primeiros temas da agenda (missão, responsabilidade social e princípios da Universidade; ensino, pesquisa, cultura e extensão; e gestão, transparência e resp onsabilidade fiscal). A próxima reunião está agendada para 2 de setembro e os estudantes dispõem de meios para participar plenamente do debate.
  • Por minha iniciativa, na segunda reunião do Conselho Universitário, realizada em 25 de fevereiro deste ano, foi votada mudança do Estatuto da USP, que aboliu a lista tríplice para escolha de diretor e vice-diretor das Unidades de Ensino e Pesquisa, Museus e Institutos Especializados, cabendo ao reitor apenas a designação dos mais votados e não mais a escolha desses dirigentes.

Quanto ao debate sobre pagamentos de mensalidades na Universidade, há que se enfatizar que eu e todos os membros da atual gestão jamais apoiamos essa opção como forma de resolver as dificuldades financeiras presentes. Pelo contrário, tenho alertado às representações de estudantes, servidores e docentes sobre os riscos de que um confronto sobre questões salariais leve à desqualificação das lideranças da USP no que se refere à capacidade de administrar uma crise financeira que, não tendo sido gerada pelos atuais gestores, nos cabe resolver. Mas, acredito ser importante que esta crise seja enfrentada sem desprestigiar a autonomia universitária. O enfraquecimento da USP nesse contexto representa o maior risco possível para o ensino universitário público gratuito e de qualidade.

Tenho reiterado minha disposição em conversar com toda a comunidade, em especial os estudantes. Embora tenha participado de vários encontros com muitos discentes neste último mês, há, ainda, espaços para ampliar essa comunicação. Por esse motivo, foi criado um novo canal direto com o reitor: o formulário “Fale com o Reitor”, cujo link está disponível no Portal da USP.

Atenciosamente,

Marco Antonio Zago

Reitor

 

Na abertura da Copa, pais ensinam filhos a xingar croata de ‘viadinho’

Por sabine
16/06/14 12:47

Eu não fui à Arena Corinthians na abertura da Copa do Mundo no Brasil.

Não vi de perto o duelo de Cláudia Leitte e Jennifer Lopez, não estava lá quando a presidente Dilma Rousseff foi vaiada e nem presenciei os gols do Brasil contra a Croácia.

Mas acompanhei uma discussão interessante para o blog.

Uma colega da Folha super talentosa, Lígia Mesquita, estava no estádio e fez um relato interessante sobre o que ela presenciou.

Ela disse ter visto criancinhas pequenas xingando de peito estufado a presidente Dilma. Eram encorajadas pelos pais, que xingavam junto.

Tais crianças, diz Mesquita, teriam entre 5 e 7 anos.

As mesmas crianças também xingaram os adversários do Brasil no jogo, os croatas.

“Ouvi gritarem ‘chupa’ para os croatas.”

CROATA ‘VIADINHO’

“Também cantavam ‘todo croata que conheço é viadinho’ à exaustão”, diz Mesquita.

Todo croata que conheço é viadinho? Oi? (Quantos croatas essas crianças conhecem?)

E os pais? “Estavam gargalhando e estimulando.”

Mesquita chama atenção para um ponto bastante importante nessa discussão.

“Foram cenas protagonizadas, em sua maioria, por pessoas que reclamam que os gastos da Copa deveriam ter sido destinados para educação.”

Pois é.

Faz algum sentido brigar por gastos em educação, ir à Arena Corinthians com os filhos e incentivá-los a xingar a presidente e os croatas? Não, claro que não.

Xingar –seja a presidente, seja o time adversário– é um dos sinais mais claros de falta de educação, de analfabetismo político, de falta de argumentos, de falta de respeito. Já escrevi sobre isso aqui no blog.

Na estréia de outro país na Copa, o Japão, a cena foi bem diferente.

SACOS DE LIXO

Os japoneses não xingaram ninguém. E quem esteve na Arena Pernambuco relatou que, ao final do jogo, a torcida do Japão usou sacos plásticos próprios para limpar o estádio (leia aqui).

O Japão tem um dos melhores índices de educação do mundo em avaliações internacionais e já ultrapassou até países “top” como a Finlândia.

Já o Brasil continua no final da lista de países avaliados por exames internacionais como o Pisa, da OCDE.

Será mesmo que para melhorar a educação do nosso país precisamos apenas de mais dinheiro?

Se queremos mais educação temos de ter mais educação.

Candidato da FGV poderá usar nota do Enem a partir do próximo vestibular

Por sabine
05/06/14 12:08

Os estudantes que quiserem prestar os cursos de administração ou administração pública na FGV de São Paulo agora poderão usar nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

A mudança acontece já no próximo próximo processo seletivo, que deve abrir inscrições em julho.

O aluno poderá escolher o vestibular tradicional da fundação ou a nota do Enem (ou os ambos) no ato de inscrição do processo seletivo.

Haverá vagas reservadas para as duas opções.

Alunos “fora da elite” se destacam na melhor escola de administração do país

Confira a avaliação de administração da FGV no RUF

No curso de administração, que é voltado para administração de empresas, 15 das 200 vagas serão destinadas ao Enem. Já em administração pública serão 5 das 50 vagas.

“O que muda é o processo seletivo, mas não haverá nenhum tipo de identificação do aluno que entrou pelo vestibular tradicional ou pelo Enem”, explica Nelson Lerner Barth, coordenador do curso de administração.

NACIONALMENTE

A ideia da FGV, explica Marco Antonio Carvalho Teixeira, vice-coordenador do curso de administração pública, é permitir que estudantes de todo o país possam concorrer às vagas da FGV.

Como o Enem é aplicado nacionalmente, a prova é uma boa forma de atingir esse objetivo.

No ano passado, 7,7 milhões de estudantes se inscreveram para o exame em todo o país.

Hoje, o vestibular da FGV acontece apenas em cinco capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Distrito Federal) e em duas cidades do interior: Londrina (Paraná) e Ribeirão Preto (São Paulo).

É pouco, mas a seleção já é mais ampla que a Fuvest, que seleciona os 11 mil novo alunos da USP anualmente. As provas da Fuvest acontecem apenas no Estado de São Paulo.

NOTA MÍNIMA

Entrar na FGV usando pontos do Enem não será fácil. A fundação exige uma nota mínima de 750 pontos no exame.

Para se ter uma ideia do que isso significa, os alunos do Objetivo Integrado, escola de São Paulo cujos alunos têm as melhores notas nacionalmente no Enem, têm uma média de 740 pontos no exame.

“Fizemos análises estatísticas para chegar a um número do Enem que se aproxime ao perfil do aprovado no vestibular tradicional da FGV”, diz Barth. “Queremos os melhores alunos.”

INCLUSÃO

A inclusão das notas do Enem no vestibular é mais uma iniciativa da fundação no sentido de diversificar os alunos do curso de administração.

Desde o ano passado, a fundação também mantém um cursinho para alunos de escola pública que querem fazer FGV, com aulas gratuitas aos sábados em período integral (veja aqui).

A fundação ainda tem disponibilizado bolsas de estudos a alunos aprovados no processo seletivo que são egressos da rede pública (leia aqui).

A diversificação de alunos em termos de região de origem e de classe econômica é tida como um critério de qualidade do ensino superior em todo o mundo. Isso porque um grupo mais heterogêneo de alunos tende a render discussões mais ricas, aprofundadas e dinâmicas.

Por enquanto, ainda não há previsão de inclusão do Enem no curso de direito da FGV-SP. Para esse curso, o processo seletivo atual da FGV inclui até prova oral.

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