Abecedário

Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Ninguém sabe se computadores e tablets melhoram ensino

Por sabine
14/08/14 11:59

Na semana passada mediei um debate interessante no evento Desafios da Educação, que ficou bastante centrado em uma questão: novas tecnologias usadas em sala de aula, como tablets e computadores, melhoram a qualidade do ensino?

De acordo com os especialistas que estavam presentes, brasileiros e estrangeiros, ainda não temos uma resposta.

Ao que parece, algumas tecnologias podem melhorar indicadores de ensino desde que associadas ao bom e velho ensino presencial.

Ou seja: de nada adianta ter tablets em sala de aula se o professor não souber como aproveitar esse recurso com a turma.

“É importante saber disso para que as instituições de ensino não saiam comprando equipamentos de forma desenfreada sem saber o resultado do seu uso”, disse a diretora acadêmica do Insper, Carolina Costa, que é doutora em educação.

INCERTEZA

Ela mostrou uma revisão do que os cientistas estão escrevendo sobre o uso dessas tecnologias na educação. Os estudos revelam mais pontos de interrogação do que certezas.

Parte desses trabalhos, por exemplo, mostra que tecnologias tendem a melhorar o aprendizado de alunos que já apresentam boas notas e daqueles com perfil mais auto-didata (que conseguem aprender sozinhos).

Isso significa que um aluno que vai bem sem computador irá melhor ainda com o equipamento, mas quem vai mal continuará com o boletim no vermelho diante de novas tecnologias.

O mesmo acontece com os cursos oferecidos pela internet, como complemento de aulas presenciais ou exclusivamente a distância.

Também nesses cursos, diz Costa, os alunos com melhores notas presencialmente tendem a se sair melhor a distância. Isso porque eles tendem a ser mais interessados nos estudos, menos dispersos e, claro, mais estudiosos.

MARKETING

Esse debate é importante porque muitas instituições de ensino fazem do uso de tablets e de computadores em sala de aula como uma forma de marketing. Certamente você já viu alguma publicidade desse tipo. Essas escolas vendem a ideia de que são melhores porque têm um dispositivo desses por aluno, por exemplo.

Será que são mesmo?

Muitas universidades de ponta dos EUA, por exemplo, estão fazendo o caminho contrário. Na Universidade de Michigan, que está entre as melhores do mundo, parte dos docentes começou recentemente a proibir celulares, tablets e laptops em sala de aula porque esses equipamentos acabam mais distraindo os estudantes do que ajudando no aprendizado.

Minha experiência como docente concorda com essa ideia. Nas aulas que ministro, esses equipamentos também são vetados –a menos que estejam em uso durante uma atividade, por exemplo. Se liberados durante uma explanação ou um debate, é batata: os alunos vão para o Facebook.

E você? O que pensa sobre o uso desse tipo de tecnologia em sala de aula? Comente aqui no blog!

 

Depois de FGV, Insper também vai usar nota do Enem no próximo processo seletivo

Por sabine
13/08/14 12:58

Depois de a FGV ter anunciado, em junho deste ano, que teria vagas reservadas para quem quiser entrar nos cursos de administração e de administração pública via Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), agora foi a vez do Insper ter a mesma iniciativa.

A partir do próximo processo seletivo, o instituto terá duas portas de entrada: o vestibular tradicional e o Enem.

Avaliar, certificar e selecionar: tudo por conta do Enem

A escola oferecerá 150 vagas para os cursos de graduação em administração e 75 para economia, das quais 20 e 10 vagas, respectivamente, serão destinadas aos  candidatos  que alcançarem a média acima de 700 pontos no Enem.

Ou seja: os alunos poderão concorrer as vagas pelo vestibular ou pelo exame nacional. As inscrições para o processo seletivo acontecem até 13 de outubro.

A ideia, de acordo com o coordenador executivo de processos seletivos do Insper,  Tadeu da Ponte, “é diversificar o perfil do ingressante do Insper facilitando assim o ingresso deles na escola.”

Trocando em miúdos, a proposta é atrair mais alunos de fora de São Paulo e também os egressos de escolas públicas.

Como isso acontece?

MILHÕES DE CANDIDATOS

Bom, o Enem tem milhões de inscritos. No ano passado, 7,7 milhões de estudantes fizeram o exame em todo o país. É muita gente.

Quem fizer Enem e atingir mais de 700 pontos, já se torna um aluno em potencial do Insper –mesmo que nem estivesse pensando em fazer algum curso no instituto.

O interessante é entender por que escolas de ponta, como FGV e Insper, que estão entre as três melhores escolas de administração do país de acordo com o último RUF, estão querendo “diversificar o perfil do aluno”, nas palavras do coordenador do instituto.

O que está por trás disso é a ideia de que quanto mais diverso o ambiente de estudos, mais rico ele será. Ou seja: uma turma heterogênea, com alunos de todo canto do país, e até de fora dele, tende a debater questões com mais profundidade e a chegar a soluções mais complexas.

BOLSA DE ESTUDOS

É claro que não basta criar mais uma porta de entrada para diversificar o perfil dos alunos. Hoje, a mensalidade do Insper sai por cerca de R$ 3,2 mil (cerca de cinco salários mínimos), o que obviamente limita –e muito– a quantidade de alunos que podem se manter no instituto.

Para quem for aprovado, mas não pode pagar, o Insper tem um programa de bolsas integral e parcial para quem não pode pagar. São 141 bolsistas –quase 45% a mais do que em 2010.

Agora, com a possibilidade de ingresso via Enem, esse número de bolsas pode crescer ainda mais. Tudo depende da quantidade de alunos egressos de escolas públicas, por exemplo.

MAIS ENEM

O Abecedário apurou que, além da FGV e do Insper, outras instituições de ensino superior renomadas estão estudando incluir o Enem no seu processo seletivo.

Uma dessas escolas é a Unicamp, que já tem um grupo de trabalho para analisar a possibilidade de ingresso na universidade também via Enem (como na FGV e no Insper) ou exclusivamente via Enem. Nesse caso, o tradicional vestibular dissertativo da Unicamp seria totalmente substituído pelo exame nacional do MEC, assim como aconteceu nas universidades federais.

 

Escolas devem ajudar na integração de alunos novos no meio do ano

Por sabine
31/07/14 18:20

O segundo semestre mal começou e já está chovendo mensagens de papais e de mamães cujos filhos mudaram de escola agora no meio do ano. Todos contam a mesma história: o filho não está conseguindo se adaptar.

Os principais problemas são relatados por aqueles que vão para uma escola bem diferente da anterior: de privada para pública, de escola grande para pequena, de modelo construtivista para uma pedagogia mais rígida. Por aí vai.

Tenho um caso na minha família. Meu sobrinho de 14 anos migrou de São Paulo para uma cidade do sul do país com a família e, claro, teve de mudar de escola. Está estranhando tudo e conta que passa os intervalos das aulas sozinho –o que parece ser o mais traumático.

Para um adulto, esse tipo de problema parece pequeno. Aliás, nem parece ser um problema. “Logo passa, dê tempo ao tempo.” Mas não é bem assim.

A escola é a principal atividade da maioria dos estudantes. É uma rotina diária, que pode durar metade do dia ou o dia inteiro. Agora imagine como é ficar sozinho, angustiado e sofrendo durante a sua atividade principal e diária?

Pois é. Isso pode atrapalhar bastante o rendimento escolar dos novatos e deixar traumas por bastante tempo. Justamente por isso, a escola nova tem a obrigação de ajudar na integração dos alunos novos.

COMISSÃO

Conversei com alguns professores, especialistas e alunos para tentar descobrir o que pode ser feito de bacana na integração dos novos aluninhos. Cheguei a um modelo que parece bem legal: a própria escola pode determinar quem serão os alunos responsáveis por receber e integrar quem está chegando.

Isso, aliás, já aconteceu comigo em uma das mudanças de escola mais difíceis que tive: quando fui estudar, sozinha, aos 16 anos, em uma cidadezinha de outro país.

A escola em que estava matriculada pediu que um aluno, também estrangeiro, ficasse responsável pela minha integração. Antes mesmo de começarem as aulas, ele foi se apresentar na minha casa e me ensinou o caminho até a escola.

No início da aulas, esse aluno me recebeu na porta da escola, mostrou onde era a minha sala e me apresentou para um grupo animado de estudantes, que me chamou na hora do intervalo. Pronto: eu já estava integrada.

Essa iniciativa é legal porque passa para os próprios alunos a função da integração. Acaba virando uma espécie de mentoria.

Por que não fazer a mesma coisa por aqui?

A maioria das escolas entende que o processo de integração deve se dar sozinho, sem intervenção, “naturalmente”. Algumas escolas até ajudam com aulas extras de conteúdo para os que chegam defasados. Mas poucas se preocupam com a socialização, como se o aprendizado envolvesse apenas processos racionais cognitivos.

Quanto mais a escola for acolhedora, mais o estudante irá se envolver com os estudos. E, para quem está chegando, esse acolhimento tem de ser especial.

Como são recebidos os alunos novos na sua escola? Conte para o blog!

 

Em ranking que considera salário de egresso, Babson é melhor que Harvard

Por sabine
28/07/14 17:00

Alguém aí já tinha ouvido falar do Babson College? Eu não. Mas essa instituição de Massachusetts (mesmo estado do famoso MIT) acaba de ser classificada como a melhor dos EUA em um ranking lançado nesta segunda-feira (28).

O novo ranking de universidades dos EUA é da revista “Money” (“Dinheiro”), que é do grupo “Time”.

A ideia da publicação foi classificar as universidades dos EUA a partir de três principais critérios: qualidade do ensino, acessibilidade (em termos de custo) e os salários do ex-alunos –que o ranking chamou chamou de “valor agregado”.

Babson College foi a escola com o melhor custo-benefício na matemática dos gastos e dos salários. Surpresa geral. É uma instituição focada em business, muito parecida com a brasileira FGV. Tem pouco mais de 2.000 alunos. Nem aparece em rankings internacionais de universidades.

A graduação na Babson sai por quase R$ 430 mil o curso todo, incluindo gastos com moradia e com alimentação durante a graduação. Caro? Sim, bastante, é 7% mais cara que a famosa Harvard. Mas os estudantes deixam a escola com um salário médio inicial de R$ 10,8 mil mensais.

Bacana, não?

Outra vantagem é que quem estuda no Babson College sai empregado. Durante a graduação, diz a “Money”, os alunos são incentivados a fazer trabalhos voluntários, fazem estágios na região e também são estimulados a abrir o próprio negócio.

Isso é importante. Concluir o ensino superior com dívida e sem emprego não é muito animador.

CARREIRA E SALÁRIO

De acordo com a “Money”, quem entra na universidade está preocupado com isso: carreira, o primeiro emprego e o salário em médio e longo prazo. Isso é especialmente importante nos EUA, em que todas as universidades são pagas (e caras).

Ou seja: na hora de avaliar uma instituição de ensino superior e escolher em qual estudar, é preciso avaliar o “valor agregado”.

Os indicadores usados pela “Money” para avaliar as universidades , claro, são polêmicos. Ao considerar gastos e salários, o ranking não prioriza critérios usados pela maioria dos rankings universitários, como a produção científica de cada universidade.

Entende-se, internacionalmente, que uma boa instituição de ensino superior faz pesquisa científica de qualidade.

Para se ter uma ideia, Harvard, que coleciona 47 docentes com prêmio Nobel e é a melhor do mundo de acordo com o ranking de Xangai, ficou em 6º na lista da “Money”.

80 ALUNOS

Além do Babson College, outra surpresa da lista da “Money” é o Instituto Webb, que tem apenas 80 alunos no curso único de engenharia naval. É uma graduação “barata” para os padrões americanos (R$ 170 mil). O salário inicial de quem sai de lá salta aos olhos: cerca de R$12 mil.

Dentre comentários e críticas que li sobre a nova avaliação de universidades da “Money”, gostei de uma: agora, com a lista de “Money”, os estudantes dos EUA têm uma forma a mais para avaliar as universidades e para tomar sua decisão de onde estudar.

Antes, o “US News” tinha o monopólio de rankings de universidades naquele país, feitos há mais de 30 anos. Quanto mais informações, melhor.

 

O Carnaval que passei ao lado de Rubem Alves

Por sabine
19/07/14 23:22

Eu nunca tive aula com Rubem Alves. Quando ingressei na Unicamp, recém-formada em jornalismo, para fazer a minha primeira pós, ele já estava aposentado e se dedicava principalmente à literatura. Teve mais de 120 livros publicados e foi colunista da Folha de 2002 a 2011.

Mas quando imagino uma aula do escritor, antropólogo, teólogo e educador que faleceu neste sábado (19), aos 80 anos, não penso em giz e lousa. Penso em troca de ideias e em construção coletiva do conhecimento.

“Não quero que a morte seja súbita”

“Sou grato pela vida”

Tive uma pequena amostra do que foi mestre Alves há cerca de dez anos, durante um Carnaval. Naquela época, eu fazia parte de um grupo de estudos de antropologia na Unicamp e viajei com alguns estudantes para o sítio de um docente da universidade, o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, grande amigo de Alves e co-autor, com ele, de “Encantar o mundo pela palavra” (Papirus, 2006).

O objetivo da viagem era fazer uma espécie de “retiro de leituras” especialmente nas áreas de educação, de filosofia e de antropologia. Eu estava me preparando para prestar uma prova do mestrado, então entrei de cabeça na proposta.

Acontece que o tal sítio do professor Brandão, no sul de Minas Gerais, ficava no alto de um montanha de onde se via outra montanha, onde era o sítio de Rubem Alves. De lá saía boas parte dos seus textos, era um lugar inspirador. Na beira da “montanha de Rubem Alves”, como chamavam, havia um lago com um barquinho branco estacionado –que já apareceram, lago e barquinho, em alguns dos seus contos. Parecia um lugar mágico.

Fiquei pensando que deve ter sido lá que Rubem Alves concebeu “O amor que acende a lua” (Papirus, 1999), coletânea de crônicas sobre o amor que foi lançada –e lida por mim– no ano em que comecei a estudar jornalismo. A lua no sul de Minas, aliás, é bem bonita.

Bem, eu e os colegas do grupo fazíamos caminhadas diárias pela região, que é linda, nos intervalos das leituras. Em alguns dos trajetos, contávamos com a companhia do professor Brandão. Às vezes, Alves também dava o ar de sua graça no meio do caminho. Ambos conversavam com os estudantes, indicavam leituras, trocavam ideias. Uma vez conversamos sobre astronomia. Tudo longe de giz, de lousa, de provas, de formalidades.

E eu nunca aprendi tanto.

ESCOLA CHATA

Era justamente isso que Rubem Alves pregava. Nos seus textos, ele pedia o fim da educação “chata”. Sim, aquele formato de escola onde eu estudei e provavelmente você também, cheia de regras, de provas, de metas.

Isso, dizia ele, atrapalha o livre aprendizado, a criatividade, o fluxo das ideias. Nas aulas de mestre Alves todos aprendiam: professor e aluno. Ele sempre dizia que o professor tem de aprender a ouvir os alunos –inclusive as crianças pequeninhas.

Tenho para mim que um bom docente é justamente aquele que se aproxima dos seus estudantes, que os escuta, que se conecta com eles. Esse docente, aliás, será imortal, como dizia o próprio Rubem Alves: “o bom professor sempre continua vivo.” Pois é.

Rubem Alves não morre totalmente porque suas ideias seguem existindo. E quanto mais a escola deixar de ser chata, mais vivo ele estará.

 

 

O que a Alemanha tem que nós não temos?

Por sabine
09/07/14 18:23

Já sabemos que o futebol da Alemanha é incrivelmente melhor do que o nosso. Isso ficou evidente na derrota brasileira por 7 a 1 na semifinal da Copa. O maior artilheiro das Copas, agora, é um alemão, Klose, que com 16 gols ultrapassou Ronaldo fenômeno, que tinha 15. A Alemanha é responsável pela maior derrota da seleção brasileira em campo.

Mas o fato é que o país é muito melhor do que o Brasil em muitos outros indicadores. Vamos, por exemplo, falar sobre educação.

A Alemanha está em 15º lugar no exame internacional Pisa, que avalia o desempenho de estudantes em ciências, matemática e leitura em 65 países. O Brasil está no final da fila no Pisa, em 58º lugar, atrás de países como Cazaquistão e Albânia.

André Luís Parreira: A goleada para a Alemanha

“Os alemães têm capacidade de se reerguer, o brasileiro não”

Não para por aí.

Um em cada quatro estudantes da Alemanha tem “alta performance” na avaliação de matemática do Pisa, o que significa que podem se transformar em ótimos engenheiros no futuro. Qualquer especialista em educação sabe que cursos “top” de engenharia dependem de boa formação de exatas na educação básica. Se a formação for ótima, bom, melhor ainda.

MELHORES EMPRESAS

Não é por coincidência que a Alemanha domina as engenharias e as tecnologias, internacionalmente, em empresas como VW, BMW, Bayer, Schering, Siemens, Basf, Dual, Adidas e outras. A Alemanha lidera a inovação mundial. Para se ter uma ideia, o país pede 20 vezes mais patentes do que o Brasil (com uma população que é menor do que a metade da brasileira).

E mais: o desempenho em matemática dos estudantes alemães no Pisa está melhorando gradativamente, assim como da China. Eles já são muitos bons, mas querem ser melhores ainda. O Brasil continua pífio.

Com educação básica em altíssimo nível, não fica difícil ter ensino superior de qualidade. Os alemães têm cinco universidades entre as cem melhores do mundo de acordo com o último ranking universitário THE (Times Higher Education). Já o Brasil não tem representante nem entre as 200 melhores da lista (a USP, melhor do Brasil, está em 226º lugar no mundo).

Das universidades e institutos de pesquisa da Alemanha saíram 103 prêmios Nobel, titulação máxima alcançada por um cientista. Nesse placar, estamos 103 x zero. A Argentina, nossa arqui-inimiga no futebol, que não tem um ensino superior lá tão consolidado, tem 4 prêmios Nobel. Olé!

O que falta no Brasil?

Muita coisa. Falta dinheiro, organização, liderança. Falta incluir a educação em um projeto do país –e falta uma“torcida” para acompanhar o desempenho desse projeto.

Falta até espírito guerreiro, como destacou Maria José Tonelli, especialista em psicologia social da FGV, em entrevista à Folha: “a Alemanha tem historicamente uma capacidade de se reerguer, o brasileiro não.”

É óbvio que a Alemanha tem lá seus muitos problemas, bastante conhecidos pela história da humanidade. A inflexibilidade e certa frieza dos alemães podem ser uma barreira a ser vencida em um mundo mais globalizado (eu, filha e neta de alemães, conheço bem isso!) Mas diríamos que é um obstáculo bem pequeno, certo?

“Acho que é a questão de ter menos emoção e mais preparo técnico, e isso não é restrito apenas ao futebol”, diz Tonelli. Sim, falta preparo técnico em tudo no Brasil. Mas a gente sempre acha que vai ganhar “no jeitinho”.

Não adianta querer ser o melhor do mundo “apenas” no futebol. Temos de nos inspirar na Alemanha. Que tal tentarmos sermos os melhores em tudo?

 

O que está por trás de “mãe é quem educa, pai é quem paga as contas”

Por sabine
08/07/14 12:46

Eu não assisto novela. Costumo deixar a TV desligada à noite em casa, pois passo muitas horas do dia diante de várias TVs ligadas na redação. Em casa, ouço música.

Ontem, no entanto, a TV estava ligada na novela das nove, da Rede Globo, enquanto eu preparava o jantar. Foi tempo suficiente para ouvir a seguinte frase, dita em um diálogo entre mãe para filha: “Mãe é quem educa, pai é quem paga as contas.”

Resolvi prestar atenção.

A mãe, Helena, personagem principal da trama, interpretada por Júlia Lemmertz, tentava conversar com a filha, interpretada por Bruna Marquezine (a namorada do Neymar), sobre o relacionamento dela com um cara mais velho.

Mães ainda são maioria nas reuniões das escolas

E aí surgiu a tal frase. Pois bem. O que há por trás da ideia de que “mãe é quem educa, pai é quem paga a conta”?

São dois pontos principais:  a ideia de que a educação dos filhos não é coisa para homem e a ideia de que a mulher é incapaz de ganhar o suficiente para sustentar um filho (e, talvez, a si própria).

Há também a ideia de divisão de tarefas por gênero. Enquanto um educa (a mulher), o outro paga as contas (o homem).

Já escrevi sobre o primeiro ponto algumas vezes aqui no blog. Ainda hoje, no Brasil, as mulheres são maioria nas reuniões das escolas, costumam acompanhar as tarefas de casa mais do que os pais e estão mais presentes na hora de dar bronca.

MAIORIA FEMININA

Também nas escolas o papel da educação é delegado à mulher. No Brasil, 80% dos docentes são mulheres e têm em média 40 anos anos (leia sobre isso aqui).

Isso, no entanto, está mudando. A geração de novos papais tem se mostrado muito mais presente do que os papais anteriores. E esse movimento tende a crescer aos poucos porque a mulher tem ganhado mais espaço no mercado de trabalho e o homem tem ganhado mais espaço em casa.

Bom, mas pela lógica da personagem da novela, o pai não educa porque paga as contas. Ok, vamos investigar isso.

Resolvi pesquisar sobre a tal Helena. De acordo com perfil no site da própria Globo, ela é uma “mulher independente”, com “personalidade forte”. E mais: é dona de uma casa de leilões. Isso dá dinheiro, certo?

Já o marido dela, Virgílio, “cavaleiro de Goiânia”, interpretado por Humberto Martins, “ajuda a esposa na casa de leilões” (do mesmo site da Globo).

Hum. Parece que, nesse caso, a mãe é quem está pagando as contas, não?

Qual é o problema disso? Nenhum. O problema é delegar à mulher a função solitária de educar as crianças mesmo quando existe a figura de um homem na família. Essa tarefa deve ser dividida entre pai e mãe, cada casal da sua maneira.

O pai deve estar presente além das brincadeiras e do pagamento das contas. Seria bom mostrar isso em uma novela.

 

A nova mulher ‘pedreira’ da Copa

Por sabine
01/07/14 13:15

Há um fenômeno interessante nesta Copa do Mundo no Brasil: a nova mulher “pedreira”.

São mulheres que tecem longos comentários sobre atributos físicos dos jogadores –assim como fariam os homens, caso o campeonato fosse feminino.

Tudo é assunto: os tanquinhos de quem está em campo (visível, especialmente, em times que usam um novo modelo justinho de uniforme), as pernas ou, sim, a bunda.

Na partida do Brasil contra o México, em que Hulk ficou de fora, a hashtag #nãovaiterbunda foi uma das mais usadas nas redes sociais como o Twitter. A mulherada estava inconformada com a ausência do jogador. “Nosso muso está no banco.” Já os homens, não se conformavam com os posts femininos.

Os elogios do tipo “pedreiro” são aqueles comumente escutados pelas mulheres nas ruas. Sabe quando se passa em frente a uma obra? Então.

‘PEDREIROS’

Ao que parece, o termo “pedreiro” foi cunhado pelas próprias mulheres para classificar os elogios mais “pesados”, com referências sexuais. Mas agora, nesta Copa, as mulheres também estão se mostrando pedreiras.

Qual é o problema disso? Em princípio, nenhum. O curioso é que o fenômeno está causando um estranhamento no universo masculino brasileiro.

Eu já ouvi de tudo.

Um primo, por exemplo, comentou, inconformado, sobre a sua chefe, que falara sobre os atributos do mesmo Hulk (sempre o Hulk!). Um amigo disse que as “mulheres não são mais as mesmas” e que agora estão “mais atiradas”.  Outro reclamava sobre a atenção dispensada às camisetas mais justinhas. “Isso é estranho porque as mulheres são menos visuais.” São?

A reação masculina sobre a “pedreirice” feminina reside em uma questão ligada a questões de gênero e de educação: nós não fomos treinados para isso.

Sim, isso mesmo.

Homens aprenderam a valorizar –e a comentar, inclusive em público,– os atributos femininos. As mulheres não.  Alguém aí já viu uma menina comentando com a mãe sobre um garoto bonito que passou na rua? Eu não.

Por que não?

NA ESCOLA

Esse tipo de treinamento, que define o papel do homem e da mulher, e estipula limites para cada sexo, está presente em casa e na escola. Já escrevi sobre isso aqui no blog.

Esses limites, obviamente, não são naturais. Devemos podar uma menina que comenta sobre a beleza de um coleguinha? Devemos estimular um garoto a chamar uma mulher de gostosa?

Nem uma coisa, nem outra.

Meninas e meninos devem ter o direito de admirar o belo. E meninas e meninos devem respeitar o limite do outro ao externalizar tal admiração.

Você pode até achar uma fulana que está passando na rua bonita, com formas perfeitas, mas gritar “gostosa” pode ser entendido por ela como uma baita agressão. A mesma regra deveria valer para as mulheres.

Regras iguais, papeis iguais, direitos iguais. Vamos debater isso?

Hulk: gigante pela própria natureza

 

Por falta de educação em ciências, brasileiro dispensa bula e corre riscos

Por sabine
25/06/14 14:21

Atire a primeira pedra quem nunca se desfez rapidamente da bula de um novo medicamente antes de armazená-lo.

A prática de ignorar a bula dos remédios é velha conhecida da cultura brasileira. O que especialistas dizem é que o problema está relacionado com a nossa educação.

Como o ensino de ciências no Brasil é muito ruim, classificado no final da lista de países avaliados pelo exame internacional Pisa, ninguém entende as bulas e, por isso, não se interessam por elas.

Quer ver?

Vamos pegar a bula da aspirina, um remédio consumido internacionalmente.

ÁCIDO ACETILSALICÍLICO

Sua bula informa que cada comprimido tem 500 mg de “ácido acetilsalicílico” e que os “componentes inertes” são amido e celulose.

Digo com segurança que a maioria dos brasileiros nunca ouviu as palavras entre aspas, mas consome aspirina (sem ter ideia do que está ingerindo).

O problema é que a bula da aspirina informa também que a sua ingestão aumenta o risco de sangramento. Isso pode ser fatal para pacientes, por exemplo, com dengue reincidente, que costuma causar hemorragias.

A bula da aspirina também alerta que os comprimidos devem ser armazenados “na sua embalagem original, em temperatura ambiente, entre 15 a 30°C” e protegidos da umidade.

Opa! Mas não tem um monte de gente que armazena medicamentos justamente no local mais úmido da casa, ou seja, o banheiro? Pois é. O medicamento pode, por exemplo, perder o efeito.

SEM BULA

Esse problema do descarte das bulas é conhecido pelas indústrias farmacêuticas.

Em visita recente a uma das fábricas da Pfizer no Brasil, que produz medicamentos como o Advil, o coordenador da logística, Reinaldo Oliveira, contou que a maioria dos medicamentos que retorna à fábrica por “problemas” chega sem bula.

“Sabemos que a bula é a primeira coisa que o usuário joga fora ao abrir o remédio”, diz Oliveira.

A taxa de retorno à fábrica de medicamentos Pfizer é de 0,2%. Podem voltar à fábrica comprimidos que, por exemplo, mudaram de cor ou de consistência –o que pode acontecer quando se armazena um medicamento como a aspirina no banheiro.

A pergunta que fica é: o que fazer para que as pessoas leiam mais as bulas e corram menos riscos?

INTERESSE 

Bom, as pessoas precisam se interessar pelas bulas. E sabe-se que o interesse pela ciência e a educação científica caminham juntos.

Em um trabalho publicado em 2010 por um grupo de pesquisa do qual faço parte na Unicamp, vimos que a leitura de bulas de remédios e de rótulos de alimentos aumenta quando o interesse declarado pela ciência é maior.

A pesquisa foi feita no estado de São Paulo para uma publicação da Fapesp com base em um questionário (veja aqui os resultados da pesquisa).

Vejam que bacana: 69,3% dos que declaram que se interessam muito por ciência também informaram que leem bulas de medicamentos. A rotina de ler bulas cai conforme o interesse por ciência diminui.

E, adivinhem: “Daqueles que frequentaram ou frequentam ensino superior e ou outros níveis superior de ensino, 71,7% declaram que leem bulas de remédios.”

A relação entre escolaridade, interesse por ciência e leitura de bulas de remédios, evidenciada nesta pesquisa, mostra o quanto educação e saúde caminham juntos.

Uma sociedade com melhores níveis de educação está mais preparada para entender e lidar com sua própria saúde.

 

Primeiro vestibular da Univesp mostra que ensino a distância tem demanda

Por sabine
23/06/14 08:00

Muita gente torce o nariz quando se fala sobre ensino a distância no Brasil. Mas o fato é que há demanda.

O primeiro vestibular para os cursos de engenharias a distância oferecidos pela Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), por exemplo, teve uma média de 5,7 candidatos por vaga.

A procura é semelhante a de engenharias do campus de Pirassununga da USP, que varia entre 6 e 7 candidatos por vaga.

O primeiro vestibular da Univesp aconteceu agora em junho. Os dados são fresquinhos.

A Univesp ainda não tem informação etária dos candidatos, mas a expectativa é que eles sejam mais velhos do que a média dos estudantes de uma universidade pública.

MAIS VELHOS

Isso porque quem procura ensino a distância tende a estar fora da chamada “idade universitária”, ou seja, de 18 a 24 anos.

Na tradicional Poli-USP, por exemplo, sete em cada dez matriculados em 2013 nos cursos de engenharias tinham até 18 anos.

Os mais velhos não conseguem entrar no curso ou sequer tentam porque moram longe de São Paulo, trabalham, ainda não concluíram o ensino médio ou não teriam condições de fazer aulas presencialmente em período integral.

Quem não pode fazer engenharia em uma escola como a Poli-USP enquanto jovem estará fadado à exclusão do curso de engenharia em uma universidade pública?

Quero acreditar que não.

MINORIA

No Brasil, apenas 14% dos jovens em idade universitária estão no ensino superior. Ou seja: muitos dos que estão fora da universidade enquanto jovens poderão se interessar por ela no futuro –e podem ver no ensino a distância uma alternativa de estudos.

O problema é que, por aqui, essa modalidade de ensino virou sinônimo de diploma fácil, de curso rápido e de pouco aprofundamento.

Trata-se de um cenário bem diferente do observados nas melhores universidades do mundo, como as norte-americanas MIT e Harvard, que estão entrando de cabeça no ensino a distância e conquistando alunos em todo o mundo.

Já escrevi sobre isso aqui no blog.

Entendo que cursos a distância têm qualidade questionável quando são oferecidos por instituições que também têm ensino presencial com qualidade questionável.

Quando o histórico presencial é positivo (caso das universidades norte-americanas) ou quando a instituição é criada com objetivo de ser virtual (caso da Univesp), os resultados podem ser bem melhores.

 

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