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Abecedário

Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Em tacada estratégica, Dilma escolhe professor de ética para Educação

Por sabine
27/03/15 21:29

Nenhum outro nome indicado para um dos 39 ministérios do governo Dilma Rousseff foi escolhido tão estrategicamente quanto o novo ministro da Educação, anunciado nesta sexta-feira (27). Em meio a denúncias graves de corrupção, a presidente elegeu o professor de ética da USP, Renato Janine Ribeiro, 65, para o cargo. Uma tacada de mestre.

Explico. Renato Janine não é ligado a nenhum partido e não assume uma postura favorável ao governo. E ensina nada menos do que ética. Há pouco mais de uma semana, Janine, como é conhecido, deu uma ampla entrevista à revista “Brasileiros” na qual acusava o governo petista de transformar a inclusão social em um grande projeto de consumo. Nesta semana, publicou um artigo na Folha sobre a crise política atual intitulado “Tem razão quem se revolta”. Pois é.

Antes da demissão, Cid Gomes já estava ‘se estranhando’ na pasta

Com a escolha de Janine após a saída desastrosa de Cid Gomes, que ficou três meses no cargo, Dilma sinaliza uma preocupação com o debate ético no seu governo. Mais ainda: coloca um nome técnico, e não partidário, na pasta que, conforme ela própria declarou, é a mais importante do seu mandato e da “pátria educadora”.

DE SORBONNE A BRASÍLIA

Para quem entende de educação, a escolha de Janine foi um respiro aliviado. Nos últimos dias, especulou-se a nomeação de Gabriel Chalita, secretário municipal de educação de São Paulo, ou de algum reitor de uma universidade importante do país. Havia receio de que, assim como Cid Gomes, outro político que não fosse da área assumisse a pasta.

Renato Janine Ribeiro nunca foi reitor, mas é um nome forte e agrada a academia. É professor de ética e de filosofia na USP, melhor universidade do país, e fez mestrado em Sorbonne, França, reduto dos filósofos de elite da atualidade. Já ocupou cargo de gestão na Capes, que avalia o ensino superior do país, em conselhos no CNPq, maior agência de fomento à ciência do país, e na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Mais do que isso: Janine é um pesquisador de referência na sua área, mas não fica enclausurado na academia como boa parte dos cientistas brasileiros. Fala com a imprensa, escreve textos de divulgação científica, usa redes sociais e tem um site em seu nome –com fotos– no qual fala sobre sua própria carreira e seus trabalhos. Escreve em francês, em inglês e em espanhol, é a favor da internacionalização. Assume posturas modernas em relação à universidade e críticas em relação ao governo como poucos cientistas fazem.

Ainda não estão claras quais serão as prioridades de Janine na educação. Não se sabe o que ele pensa sobre Enem, Enade, Fies. O que se sabe é que ele defende a ética e escreve que a corrupção será vencida “quando ela parar de servir de pretexto político de um lado contra o outro e for mesmo repudiada pela maior parte da população.” Quem sabe ele não consegue uma fórmula mágica para levar essa ética às escolas e às universidades?

Antes de demissão, Cid Gomes já estava 'se estranhando' na pasta

Por sabine
19/03/15 00:57

A gestão ligeira do ministro da Educação Cid Gomes, que pediu demissão à presidente Dilma Rousseff nesta quarta-feira (18), menos de três meses após sua posse, já era esperada por gestores do MEC e por especialistas de educação. Segundo apuração do Abecedário, o chefe máximo de educação do país estava agindo de maneira isolada no ministério e tinha pouco apoio de especialistas em educação por falta de experiência na área –antes do MEC, Cid fora governador do Ceará.

O pedido de demissão veio após um desgaste com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), causada por uma declaração do ministro feita no final de fevereiro, na Universidade Federal do Ceará. Ele afirmou, entre outras frases polêmicas, que “a direção da Câmara será um problema grave para o Brasil” –e reforçou seu descontentamento recentemente diante de deputados.

Antes de tudo isso, porém, Cid já derrapava em decisões e agia isoladamente no ministério. Ele teria, por exemplo, viajado sozinho aos Estados Unidos, principal parceiro do programa Ciência sem Fronteiras (e pupila dos olhos da presidente Dilma), para saber detalhes do programa com instituições norte-americanas sem ter consultado previamente os seus coordenadores dentro do MEC.

Em outro episódio, na mesma semana em que alunos de escolas particulares se apinhavam em filas durante madrugadas para fazer o recadastramento no Fies (sistema de financiamento estudantil), o ministro estava nos Estados Unidos para participar de um evento. O sistema do Fies foi alterado recentemente e apresentou falhas; enquanto isso, Cid foi palestrar sobre educação e “as principais necessidades do país” na Universidade Yale, em uma conferência de três dias promovida pela Fundação Lemann.

A viagem do ministro ao exterior em um momento de crise do Fies teria causado mal estar internamente na pasta. Segundo apuração do Abecedário, o que se dizia é que Cid Gomes deveria estar no Brasil para responder à crise. “Ele poderia ter enviado um representante da pasta, como, aliás, geralmente se faz nesse tipo de evento”, disse um gestor interno do MEC.

MADRUGADAS

Desde o começo do mês, praticamente todos os alunos de faculdades particulares do Brasil –são 5,3 milhões de estudantes (quase 75% dos 7,3 milhões de matriculados no ensino superior de acordo com o censo 2013)– têm sofrido para fazer seu cadastro no Fies (leia mais aqui). O sistema apresentou uma série de falhas, que foram admitidas pela própria presidente Dilma Rousseff (leia aqui). As reclamações dos estudantes começaram antes da viagem do ministro ao evento de Yale, que aconteceu na primeira semana de março.

Além das falhas tecnológicas, muitos estudantes derraparam nas novas regras do sistema de financiamento. Isso porque só estão aptos a acessar ou renovar o Fies os estudantes de universidades que tiveram reajuste máximo de 6,4% no valor das mensalidades. O problema, dizem as escolas, é que o aumento inferir a 6,4% impede a manutenção dos quadros docentes. O MEC também determinou que , para ter financiamento, os alunos devem ter obtido nota mínima de 450 pontos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Resultado: quem estuda em universidades com aumento superior a 6,4% ou quem obteve uma nota abaixo de 450 pontos no Enem perdeu o direito ao crédito estudantil, mesmo que já estivesse estudando. Pois é.

SEM CHEFE

Até a conclusão deste post, o comando da pasta de Educação seguia sem indicação de um novo nome. Entre especialistas de educação, um dos currículos mais lembrados é o do especialista em venenos de serpente e doutor em biologia molecular Jorge Guimarães, que está onze anos à frente da Capes (órgão do MEC responsável por políticas de ensino superior, como os sistemas de avaliação de programas de pós-graduação).

Guimarães, no entanto, teria entregue sua carta de demissão da Capes por estar insatisfeito com a nova gestão. Ele estaria apenas aguardando um sinal verde para deixar a pasta.

Além dos problemas de gestão, o Ministério de Educação também deve sofrer com um corte de cerca de 30% no seu orçamento neste ano. O tema “educação”, vale lembrar, foi destacado como assunto prioritário da gestão 2015-2018 no discurso de posse da presidente Dilma Rousseff.

 

Caso Unesp: por que bebemos até morrer?

Por sabine
08/03/15 00:30

No começo de março, o estudante Humberto Moura Fonseca, 23, do 4º ano de engenharia elétrica da Unesp de Bauru, morreu de tanto beber. Outros três estudantes que estavam com ele na mesma festa, a Inter Reps, foram internados em coma alcoólico –coma causado por ingestão exagerada de álcool. Tudo isso durante a universidade, aquela época que deveria ser a melhor de suas vidas. Uma notícia muito triste.

Resolvi ir atrás de alguns estudos que pudessem jogar uma luz nesse caso, se é que isso seja possível. Encontrei um trabalho interessante da Universidade de Harvard, EUA, publicado há cerca de duas décadas, que virou referência no campo de comportamento estudantil.

De acordo com esse estudo, feito com 17,5 mil estudantes de 140 campi dos EUA, metade dos estudantes universitários bebe exageradamente por farra. Esses jovens são sete vezes mais propensos a fazer sexo sem proteção, dez vezes mais inclinados a dirigir bêbados e têm onze vezes mais chances de abandonar um trabalho ou curso do que os demais. Também têm maior possibilidade de ter problemas com a polícia ou com a segurança do campus da universidade onde estudam, a danificar propriedades, machucar e ser machucado.

Trocando em miúdos, quem bebe demais durante a universidade está mais vulnerável a contrair doenças venéreas, a sofrer acidentes de carro e a ter algum problema físico ou de saúde. Claro, está mais vulnerável também à morte. Tendo a achar que os números seriam semelhantes se o mesmo estudo fosse conduzido aqui no Brasil.

Parece que temos um problema. Por que nossos jovens bebem exageradamente? E por que, no caso triste da Unesp, bebem até morrer?

A pesquisa de Harvard é mencionada em um livro do qual gosto muito, “Bright College Years”, publicado pela jornalista Anne Mathews, especialista em assuntos de ensino superior. Mathews escreve que, no contexto dos EUA, muitos universitários veem na universidade uma espécie de libertação. Estamos falando de um país –os EUA– onde famílias são superprotetoras e jovens só podem beber após os 21 anos. Quando entra no ensino superior, boa parte deles nunca sequer tinha bebido. Eles não aprenderam a beber. É uma receita para a perdição.

Justamente por isso, nos EUA, os maiores problemas com bebidas e com drogas atingem os “bixos”, os primeiro-anistas, que são em geral os mais aventureiros “com a programação da noite geralmente descrita como bebida, dança, gritos, vômitos, desmaio”, escreve Mathews. Mais: cerca de 60% das estudantes que sofrem violência sexual ou estupro são bixos.

ENTRE VETERANOS

No caso da Unesp, o jovem morto não era bixo: ele deveria se formar engenheiro no final do ano que vem. Parece que, no Brasil, o problema de bebida entre os jovens universitários vai muito além de quem está ingressando na escola e atinge também os veteranos, que são aqueles que organizam e que participam de festas para socializar com os novos alunos. Temos uma informação importante aqui. E eu pergunto: nós estamos olhando para ela? Não, não estamos.

Após a notícia do falecimento do seu aluno, a Unesp divulgou uma nota em que lamenta o ocorrido e afirma “que a morte ocorreu fora das dependências da Universidade, onde a bebida alcoólica é proibida.” Ok. Eu estudei na mesma Unesp de Bauru na graduação e me lembro que festa e bebida eram mesmo proibidos dentro do campus. Mas se uma universidade tem jovens que bebem até entrar em coma ou até morrer, mesmo fora de suas dependências, talvez seja hora de levar o assunto para a sala de aula sem tabu. Não?

Sim, precisamos debater os assuntos que envolvem os nossos universitários sem tabu. Em média, um em cada quatro estudantes universitários desiste do curso antes de formar. Alguém sabe o motivo? O índice de suicídio entre jovens universitários é maior do que entre os jovens de mesma idade que estão fora do campus. Há alguém debruçado sobre essa questão? Os nossos jovens estão pressionados, deprimidos, sentindo-se sozinhos durante a universidade? Quem pode apoiá-los? Como apoiá-los?

Quantos jovens morrem no Brasil em trotes violentos, em festas universitárias ou decorrente direta ou indiretamente de bebida? Alguém aí já levantou a quantidade de acidentes de carro com vítima envolvendo jovens universitários alcoolizados?

Mais: há jovens estudantes sendo violentadas em festas universitárias, que também são fora do campus, como no caso das denúncias recentes da medicina da USP (veja aqui). Precisamos levantar esses números, estimular as denúncias, acompanhar os casos, impedir que essas meninas desistam dos seus respectivos cursos por causa da violência. Precisamos, antes de tudo, falar sobre isso.

As nossas universidades não podem mais cruzar os braços para o que acontece com seus alunos fora do campus. Precisamos urgentemente levar o debate para dentro da sala de aula para evitar tragédias como a morte do Humberto.

 

Professor no Brasil gasta 48 minutos por dia com bagunça na sala de aula

Por sabine
01/03/15 22:31

Uma pesquisa da OCDE feita com professores de 33 países ao longo de 2013 coloca o Brasil no topo de um novo ranking: o de quantidade de “alunos-problema”. Seis em cada dez professores brasileiros ouvidos no estudo internacional disseram que pelo menos 10% dos alunos são agressivos com colegas e com professores, chegam atrasados e cometem até delitos como roubo em plena sala de aula. É o maior índice de “alunos-problema” entre os países pesquisados.

Com tantas questões de comportamento entre os alunos, um professor no Brasil gasta, em média, 20% do tempo de aula para colocar ordem na sala (a média internacional é de 13%). É muito tempo. Quer ver? Imagine uma escola que tenha a carga horária mínima estabelecida pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases, de 1996), que é de quatro horas diárias — ou 800 horas distribuídas em 200 dias letivos. Se os professores dessa escola gastarem 20% dessas quatro horas diárias colocando ordem na sala de aula, serão 48 minutos perdidos por dia. Restam apenas 3 horas e 12 minutos para o conteúdo.

Educação só funciona se o aluno estiver emocionalmente envolvido

Vamos fazer uma conta ainda mais cruel. Que tal multiplicar os 48 minutos gastos diariamente com a bagunça na sala de aula pelos 200 dias letivos ao longo do ano? Surpresa: são 160 horas a menos de conteúdo por ano. Sabe o que dá para ensinar de matemática, ciências ou artes em 160 horas? Nossa, muita coisa.

VELHO CONHECIDO

O resultado dessa pesquisa da OCDE, no entanto, não é novidade. O tempo gasto com comportamento dos alunos por aqui é velho conhecido da literatura de educação, das escolas públicas e privadas e das políticas públicas do Brasil.

Em um estudo publicado 2009 sobre indisciplina e autoridade, a psicanalista Catarina Angélica Santos também ouviu professores brasileiros e chegou à conclusão de que o problema da educação brasileira não é conteúdo, mas indisciplina: “Nosso dilema na escola não é o conteúdo em si porque este a gente domina e dá conta. Agora dar conta desses limites, dessa diversidade, dessa  indisciplina é o que é complicado”, relata um professor nesse estudo.

Outra pesquisa, de 2011, feita por psicólogas em escolas de Minas Gerais, observou que a relação entre professores e alunos começa positiva nos primeiros anos escolares e vai se tornando cada vez mais negativa conforme a idade do aluno. Trocando em miúdos: a relação de afetividade com a escola e com os professores vai, aos poucos, sendo substituída por uma ligação de conflito. É a receita do fracasso.

VAZIO ‘DIALÓGICO’

Esse processo todo obviamente não tem apenas uma explicação. Há, pelo menos, uma dezena delas. O que se vê nas escolas hoje em dia são alunos desestimulados com conteúdos distantes da sua realidade, professores sem autonomia e sem autoridade (e sem boletim escolar) e falta de perspectiva futura do jovem.

Em artigo recente, a educadora Carminha Brant, superintendente educacional da Abramundo, que desenvolve material didático interativo para ensino de ciências, chamou esse buraco que se forma entre alunos e professores de “vazio comunicativo e dialógico”. Ou seja: o aluno continua indo às aulas, mas se distancia do conteúdo, da escola e do professor. Não vê sentido naquilo tudo. E, se não houver uma intervenção, esse mesmo aluno acaba largando a escola e ainda pode levar um monte de aluno bom junto (vale lembrar: hoje, um em cada dois jovens não termina o ensino médio no Brasil.)

Ok, já sabemos que bagunça e comportamento atrapalham –e muito– a educação no Brasil. Já conseguimos até calcular o tempo de conteúdo perdido em sala de aula. Ótimo. Mas o que estamos fazendo para lidar com essa questão?

 

Alunos da USP leste invadem incubadora e pedem espaço estudantil

Por sabine
26/02/15 22:03

Um grupo de alunos invadiu nesta quarta-feira, 25, o prédio da unidade leste da USP destinado à incubadora Habits (sigla de “Habitat de Inovação Tecnológica e Social”), onde funcionam três empresas criadas por estudantes da universidade.

De acordo com informações ouvidas pelo Abecedário, os funcionários das empresas que operam no espaço foram surpreendidos no meio da tarde e tiveram de sair “às pressas”, levando equipamentos nas mãos. O local continua interditado por um grupo de estudantes. A USP e o DCE não informaram quantos alunos estão no local.

Em nota divulgada em redes sociais, o diretório acadêmico central da USP justificou a ocupação da incubadora sob o pretexto de que o Espaço dos Estudantes daquele campus teria sido desapropriado. “Tal decisão se deu em razão da desapropriação do Espaço dos Estudantes no dia 27/01, realizada de forma extremamente autoritária e intransigente por parte da direção da Escola”, informa a nota. O Abecedário procurou representantes do DCE, que não quiseram falar com a imprensa.

A situação caótica da USP leste

De acordo com a professora Luciane Meneguin Ortega, que coordena a incubadora na USP leste e também atua na Agência de Inovação da USP, a ocupação atrapalha –e muito– as atividades das empresas incubadas.  Também pode prejudicar o trabalho de futuros projetos. “Não parece fazer muito sentido os alunos invadirem um espaço que é justamente destinado aos próprios alunos”, diz Ortega. Hoje, o espaço pode acolher até 15 empresas incubadas –as inscrições para novos projetos, inclusive, estão abertas.

FOCO SOCIAL

A Habits incuba apenas empresas –lucrativas– criadas pelos alunos com foco social. Uma delas, a Opa! (Orientação Particular e Acompanhada), nasceu no Habits e ganhou há poucas semanas o Prêmio “Mulheres Tech em Sampa”, na Campus Party. O projeto foi desenvolvido pelas estudantes Tássia Chiarelli (formada em gerontologia) e Laís de Azevedo (marketing) –leia mais aqui.

Outro projeto, a empresa Quanti.ca., desenvolve plataformas para ensino a distância e treinamento profissional. Um dos focos do serviço é a acessibilidade de pessoas com deficiência. O Banco Mundial é o principal cliente da empresa. A terceira empresa no espaço é a Libras, que atua com deficientes auditivos.

O Abecedário apurou que o grupo de estudantes está negociando com a diretoria da unidade leste um novo local para as suas atividades. Eles teriam passado um tempo em um anfiteatro da universidade e agora pleiteiam um local definitivo.

Depois de passar boa parte do ano passado paralisada (em greve) e interditada por causa de contaminação de água e de solo –o que incluiu gás metano e risco de explosão–, a ocupação de um dos espaços mais bacanas da unidade leste da USP é um novo balde de água fria para a maioria dos cerca de 4.000 estudantes que frequentam a Universidade de São Paulo próxima a Guarulhos. Mais um.

Dá para estudar assim? Não, não dá. Dá para ser empreendedor social assim? Obviamente que não dá. Para onde exatamente estamos levando a USP leste?

Insper traz ao Brasil ensino inédito de engenharia; aulas já começaram

Por sabine
24/02/15 13:17

Nesta semana, um novo grupo de 90 estudantes vai passar a frequentar o prédio da instituição de ensino superior privada Insper, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo: os alunos de engenharia.

Famoso por cursos de elite em economia e de administração, o Insper agora entrou com tudo na formação de engenheiros nas especialidades mecânica, mecatrônica e computação. A diferença em relação a outras escolas brasileiras, dizem os idealizadores da nova graduação, é que o foco da formação dos engenheiros do Insper não será técnico –traduzida em muitos números e cálculos. A ideia é formar engenheiros empreendedores.

“O objetivo é formar engenheiros capazes de inovar, de criar produtos e de empreender. Priorizamos o aprendizado de competências ligadas ao empreendedorismo, gestão de projetos e o trabalho em equipe”, explica Irineu Gianesi, diretor dos cursos de engenharia.

Por que essa iniciativa é interessante? Simples: porque é novidade no Brasil. Por aqui, a formação de engenheiros predominante ainda tem salas de aula com carteiras enfileiradas, lousas cheias de cálculos e muitas horas de aula expositiva.

Escolas e universidades no Brasil desestimulam aluno empreendedor

Em universidade ‘top’ quem não empreende é loser

Para desenhar o novo curso de engenharia, o Insper foi beber na fonte de escolas de ponta dos EUA. Trouxe alguns conceitos, criou outros. O Abecedário visitou recentemente as instalações de engenharia do Insper e viu que lá, assim como nas melhores escolas de engenharia do mundo, não há carteiras individuais: todos os alunos trabalham em grupos. Isso, claro, muda toda a dinâmica de ensino. O professor –a ideia é que sejam dois por aula–acaba assumindo um papel de guia e orienta os exercícios, que são baseados em resolução de problemas.

PROFESSORES EMPREENDEDORES

E os professores estão acostumados com essa dinâmica menos expositiva? Não, claro que não. “Encontrar professores com um perfil mais empreendedor é um dos desafios do curso”, disse o engenheiro eletricista Vinicius Licks ao Abecedário. Ele foi o primeiro professor contratado para as engenharias do Insper, depois de um período que passou na Universidade Harvard, a melhor do mundo de acordo com rankings internacionais. Hoje, a escola tem cerca de 15 docentes; algumas aulas também serão comandadas por CEOs, por investidores e por empreendedores.

Licks é autor, por exemplo, de uma disciplina interessante chamada “grandes desafios da engenharia”. A ideia do curso é apresentar um problema social, discutir suas dimensões e levantar soluções de engenharia. Neste primeiro ano, a disciplina vai tratar de mobilidade urbana; no ano que vem o tema deve mudar. “A ideia é que os alunos sejam capazes de pensar em soluções e de apresentá-las, de comunicá-las”, diz. Os alunos serão avaliados pela sua capacidade de comunicação oral e escrita, pelo conhecimento do contexto e pelo trabalho em equipe.

Quem derrapar durante o curso será acompanhado de perto por mentores e por um coaching –outra novidade. Esses profissionais também vão ajudar os estudantes a desenhar individualmente a sua carreira.

Todas essas novidades, claro, têm um preço: são R$3.500 mensais que os alunos pagam pelo ensino em período integral –lembrando que as aulas ocupam uma parte do dia e, na outra, os estudantes se dividem em atividades em laboratórios e em espaços de inovação e de empreendedorismo. Dos 90 alunos aprovados em uma processo seletivo que teve até dinâmica de grupo, 12 são bolsistas.

POUCAS VAGAS

O Insper ainda não tem planos ambiciosos de expansão. Deve aumentar de 90 para 120 o número de alunos de engenharia no próximo ano.  Para se ter uma ideia do que isso significa, a Poli-USP oferece, hoje, 750 vagas por ano.

Os novos engenheiros do Insper tampouco vão “resolver” a falta de engenheiros do país. O Brasil forma hoje cerca de 40 mil engenheiros anualmente –mais ou menos metade do que precisaria para se desenvolver minimamente. Mas isso não importa agora. Se a nova escola no Insper ajudar a estimular e a espalhar a ideia de ensino de empreendedorismo e de inovação entre aqueles que mais devem criar –os engenheiros– o ganho já será grande.

 

# LEIA MAIS:

Confira a a avaliação de sete cursos de engenharia no RUF 2014

Domínio de inglês é problema também para classe 'A'

Por sabine
10/02/15 00:01

Fala inglês fluentemente quem tem dinheiro para pagar um curso particular ou para estudar fora do país, certo? Errado.

Uma pesquisa que consultou aleatoriamente pessoas que moram em cidades como São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza e outros grandes centros do país mostrou que, dos entrevistados, seis em cada dez pessoas das classes A e B não compreendem outro idioma além do português. Entre os entrevistados da classe C, o índice sobe um pouco: oito em cada dez entrevistados só entendem o português.

Os dados compõem o Índice de Proficiência em Inglês e foram divulgados para a Folha pelo Google na semana passada. A pesquisa foi feita com 10.368 pessoas que se dispuseram a fazer uma espécie de prova de inglês on-line, com 30 questões. A amostra de respondentes não foi previamente selecionada e, por isso, não segue a proporção brasileira de sexo, idade e faixa econômica –o que significa que os dados não podem ser extrapolados para o Brasil. Ou seja: eles valem apenas para os respondentes que vivem em grandes centros urbanos.

Dentre os consultados, uma surpresa: poucos dos que só sabem falar português estão estudando outro idioma. De quem respondeu ao questionário e tem de 18 a 34 anos –do começo da idade “universitária” até o final da primeira década após a formatura–, apenas 5% disseram que estão matriculados em alguma escola de inglês.

Quem não está estudando outro idioma como o inglês alega falta de tempo e de dinheiro.

O que esse estudo revela? Primeiro: quem vive em cidades grandes parece não dar conta de modelos tradicionais de ensino do idioma, em escolas, salas de aulas, turmas fechadas, essas coisas. Não seria o momento, então, de flexibilizar aulas e horários ou até investir em ensino a distância? O Índice de Proficiência em Inglês estima que pelo menos seis milhões de brasileiros tenham interesse em estudar inglês, mas estão fora das escolas. Parece uma oportunidade de negócios, não?

Mais: se a gente não fala inglês nem nas grandes cidades, onde, em geral, estão as grandes empresas, as melhores universidades e as boas possibilidades de carreira, como conseguiremos ser um país minimamente desenvolvido e competitivo internacionalmente?

Pois é.

Bom, parece que não somos competitivos internacionalmente com esses indicadores. De acordo com o ranking do Índice de Proficiência em Inglês, que faz esse tipo de pesquisa em vários países, o resultado de domínio de um segundo idioma encontrado entre os respondentes do Brasil é pior se comparado a quem participou da pesquisa nos BRICs. Veja abaixo a listagem:

1º. Suécia
19º. Argentina
21º. Índia
31º. Rússia
34º. China
38º. Brasil

Arrisco a dizer, ainda, que parte dos respondentes que declarou só falar português já deve ter passado por aula de inglês na escola. Claro: no Brasil, o ensino de inglês é obrigatório em toda a rede de educação básica a partir da 5ª série ou 6º ano. Isso acontece há quase duas décadas. Então escutamos Rihanna e, sei lá, Justin Bieber na rádio, chamamos liquidação de “sale”, temos aulas obrigatórias de inglês na escola e, mesmo assim, mostramos que só conhecemos o português nesse tipo de pesquisa. Oi?

Algo está errado.

Precisamos discutir o ensino de inglês com a profundidade que o assunto merece da sala de aula às políticas públicas nacionais. Enquanto não entendermos o problema, não teremos a solução.

 

Novo diretor da FGV concorreu pela vaga com candidatos até da Holanda

Por sabine
09/02/15 18:32

Uma das principais escolas de administração do país, a FGV de São Paulo, está com diretor novo –escolhido em um processo seletivo que teve candidatos brasileiros e de países como Holanda, EUA e Portugal. O engenheiro com doutorado em administração Luiz Artur Ledur Brito, que já era docente da FGV, foi o escolhido entre 41 nomes que se candidataram à vaga e foram analisados por uma comissão de busca ao longo de 2014.

Essa foi a primeira vez que o processo de busca do novo diretor da Escola de Administração da FGV teve candidatos estrangeiros. O último processo aconteceu há seis anos. “Acredito que seja uma tendência, muita gente está de olho no Brasil”, diz Fernando Abrucio, docente da FGV que integrou a comissão de busca.

Os currículos internacionais recebidos para vaga também seriam reflexo de “propaganda” internacional. A antiga diretora, Maria Thereza Fleury, costumava divulgar o processo seletivo em suas viagens acadêmicas. Ela, aliás, fora trazida da Faculdade de Economia e Administração da USP há seis anos (a vaga de direção é de três anos renovável por mais três).

Esse processo seletivo internacional para o cargo máximo de uma instituição de ensino é especialmente interessante no Brasil simplesmente porque é raro. Por aqui, ainda é tradição escolher, por voto, um cientista renomado da própria universidade para comandá-la –o que nem sempre dá certo. Quem é bom na bancada nem sempre é bom em gestão.

Entre os candidatos para a vaga da FGV, cujos nomes são guardados a sete chaves (por motivos óbvios –todos estão empregados em outras instituições), havia reitores, presidentes e docentes de instituições de ensino estrangeiras e brasileiras, como a própria FGV.

A comissão chegou a contratar uma empresa especializada para identificar capacidade e gestão de de liderança entre os candidatos. “Não adianta ter um ótimo currículo acadêmico.” (De fato, isso é algo que as universidades públicas –em crise, mas comandadas por cientistas renomados,– conhecem bem.)

CURRÍCULO HÍBRIDO

“A experiência foi excelente porque encontramos a uma pessoa exatamente com o perfil que a gente queria.” E qual era o perfil ideal? “Alguém com um currículo híbrido, com experiência acadêmica e também no mercado.”

Brito tem esse tal currículo híbrido. Antes da vaga, era professor adjunto do departamento de operações da FGV. Mais anteriormente, ocupara cargos de direção na Sanbra, Santista Alimentos e Dixie Toga.

Hoje, a FGV está em 5º lugar no país na avaliação do curso de administração do último RUF – Ranking Universitário Folha e sobe para e 1º dentre os cursos de instituições privadas.

A escola também está em 1º lugar no indicador que mostra a avaliação do mercado (de quem contrata), mas despenca para 857º lugar no indicador que avalia a quantidade de professores em tempo parcial e integral em relação ao total docente (leia mais sobre isso: 1/3 dos docentes de universidades particulares recebe por hora/aula). Isso significa que a escola tem poucos docentes em tempo parcial ou integral. Isso pode ser uma questão para a nova gestão.

O engenheiro toma posse no final de fevereiro, mas já está despachando como diretor e, conforme o Abecedário apurou, tem falado que pretende aumentar a quantidade de aulas e cursos oferecidos em inglês –uma tendência de instituições de ensino de países que não têm o inglês como língua materna, como Alemanha e Holanda, mas ainda pouco disseminada por aqui. Vamos acompanhar.

Enem: por que tantos zeros na prova de redação?

Por sabine
15/01/15 00:13

Temos um problema: quase 10% dos alunos que fizeram a principal prova de avaliação do ensino médio do Brasil, o Enem, zerou na prova de redação. Foram cerca de 500 mil notas zero na única parte escrita da prova. Um desastre.

Mais: apenas 250 estudantes, dos cerca de 6,2 milhões que fizeram a prova, tiraram a nota máxima na parte escrita. Para se ter uma ideia do que isso significa, esse grupinho representa 0,004% de quem fez o exame. Tirar nota máxima no Enem foi estatisticamente tão raro -raríssimo- quanto desenvolver, por exemplo, “síndrome dos ossos de cristal” (osteogênese imperfeita), aquela doença que deixa os ossos frágeis a ponto de quebrá-los com um aperto de mão.

O que isso significa? Bom, significa muita coisa.

Escreve minimamente bem quem lê pelo menos um mínimo. Falo de notícias, textos acadêmicos, livros. É lendo que se aprende a escrever, que o vocabulário enriquece, que a gramática aparece corretamente sem que o aluno tenha de decorar regras. Sobretudo: é lendo que se coleciona argumentos para discorrer sobre um determinado assunto. Não é por coincidência que uma das estudantes que tirou nota máxima no Enem, Taiane Cechin, 17, classifica-se como “leitora voraz”: Leitura desde cedo levou à nota máxima no Enem, diz estudante.

O problema é que ler, no Brasil, é raro em casa e raro na sala de aula. E, em uma escola cada vez mais preocupada em encher os alunos com conteúdo memorizado para provas testes –como o próprio Enem–, o tempo para leitura fica ainda mais escasso.

Quer um exemplo da importância da leitura? Pois bem. O tema de redação da última prova do Enem, essa que teve meio milhão de notas zero, foi “publicidade infantil em questão no Brasil”. Exatamente um mês antes do exame, o blog Maternar, desta Folha, trouxe uma reportagem sobre o tema: Às vésperas do Dia das Crianças, campanha denuncia publicidade infantil

Quem leu essa reportagem, já conhecia o debate, refletiu sobre ele e, com sorte, conversou sobre o assunto com colegas, família, quem seja. Pronto: temos aqui a construção de uma argumentação. Isso também é um exercício muito importante. É preciso convidar os jovens a se expressar com argumentos, com embasamento. É preciso ouvi-los.

EM SILÊNCIO

Para se ter uma ideia do que estou falando, imagine a seguinte cena: o estudante chega na escola, assiste às aulas passivamente, em silêncio, e volta para casa. Ninguém pergunta a opinião dele sobre nada, ninguém o convida a refletir, ninguém quer saber o que ele pensa, por qual motivo pensa e de onde vieram os argumentos. Nós não aprendemos a debater –já escrevi sobre isso em Quem não sabe debater xinga. Aí o aluno, sem aprender a debater, e ser nunca ter debatido, chega ao Enem e tem de escrever tudo o que ele pensa e sabe sobre um determinado assunto (no caso, publicidade infantil). Oi?

Claro, há técnicas de redação, uma espécie de receita de bolo. Introdução, argumento a favor, argumento contra, problematização, conclui. Ótimo, isso também deve ser ensinado na escola. Mas para seguir essa receita é preciso ter um mínimo de ingredientes, de informação e de argumentos. Sem isso, não tem bolo.

Um país em que um em cada dez jovens zera no item em que ele deveria se expressar, argumentar e se comunicar tem um problema. Estamos formando uma geração apática e silenciosa.

'Booktubers' jovens dão dicas de 12 livros para ler em 2015

Por sabine
09/01/15 00:00

Quer saber quais livros bacanas você pode ler agora nas férias escolares ou ao longo de 2015? Pois você pode seguir, no YouTube, algumas dicas dos chamados”booktubers”. São internautas que fazem resenhas de livros e dão dicas literárias em vídeos.

O Abecedário selecionou alguns canais booktubers comandados por jovens e encontrou dicas bem interessantes de leitura, que vão de “Cidades de papel” (John Green, Ed. Intrínseca) –muito procurado por jovens especialmente depois do sucesso de “A culpa é das estrelas”, do mesmo autor,– a clássicos como “Laranja Mecânica” (Anthony Burguess, Ed. Aleph), publicado originalmente em 1962. Veja abaixo:

Então, eu li

Então, eu li

A estante de Nine

A estante de Nine

Efeitos literários

Estante alada

Estante alada

estante alada

Para saber mais sobre a proposta booktuber, o blog conversou com o autor de “Então, eu Li“, comandado há dois anos pelo adolescente Daniel Destro, 15, morador de Barra Bonita, São Paulo (270 km da capital). O autor diz que lê, em média, cinco livros por mês e resolveu compartilhar suas impressões sobre as obras.

O mais bacana é que Daniel recebe os livros de editoras como DarkSide, Arqueiro, Zahar, Aleph e Globo Livros para fazer as resenhas no YouTube. “Na hora de fazer resenha, minha opinião não é influenciada só pelo fato que ganhei o livro. E se eu realmente não gostar do livro, eu irei falar”, diz. Bacana, Daniel!

Fiquei curiosa para saber de onde surgiu essa sede pela leitura. “Comecei a entrar nesse mundo pelos quadrinhos da ‘Turma da Mônica’. Logo depois, ‘Turma da Mônica Jovem’. Mas o gosto de ler compulsivamente surgiu após ler a saga ‘Harry Potter’ [ J.K.Rowling, Ed.Rocco]”, diz Daniel.

E de que forma seu gosto pela leitura melhorou sua vida, Daniel? “É como se fosse um refúgio desse mundo maligno. Você esquece do que acontece na sua volta e viaja sem sair do lugar”, diz. “Além disso, o hábito da leitura deixa você um pouco mais criativo, você conhece diversas palavras, tem um conhecimento maior do mundo, pois você aprende diversas coisas. Por exemplo, na saga ‘Percy Jackson e os olimpianos’ [Rick Riordan, Ed. Intrínseca], você acaba de ler a saga sabendo um pouco sobre a mitologia dos deuses gregos.”

Muito bacana. Eu ainda estou fazendo minha lista de obras para 2015. E você? Quais são seus 12 livros para 2015?

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