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Abecedário

Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Alunos da USP leste invadem incubadora e pedem espaço estudantil

Por sabine
26/02/15 22:03

Um grupo de alunos invadiu nesta quarta-feira, 25, o prédio da unidade leste da USP destinado à incubadora Habits (sigla de “Habitat de Inovação Tecnológica e Social”), onde funcionam três empresas criadas por estudantes da universidade.

De acordo com informações ouvidas pelo Abecedário, os funcionários das empresas que operam no espaço foram surpreendidos no meio da tarde e tiveram de sair “às pressas”, levando equipamentos nas mãos. O local continua interditado por um grupo de estudantes. A USP e o DCE não informaram quantos alunos estão no local.

Em nota divulgada em redes sociais, o diretório acadêmico central da USP justificou a ocupação da incubadora sob o pretexto de que o Espaço dos Estudantes daquele campus teria sido desapropriado. “Tal decisão se deu em razão da desapropriação do Espaço dos Estudantes no dia 27/01, realizada de forma extremamente autoritária e intransigente por parte da direção da Escola”, informa a nota. O Abecedário procurou representantes do DCE, que não quiseram falar com a imprensa.

A situação caótica da USP leste

De acordo com a professora Luciane Meneguin Ortega, que coordena a incubadora na USP leste e também atua na Agência de Inovação da USP, a ocupação atrapalha –e muito– as atividades das empresas incubadas.  Também pode prejudicar o trabalho de futuros projetos. “Não parece fazer muito sentido os alunos invadirem um espaço que é justamente destinado aos próprios alunos”, diz Ortega. Hoje, o espaço pode acolher até 15 empresas incubadas –as inscrições para novos projetos, inclusive, estão abertas.

FOCO SOCIAL

A Habits incuba apenas empresas –lucrativas– criadas pelos alunos com foco social. Uma delas, a Opa! (Orientação Particular e Acompanhada), nasceu no Habits e ganhou há poucas semanas o Prêmio “Mulheres Tech em Sampa”, na Campus Party. O projeto foi desenvolvido pelas estudantes Tássia Chiarelli (formada em gerontologia) e Laís de Azevedo (marketing) –leia mais aqui.

Outro projeto, a empresa Quanti.ca., desenvolve plataformas para ensino a distância e treinamento profissional. Um dos focos do serviço é a acessibilidade de pessoas com deficiência. O Banco Mundial é o principal cliente da empresa. A terceira empresa no espaço é a Libras, que atua com deficientes auditivos.

O Abecedário apurou o grupo de estudantes está negociando com a diretoria da unidade leste um novo local para as suas atividades. Eles teriam passado um tempo em um anfiteatro da universidade e agora pleiteiam um local definitivo.

Depois de passar boa parte do ano passado paralisada (em greve) e interditada por causa de contaminação de água e de solo –o que incluiu gás metano e risco de explosão–, a ocupação de um dos espaços mais bacanas da unidade leste da USP é um novo balde de água fria para a maioria dos cerca de 4.000 estudantes que frequentam a Universidade de São Paulo próxima a Guarulhos. Mais um.

Dá para estudar assim? Não, não dá. Dá para ser empreendedor social assim? Obviamente que não dá. Para onde exatamente estamos levando a USP leste?

Insper traz ao Brasil ensino inédito de engenharia; aulas já começaram

Por sabine
24/02/15 13:17

Nesta semana, um novo grupo de 90 estudantes vai passar a frequentar o prédio da instituição de ensino superior privada Insper, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo: os alunos de engenharia.

Famoso por cursos de elite em economia e de administração, o Insper agora entrou com tudo na formação de engenheiros nas especialidades mecânica, mecatrônica e computação. A diferença em relação a outras escolas brasileiras, dizem os idealizadores da nova graduação, é que o foco da formação dos engenheiros do Insper não será técnico –traduzida em muitos números e cálculos. A ideia é formar engenheiros empreendedores.

“O objetivo é formar engenheiros capazes de inovar, de criar produtos e de empreender. Priorizamos o aprendizado de competências ligadas ao empreendedorismo, gestão de projetos e o trabalho em equipe”, explica Irineu Gianesi, diretor dos cursos de engenharia.

Por que essa iniciativa é interessante? Simples: porque é novidade no Brasil. Por aqui, a formação de engenheiros predominante ainda tem salas de aula com carteiras enfileiradas, lousas cheias de cálculos e muitas horas de aula expositiva.

Escolas e universidades no Brasil desestimulam aluno empreendedor

Em universidade ‘top’ quem não empreende é loser

Para desenhar o novo curso de engenharia, o Insper foi beber na fonte de escolas de ponta dos EUA. Trouxe alguns conceitos, criou outros. O Abecedário visitou recentemente as instalações de engenharia do Insper e viu que lá, assim como nas melhores escolas de engenharia do mundo, não há carteiras individuais: todos os alunos trabalham em grupos. Isso, claro, muda toda a dinâmica de ensino. O professor –a ideia é que sejam dois por aula–acaba assumindo um papel de guia e orienta os exercícios, que são baseados em resolução de problemas.

PROFESSORES EMPREENDEDORES

E os professores estão acostumados com essa dinâmica menos expositiva? Não, claro que não. “Encontrar professores com um perfil mais empreendedor é um dos desafios do curso”, disse o engenheiro eletricista Vinicius Licks ao Abecedário. Ele foi o primeiro professor contratado para as engenharias do Insper, depois de um período que passou na Universidade Harvard, a melhor do mundo de acordo com rankings internacionais. Hoje, a escola tem cerca de 15 docentes; algumas aulas também serão comandadas por CEOs, por investidores e por empreendedores.

Licks é autor, por exemplo, de uma disciplina interessante chamada “grandes desafios da engenharia”. A ideia do curso é apresentar um problema social, discutir suas dimensões e levantar soluções de engenharia. Neste primeiro ano, a disciplina vai tratar de mobilidade urbana; no ano que vem o tema deve mudar. “A ideia é que os alunos sejam capazes de pensar em soluções e de apresentá-las, de comunicá-las”, diz. Os alunos serão avaliados pela sua capacidade de comunicação oral e escrita, pelo conhecimento do contexto e pelo trabalho em equipe.

Quem derrapar durante o curso será acompanhado de perto por mentores e por um coaching –outra novidade. Esses profissionais também vão ajudar os estudantes a desenhar individualmente a sua carreira.

Todas essas novidades, claro, têm um preço: são R$3.500 mensais que os alunos pagam pelo ensino em período integral –lembrando que as aulas ocupam uma parte do dia e, na outra, os estudantes se ocupam em atividades em laboratórios e em espaços de inovação e de empreendedorismo. Dos 90 alunos aprovados em uma processo seletivo que teve até dinâmica de grupo, 12 são bolsistas.

POUCAS VAGAS

O Insper ainda não tem planos ambiciosos de expansão. Deve aumentar de 90 para 120 o número de alunos de engenharia no próximo ano.  Para se ter uma ideia do que isso significa, a Poli-USP oferece, hoje, 750 vagas por ano.

Os novos engenheiros do Insper tampouco vão “resolver” a falta de engenheiros do país. O Brasil forma hoje cerca de 40 mil engenheiros anualmente –mais ou menos metade do que precisaria para se desenvolver minimamente. Mas isso não importa agora. Se a nova escola no Insper ajudar a estimular e a espalhar a ideia de ensino de empreendedorismo e de inovação entre aqueles que mais devem criar –os engenheiros– o ganho já será grande.

 

# LEIA MAIS:

Confira a a avaliação de sete cursos de engenharia no RUF 2014

Domínio de inglês é problema também para classe 'A'

Por sabine
10/02/15 00:01

Fala inglês fluentemente quem tem dinheiro para pagar um curso particular ou para estudar fora do país, certo? Errado.

Uma pesquisa que consultou aleatoriamente pessoas que moram em cidades como São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza e outros grandes centros do país mostrou que, dos entrevistados, seis em cada dez pessoas das classes A e B não compreendem outro idioma além do português. Entre os entrevistados da classe C, o índice sobe um pouco: oito em cada dez entrevistados só entendem o português.

Os dados compõem o Índice de Proficiência em Inglês e foram divulgados para a Folha pelo Google na semana passada. A pesquisa foi feita com 10.368 pessoas que se dispuseram a fazer uma espécie de prova de inglês on-line, com 30 questões. A amostra de respondentes não foi previamente selecionada e, por isso, não segue a proporção brasileira de sexo, idade e faixa econômica –o que significa que os dados não podem ser extrapolados para o Brasil. Ou seja: eles valem apenas para os respondentes que vivem em grandes centros urbanos.

Dentre os consultados, uma surpresa: poucos dos que só sabem falar português estão estudando outro idioma. De quem respondeu ao questionário e tem de 18 a 34 anos –do começo da idade “universitária” até o final da primeira década após a formatura–, apenas 5% disseram que estão matriculados em alguma escola de inglês.

Quem não está estudando outro idioma como o inglês alega falta de tempo e de dinheiro.

O que esse estudo revela? Primeiro: quem vive em cidades grandes parece não dar conta de modelos tradicionais de ensino do idioma, em escolas, salas de aulas, turmas fechadas, essas coisas. Não seria o momento, então, de flexibilizar aulas e horários ou até investir em ensino a distância? O Índice de Proficiência em Inglês estima que pelo menos seis milhões de brasileiros tenham interesse em estudar inglês, mas estão fora das escolas. Parece uma oportunidade de negócios, não?

Mais: se a gente não fala inglês nem nas grandes cidades, onde, em geral, estão as grandes empresas, as melhores universidades e as boas possibilidades de carreira, como conseguiremos ser um país minimamente desenvolvido e competitivo internacionalmente?

Pois é.

Bom, parece que não somos competitivos internacionalmente com esses indicadores. De acordo com o ranking do Índice de Proficiência em Inglês, que faz esse tipo de pesquisa em vários países, o resultado de domínio de um segundo idioma encontrado entre os respondentes do Brasil é pior se comparado a quem participou da pesquisa nos BRICs. Veja abaixo a listagem:

1º. Suécia
19º. Argentina
21º. Índia
31º. Rússia
34º. China
38º. Brasil

Arrisco a dizer, ainda, que parte dos respondentes que declarou só falar português já deve ter passado por aula de inglês na escola. Claro: no Brasil, o ensino de inglês é obrigatório em toda a rede de educação básica a partir da 5ª série ou 6º ano. Isso acontece há quase duas décadas. Então escutamos Rihanna e, sei lá, Justin Bieber na rádio, chamamos liquidação de “sale”, temos aulas obrigatórias de inglês na escola e, mesmo assim, mostramos que só conhecemos o português nesse tipo de pesquisa. Oi?

Algo está errado.

Precisamos discutir o ensino de inglês com a profundidade que o assunto merece da sala de aula às políticas públicas nacionais. Enquanto não entendermos o problema, não teremos a solução.

 

Novo diretor da FGV concorreu pela vaga com candidatos até da Holanda

Por sabine
09/02/15 18:32

Uma das principais escolas de administração do país, a FGV de São Paulo, está com diretor novo –escolhido em um processo seletivo que teve candidatos brasileiros e de países como Holanda, EUA e Portugal. O engenheiro com doutorado em administração Luiz Artur Ledur Brito, que já era docente da FGV, foi o escolhido entre 41 nomes que se candidataram à vaga e foram analisados por uma comissão de busca ao longo de 2014.

Essa foi a primeira vez que o processo de busca do novo diretor da Escola de Administração da FGV teve candidatos estrangeiros. O último processo aconteceu há seis anos. “Acredito que seja uma tendência, muita gente está de olho no Brasil”, diz Fernando Abrucio, docente da FGV que integrou a comissão de busca.

Os currículos internacionais recebidos para vaga também seriam reflexo de “propaganda” internacional. A antiga diretora, Maria Thereza Fleury, costumava divulgar o processo seletivo em suas viagens acadêmicas. Ela, aliás, fora trazida da Faculdade de Economia e Administração da USP há seis anos (a vaga de direção é de três anos renovável por mais três).

Esse processo seletivo internacional para o cargo máximo de uma instituição de ensino é especialmente interessante no Brasil simplesmente porque é raro. Por aqui, ainda é tradição escolher, por voto, um cientista renomado da própria universidade para comandá-la –o que nem sempre dá certo. Quem é bom na bancada nem sempre é bom em gestão.

Entre os candidatos para a vaga da FGV, cujos nomes são guardados a sete chaves (por motivos óbvios –todos estão empregados em outras instituições), havia reitores, presidentes e docentes de instituições de ensino estrangeiras e brasileiras, como a própria FGV.

A comissão chegou a contratar uma empresa especializada para identificar capacidade e gestão de de liderança entre os candidatos. “Não adianta ter um ótimo currículo acadêmico.” (De fato, isso é algo que as universidades públicas –em crise, mas comandadas por cientistas renomados,– conhecem bem.)

CURRÍCULO HÍBRIDO

“A experiência foi excelente porque encontramos a uma pessoa exatamente com o perfil que a gente queria.” E qual era o perfil ideal? “Alguém com um currículo híbrido, com experiência acadêmica e também no mercado.”

Brito tem esse tal currículo híbrido. Antes da vaga, era professor adjunto do departamento de operações da FGV. Mais anteriormente, ocupara cargos de direção na Sanbra, Santista Alimentos e Dixie Toga.

Hoje, a FGV está em 5º lugar no país na avaliação do curso de administração do último RUF – Ranking Universitário Folha e sobe para e 1º dentre os cursos de instituições privadas.

A escola também está em 1º lugar no indicador que mostra a avaliação do mercado (de quem contrata), mas despenca para 857º lugar no indicador que avalia a quantidade de professores em tempo parcial e integral em relação ao total docente (leia mais sobre isso: 1/3 dos docentes de universidades particulares recebe por hora/aula). Isso significa que a escola tem poucos docentes em tempo parcial ou integral. Isso pode ser uma questão para a nova gestão.

O engenheiro toma posse no final de fevereiro, mas já está despachando como diretor e, conforme o Abecedário apurou, tem falado que pretende aumentar a quantidade de aulas e cursos oferecidos em inglês –uma tendência de instituições de ensino de países que não têm o inglês como língua materna, como Alemanha e Holanda, mas ainda pouco disseminada por aqui. Vamos acompanhar.

Enem: por que tantos zeros na prova de redação?

Por sabine
15/01/15 00:13

Temos um problema: quase 10% dos alunos que fizeram a principal prova de avaliação do ensino médio do Brasil, o Enem, zerou na prova de redação. Foram cerca de 500 mil notas zero na única parte escrita da prova. Um desastre.

Mais: apenas 250 estudantes, dos cerca de 6,2 milhões que fizeram a prova, tiraram a nota máxima na parte escrita. Para se ter uma ideia do que isso significa, esse grupinho representa 0,004% de quem fez o exame. Tirar nota máxima no Enem foi estatisticamente tão raro -raríssimo- quanto desenvolver, por exemplo, “síndrome dos ossos de cristal” (osteogênese imperfeita), aquela doença que deixa os ossos frágeis a ponto de quebrá-los com um aperto de mão.

O que isso significa? Bom, significa muita coisa.

Escreve minimamente bem quem lê pelo menos um mínimo. Falo de notícias, textos acadêmicos, livros. É lendo que se aprende a escrever, que o vocabulário enriquece, que a gramática aparece corretamente sem que o aluno tenha de decorar regras. Sobretudo: é lendo que se coleciona argumentos para discorrer sobre um determinado assunto. Não é por coincidência que uma das estudantes que tirou nota máxima no Enem, Taiane Cechin, 17, classifica-se como “leitora voraz”: Leitura desde cedo levou à nota máxima no Enem, diz estudante.

O problema é que ler, no Brasil, é raro em casa e raro na sala de aula. E, em uma escola cada vez mais preocupada em encher os alunos com conteúdo memorizado para provas testes –como o próprio Enem–, o tempo para leitura fica ainda mais escasso.

Quer um exemplo da importância da leitura? Pois bem. O tema de redação da última prova do Enem, essa que teve meio milhão de notas zero, foi “publicidade infantil em questão no Brasil”. Exatamente um mês antes do exame, o blog Maternar, desta Folha, trouxe uma reportagem sobre o tema: Às vésperas do Dia das Crianças, campanha denuncia publicidade infantil

Quem leu essa reportagem, já conhecia o debate, refletiu sobre ele e, com sorte, conversou sobre o assunto com colegas, família, quem seja. Pronto: temos aqui a construção de uma argumentação. Isso também é um exercício muito importante. É preciso convidar os jovens a se expressar com argumentos, com embasamento. É preciso ouvi-los.

EM SILÊNCIO

Para se ter uma ideia do que estou falando, imagine a seguinte cena: o estudante chega na escola, assiste às aulas passivamente, em silêncio, e volta para casa. Ninguém pergunta a opinião dele sobre nada, ninguém o convida a refletir, ninguém quer saber o que ele pensa, por qual motivo pensa e de onde vieram os argumentos. Nós não aprendemos a debater –já escrevi sobre isso em Quem não sabe debater xinga. Aí o aluno, sem aprender a debater, e ser nunca ter debatido, chega ao Enem e tem de escrever tudo o que ele pensa e sabe sobre um determinado assunto (no caso, publicidade infantil). Oi?

Claro, há técnicas de redação, uma espécie de receita de bolo. Introdução, argumento a favor, argumento contra, problematização, conclui. Ótimo, isso também deve ser ensinado na escola. Mas para seguir essa receita é preciso ter um mínimo de ingredientes, de informação e de argumentos. Sem isso, não tem bolo.

Um país em que um em cada dez jovens zera no item em que ele deveria se expressar, argumentar e se comunicar tem um problema. Estamos formando uma geração apática e silenciosa.

'Booktubers' jovens dão dicas de 12 livros para ler em 2015

Por sabine
09/01/15 00:00

Quer saber quais livros bacanas você pode ler agora nas férias escolares ou ao longo de 2015? Pois você pode seguir, no YouTube, algumas dicas dos chamados”booktubers”. São internautas que fazem resenhas de livros e dão dicas literárias em vídeos.

O Abecedário selecionou alguns canais booktubers comandados por jovens e encontrou dicas bem interessantes de leitura, que vão de “Cidades de papel” (John Green, Ed. Intrínseca) –muito procurado por jovens especialmente depois do sucesso de “A culpa é das estrelas”, do mesmo autor,– a clássicos como “Laranja Mecânica” (Anthony Burguess, Ed. Aleph), publicado originalmente em 1962. Veja abaixo:

Então, eu li

Então, eu li

A estante de Nine

A estante de Nine

Efeitos literários

Estante alada

Estante alada

estante alada

Para saber mais sobre a proposta booktuber, o blog conversou com o autor de “Então, eu Li“, comandado há dois anos pelo adolescente Daniel Destro, 15, morador de Barra Bonita, São Paulo (270 km da capital). O autor diz que lê, em média, cinco livros por mês e resolveu compartilhar suas impressões sobre as obras.

O mais bacana é que Daniel recebe os livros de editoras como DarkSide, Arqueiro, Zahar, Aleph e Globo Livros para fazer as resenhas no YouTube. “Na hora de fazer resenha, minha opinião não é influenciada só pelo fato que ganhei o livro. E se eu realmente não gostar do livro, eu irei falar”, diz. Bacana, Daniel!

Fiquei curiosa para saber de onde surgiu essa sede pela leitura. “Comecei a entrar nesse mundo pelos quadrinhos da ‘Turma da Mônica’. Logo depois, ‘Turma da Mônica Jovem’. Mas o gosto de ler compulsivamente surgiu após ler a saga ‘Harry Potter’ [ J.K.Rowling, Ed.Rocco]”, diz Daniel.

E de que forma seu gosto pela leitura melhorou sua vida, Daniel? “É como se fosse um refúgio desse mundo maligno. Você esquece do que acontece na sua volta e viaja sem sair do lugar”, diz. “Além disso, o hábito da leitura deixa você um pouco mais criativo, você conhece diversas palavras, tem um conhecimento maior do mundo, pois você aprende diversas coisas. Por exemplo, na saga ‘Percy Jackson e os olimpianos’ [Rick Riordan, Ed. Intrínseca], você acaba de ler a saga sabendo um pouco sobre a mitologia dos deuses gregos.”

Muito bacana. Eu ainda estou fazendo minha lista de obras para 2015. E você? Quais são seus 12 livros para 2015?

Ex-bolsista do Ciência sem Fronteiras cria portal com ideias de egressos

Por sabine
07/01/15 15:09

No próximo mês de fevereiro, o governo federal deve atingir a meta de ter enviado 101 mil estudantes para uma temporada de estudos no exterior pelo programa Ciência sem Fronteiras. O que cada um deles traz de volta ao país? “Um monte de ideias que, hoje, estão dispersas”, diz o ex-bolsista e estudante de engenharia na UFABC Peirol Gomes, 25.

Incomodado com a situação, ele e dois amigos da UFABC resolveram criar o MyCsF, um portal que reúne ex-bolsistas do programa e que pretende compilar as ideias que cada um deles traz na mala quando volta ao Brasil.

A proposta do estudante –que passou por três universidades dos EUA em nove meses de bolsa, incluindo Stanford University, uma das melhores do mundo,– é bem simples: cada ex-bolsista do programa deve compartilhar, por texto ou vídeo, alguma história que tenha marcado positivamente o seu período de estudos e que possa ter um impacto no ensino superior do Brasil.

Gomes, por exemplo, compartilha uma experiência interessante. Ele ficou impressionado com a sua produtividade acadêmica fora da sala de aula. Isso foi possível porque a carga horária de disciplinas nos EUA é bem menor do que no Brasil: foram 14 horas semanais naquele país contra 25 horas semanais no Brasil.

Menos tempo em sala de aula significou mais atividades extra-curriculares (no caso dele, voltadas ao estudo de empreendedorismo). “Seria interessante discutir a carga horária no Brasil”, diz. “Muita gente se sente frustrado quando volta do programa. Cada ex-bolsista está cheio de energia e de ideias, que precisam ser compartilhadas.”

101 MIL ‘FUNCIONÁRIOS’

Usando uma metáfora do próprio estudante: se o governo fosse uma empresa que enviara 101 mil funcionários para estagiar em grandes companhias mundo afora, será que o conhecimento adquirido por esses funcionários, assim que eles voltassem para a empresa, não seria melhor aproveitado?

Pois é.

Se a proposta der certo, as ideias dos egressos do CsF, quando implementadas, podem servir como um retorno à sociedade brasileira, que tirou de bolso mais de R$ 3 bilhões para custear milhares de temporadas de estudos no exterior. O valor é maior do que o orçamento anual da Unicamp.

Mais: a troca pública de informações e de experiências pode ajudar quem está começando a bolsa agora e quem pretende aplicar para o “Ciência sem Fronteiras 2.0″, nova versão do programa. “Eu teria aproveitado melhor o programa se estivesse mais bem informado quando tive a bolsa em 2012″, diz o estudante.

Ok, bacana. Perguntas: será que as universidades brasileiras estão preparadas e suficientemente abertas para ouvir as ideias e críticas de quem está voltando de algumas das melhores instituições de ensino do mundo? Se estão, por que não ouviram esses alunos até agora?

Universidades têm de criar canais específicos para denúncia de estupro

Por sabine
06/01/15 00:00

A notícia de que três alunas da USP teriam sido estupradas durante uma festa do curso de medicina da universidade trouxe à tona um problema grave das escolas brasileiras: a inexistência de um canal específico para comunicação e denúncias de assédio sexual e de estupro.

Hoje, uma estudante da USP que quiser denunciar qualquer forma de assédio dentro da universidade deve procurar a ouvidoria. O caso será analisado no meio a outras tantas reclamações –como nota errada emitida por um professor em alguma disciplina ou mal funcionamento de um serviço da biblioteca. Não há uma atenção específica para o caso.

USP, estupros e metrô

Mais: o simples fato de que esse tipo de denúncia deve ser feito na ouvidoria, e não em um órgão específico, pode intimidar as estudantes e reduzir o número de casos relatados. É a mesma lógica da delegacia para a mulher: antes, sem um serviço específico, muitas mulheres simplesmente não se sentiam confortáveis em fazer a denúncia em uma delegacia padrão. Agora, com uma delegacia específica, as chances de denúncia aumentam.

Com esse sistema torto de denúncia na universidade brasileira, fica difícil conhecer o tamanho do problema de assédio sexual e de estupro no campus. E, sem conhecê-lo, não dá para fazer políticas pensando em evitar e abordar esses casos. Sem informação, as alunas acabam ainda mais expostas. Como resolver isso?

O Abecedário investigou como funciona o sistema de denúncia em algumas universidades ‘top’ no mundo. Na Universidade de Michigan, EUA, por exemplo, há um serviço específico para acolher denúncias ligadas à assédio sexual. De junho de 2013 a junho de 2014, foram reportados 129 casos na universidade, que vão de retaliação à assédio sexual (considerado pela universidade como qualquer caso de toque com intenção sexual, incluindo até abraço, sem consentimento da vítima).

Os casos foram investigados e em 33 deles as vítimas foram orientadas a não falar com o suposto agressor. Até junho do ano passado, um aluno foi considerado culpado e foi expulso da universidade  (veja relatório detalhado). Esse mesmo modelo –com canal específico para denúncia e relatórios anuais– é seguido pelas principais universidades dos EUA e da Europa.

MAIS INFORMAÇÃO

O serviço da Universidade de Michigan possibilita que a universidade identifique quais são os casos mais comuns, o perfil das vítimas e os pontos de maior vulnerabilidade no campus para as alunas. Com isso,  consegue produzir um material detalhado, que é distribuído para as alunas com informações sobre o que caracteriza assédio sexual, como evitá-lo e como denunciá-lo (eu mesma recebi um informativo desses assim que cheguei na Universidade de Michigan para um período de estudos em 2012; na USP, Unesp e Unicamp, onde já fui aluna, nunca recebi nada parecido).

Mais: todas as denúncias de estupro e de outros tipos de violência dentro do campus, como roubos e assaltos, são enviadas por e-mail a todos os alunos. Alguém aí estuda em uma universidade brasileira e já recebeu um e-mail desses? Pois é, eu também não.

A identidade das vítimas, na Universidade de Michigan, sempre é preservada. Na USP, as três garotas viraram notícia e foram criticadas pela própria gestão da universidade por causa da denúncia. O próprio reitor teria dito, em reunião do conselho da universidade, que as denúncias mancharam a imagem da universidade (leia aqui). Oi?

O caso da USP criou tanta espuma e confusão que a Assembleia Legislativa de São Paulo acabou criando uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), que ficou conhecida como “CPI da USP”, para apurar a denúncia e o comportamento institucional subsequente. O relator é o deputado Ulysses Tassinari (PV).

A USP anunciou que vai ampliar a atuação da Comissão de Direitos Humanos da universidade para lidar com políticas e iniciativas na área (leia aqui), mas nenhum canal específico de comunicação desse tipo de caso foi criado.

A universidade brasileira precisa encarar o problema de frente, tem de incentivar suas estudantes a denunciar casos de assédio sexual e estupro e, claro, precisa criar canais específicos, efetivos e seguros para que isso seja feito. Enquanto isso não acontecer, toda estudante universitária brasileira já está sendo previamente agredida.

 

Agradeço à Fernanda Pires, da Universidade de Michigan, pela ajuda com as informações.

Em universidades 'top', quem não empreende é 'loser'

Por sabine
05/01/15 17:08

Já escrevi sobre isso: no Brasil, escolas e universidades não preparam seus estudantes para inovar e empreender, mas sim para que consigam bons empregos. Ok, disso já sabemos. O que não sabemos é como, então, as universidades ‘top’ estimulam seus alunos para que eles tenham ideias e para que desenvolvam suas ideias.

Durante mais de dois meses, visitei algumas das melhores universidades do mundo –Harvard, MIT, Berkeley, Stanford, Michigan, Columbia– tentando responder a essa pergunta. Conversei com docentes e alunos. Cheguei à primeira conclusão: quem entra nessas universidades, em geral, tem perfil empreendedor e quer inovar. “Aqui, quem não empreende é loser [perdedor]”, disse uma aluna do curso de administração da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Ninguém, claro, quer ser loser.

Se cada aluno já é um pouco empreendedor, então é preciso incentivá-los e conectá-los. Isso porque as chances de uma ideia dar certo aumentam significativamente se essa ideia for compartilhada, especialmente com pessoas de áreas diferentes do conhecimento. O que as universidades ‘top’ fazem, então, é dar um empurrãozinho nesse processo criativo, promovendo uma interação entre estudantes em alguns espaços específicos.

No Brasil, escolas e universidades desestimulam aluno empreendedor

Na melhor do mundo, Harvard, em Boston, esse espaço de interação é chamado de “laboratório de inovação”, I-lab. É aberto a alunos de todos os cursos que queiram desenvolver suas ideias. E, adivinhe? Está sempre lotado. No I-lab, os estudantes fazem cursos e assistem a palestras sobre inovação e empreendedorismo –que, atenção, não contam crédito para a graduação– e também usam a infra-estrutura para trocar ideias e fazer conexões.

‘SEJA O CHEFE’

Essa estrutura para conectar os alunos é relativamente simples, mesmo em Harvard. Trata-se de um prédio bonito com sofás, mesas, salas de reunião e muitas paredes em que é possível escrever coisas e fazer desenhos. Em uma delas, há post-its com mensagem de alunos do tipo “procuro parceiros para desenvolver app na área de transporte” ou “estudantes de engenharia buscam alunos de educação para start-up”. Em outras paredes, há mensagens incentivadoras como “pare de agir como um chefe e seja o chefe”. Tudo escrito pelos próprios alunos.

Esse tipo de espaço, de conexão entre alunos, também existe na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, famosa pelos cursos de engenharia. Lá, estudantes de diversas áreas podem se encontrar uma vez por semana, em um evento promovido pela aceleradora de start-ups da universidade, para jantar e conversar.

Entre cookies e coca-cola, eles anunciam o que estão pensando e o que precisam para que a ideia dê certo. No encontro que acompanhei, uma bióloga doutoranda encontrou um parceiro em potencial na área de engenharia. O objetivo dela era desenvolver um aparelho inédito voltado à reabilitação humana em uma doença específica. Ela entendia da doença, ele, de como fazer o aparelho. Bingo!

“Fazemos uma espécie de speed-dating [encontros para arrumar parceiro amoroso], só que com o objetivo de conectar empreendedores”, diz Kit Needham, diretora do Olympus, que é a aceleradora de start-ups da universidade.

O bacana desses espaços, em Harvard e na Carnegie Mellon, é que eles permitem que o aluno que tem uma simples ideia comece a se expor e a buscar parceiros. Não precisa ser nada muito elaborado, um projeto, não precisa ter pesquisa de mercado (como exige boa parte das aceleradoras de start-ups de universidades). Basta ter uma ideia.

Fiquei pensando em como podemos incentivar o aluno brasileiro a ter ideias, a expor suas ideias e a se conectar com outros estudantes de maneira que todos façam com que a ideia saia do papel. Será que precisamos de espaços como o de Harvard para conseguir resultados bacanas? Ou será que esse tipo de espaço não funcionaria no Brasil, pois falta cultura empreendedora e sobram entraves econômicas para inovação?

Deixo a pergunta para o debate.

 

A pesquisa mencionada nesse post foi financiada pela Eisenhower Fellowships.

'Vou aproveitar que sou negro para entrar em uma boa universidade'

Por sabine
23/12/14 23:13

Vou chamá-lo de João. Com exceção do seu nome, que é fictício, todo o restante da história é verdadeira.

Conheci João, 15, na festa de Natal de uma ONG de São Paulo que cuida de crianças e de adolescentes retirados da guarda dos pais. Assim como os demais “irmãos” postiços, João chegou a um dos abrigos da ONG –chamados de “lar social”– porque sofreu maus tratos da família.

Como é negro e garoto, as chances de sair do espaço com uma família adotiva diminuem conforme a sua idade aumenta. No Brasil, a preferência das famílias na hora de “escolher” uma criança para adotar ainda é por crianças pequenas e brancas, de preferência meninas. Se não for adotado nos próximos três anos, João sairá do abrigo quando completar 18. Então, terá de seguir sua vida e se sustentar.

O garoto não me contou como chegou ao abrigo: se sofreu violência, abuso ou se foi vítima de negligência familiar. Esses são alguns dos motivos pelos quais muita criança vai parar em abrigos temporários no Brasil, como o que visitei. Muitas são retiradas das ruas; a maioria é filha de usuários de drogas pesadas.

ÓCULOS RETRÔ

O que sei é que João chegou ao abrigo há alguns anos. E que, além de chamar atenção pelo estilo descolado, com penteado black power e óculos retrô, ele também se destaca pelas boas notas. Acabou de ser aprovado no ‘vestibulinho’ de uma escola pública onde fará ensino médio técnico. Quer ser jornalista.

Claro, quis saber tudo sobre mim: onde me formei, onde comecei a trabalhar, como é a minha rotina. A cada palavra, tentei incentivá-lo. Dizia que ele tinha de estudar bastante, essas coisas.

“Vou aproveitar que sou negro para entrar em uma boa universidade”, disse.

Como assim, João?

Ele explicou: “Ser negro agora é vantagem para quem quer estudar porque dá pontos no vestibular em boas universidades públicas. Se não fosse por isso, eu nem pensaria em fazer faculdade.”

Sim, há dez anos, candidatos auto-declarados pretos, pardos e indígenas (classificação do IBGE) passaram a ter vagas reservadas no exame de ingresso da UnB, 5a melhor universidade federal do país, de acordo com o RUF. A reserva de vagas acabou alcançando todas as escolas federais do país e, espera-se, deve chegar às três universidades estaduais paulistas –USP, Unicamp e Unesp– até 2018 (hoje, USP e Unicamp dão pontos extras no vestibular para pretos, pardos e indígenas e para egressos de escolas públicas).

‘SE NÃO FOSSE ISSO’

Pois bem. Já escrevi muitas vezes sobre cotas e outras formas de ação afirmativa no ensino superior. Também já escrevi aqui sobre a importância da família na educação das crianças e sobre as vantagens de uma boa escola na corrida para a boa universidade. Mas vamos pensar no caso do João: ele não tem família, não tem em quem se espelhar e tampouco estudou em uma escola competitiva –dessas que custam, em média, cinco salários mínimos por mês. João tem, no entanto, um benefício no vestibular. “Se não fosse isso, eu jamais pensaria em fazer faculdade.”

Eu não sei se João vai concluir o ensino médio ou se entrará para as estatísticas de quem não termina a última etapa da educação básica (o que acontece com 50% dos alunos no Brasil). Tampouco sei se ele vai entrar em um curso de jornalismo. O que sei é que, hoje, esse garoto tem uma perspectiva por causa das cotas e, consequentemente, ganhou um motivo para se manter na escola e para brigar por uma vaga em uma boa universidade. Isso me parece bastante transformador, não?

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