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Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Museus devem incentivar perguntas no lugar de dar respostas

Por sabine
08/12/14 08:54

Crianças devem frequentar museus de ciências para aprender sobre ciência, certo? Errado.

De acordo com Robert Semper, um dos diretores do museu Exploratorium, que fica em São Francisco, EUA, o objetivo de espaços de divulgação científica como os museus é despertar a curiosidade das crianças para as ciências e não ensinar conceitos que devem ser memorizados. “Isso é função da escola”, diz. “Espaços não formais de educação devem instigar a curiosidade dos visitantes.”

Essa conversa interessante surgiu durante uma visita técnica ao Exploratorium, acompanhada de Semper e de um colega saudita, Amr Almadani, que coordena um espaço de interação de ciências voltado para a questão energética (Mishkat Interactive Center for Atomic and Renewable Energy). A ideia era entender como os museus de ciência contribuem para a educação científica e como podem estimular as crianças para as carreiras de ciência e as engenharias (“STEM”, na sigla em inglês).

Curiosamente, EUA, Arábia Saudita e Brasil –os três países envolvidos nesse encontro– sofrem por falta de mão-de-obra nas carreiras científicas. O Brasil, por exemplo, forma menos de 50 mil engenheiros por ano (precisaria de pelo menos o dobro) e carece de profissionais em áreas como física e química. De acordo com o MEC, há pelo menos 70 mil vagas sem dono para ministrar aula nessas áreas. A preferência nacional dos estudantes é por cursos como administração e direito.

Para Semper, os museus de ciência servem para atrair o aluno para aquilo que ele está aprendendo na escola, mas não devem ter o propósito de ensinar.”A  escola é obrigatória e a maioria dos alunos não liga para o que está estudando. Aqui, as crianças vêm ao museu porque querem, no final de semana, e se conectam com aquilo que vêm.”

No Exploratorium, as crianças (e adultos –vi vários deles) interagem com luzes e espelhos, brincam com aparelhos que mostram com a propagação do som, interagem com uma bola eletromagnética famosa por deixar os cabelos em pé. Tudo simples, barato e manuseável. “Se alguma coisa quebrar, a gente conserta facilmente aqui mesmo na nossa oficina”, diz Semper.

E como avaliar se os vistantes aprenderam os conceitos científicos apresentados no museu? De acordo com Semper, não se trata de fazer os visitantes preencherem um formulário respondendo a perguntas conceituais. “A proposta é que as pessoas saim do museu mais questionadoras, mais interessadas e com perguntas mais inteligentes.”

TREINAMENTO

Isso tudo que acontece no museu, claro, não é desconectado da escola. Hoje, 30% do orçamento do Exploratorium (que vem do governo, de associações e do ingresso individual –em torno de R$50,00) é despendido com treinamento de professores. Quem dá aula nos EUA pode aplicar para uma espécie de bolsa do Exploratorium e, se aprovados, passam as férias de verão em treinamento no espaço de São Francisco, recebendo um salário extra.

Outros espaços de ciência que conheci nos EUA, como o Lawrence Hall of Science, que fica no topo de uma montanha na Universidade de Berkeley, igualmente na Califórnia, também trabalham com professores. O Lawrence Hall é conhecido pelo seu programa de desenvolvimento de currículo e de material didático para as aulas de ciências, exportado, hoje, para 25 países. Um dos projetos principais desenvolvidos lá junta ciência e literatura, por meio de livros sobre a lua, por exemplo. Afinal, por que não ler sobre ciência?

No Brasil, há museus de ciência igualmente ricos e interessantes, como o Catavento, que fica no centro de São Paulo. O problema é que a maioria dessas iniciativas está concentrada justamente em São Paulo, onde, estima-se, 18% da população frequenta museus (indicador semelhante ao encontrado em países europeus). Se considerarmos o país todo, apenas 4% da população declara visitar museus com frequência, de acordo com um estudo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Considerando que os museus de ciência contribuem para estimular as pessoas para as áreas científicas, será que não está na hora de aumentarmos esse indicador?

 

Esse post foi escrito da São Francisco, onde estou conduzindo uma pesquisa com Amr Almadani e outros colegas sobre inovação, empreendedorismo e educação com apoio da Einsenhower Fellowships.

Mentor na universidade triplica chance de aluno ser bem sucedido

Por sabine
04/12/14 14:34

Uma pesquisa com egressos de universidades dos EUA, divulgada recentemente pelo Instituto Gallup, mostrou algo bem interessante: os alunos que tiveram um mentor durante a graduação têm duas vezes mais chances de serem bem sucedidos após formados. Aqui, entende-se como “mentor” um professor com o qual o aluno trabalhou de maneira bem próxima durante a graduação, que auxiliou nos estudos, na definição de quais disciplinas cursar e que deu alguma orientação em termos de carreira.

Parece simples, mas o resultado da pesquisa do Gallup fez com que reitores e gestores de muitas universidades dos EUA torcessem o nariz. Isso porque ser “mentor” não faz parte da atividade docente na maioria das escolas –especialmente nas universidades “top”. Hoje, apenas um em cada cinco egressos de universidade dos EUA diz ter tido um mentor durante a graduação. O número é ainda menor nas melhores universidades do país.

O resultado da pesquisa mostra que um professor que atua como mentor pode ser muito mais eficiente, para o aluno, do que um docente com prêmio Nobel ou aquele tem muitos artigos em revistas científicas como “Nature” e “Science”.

O problema é que, até agora, todas as formas de avaliação de universidades –seja do governo, das próprias universidades ou mesmo dos rankings universitários– definem que o bom professor é aquele que tem prêmios, muitos artigos científicos e que ganha bem. Nenhuma avaliação de ensino superior considera o impacto da relação dos docentes com os alunos.

E agora?

De acordo com Brandon Busteed, diretor das pesquisas de educação do Gallup, com quem conversei durante uma pesquisa que estou fazendo nos Estados Unidos, alguns gestores das grandes universidades norte-americanas reagiram à pesquisa dizendo que não dá para ter um mentor para cada aluno. “Mas quanto custa um prêmio Nobel?”, pergunta. Para se ter uma ideia, Harvard tem 44 pesquisadores com prêmio Nobel no seu corpo docente (O Brasil inteiro não tem nenhum!)

MULHERES E NEGROS

A pesquisa do Gallup também reforça a necessidade de diversidade no corpo docente. Explico: de acordo com os resultados, o aluno tende a procurar um mentor com o qual ele se identifique. Mulheres tendem a buscar docentes mulheres, negros tendem a buscar docentes negros e por aí vai. Se a universidade tiver maioria docente branca e masculina, a tendência é que alunos homens e brancos tenham mais possibilidade de ter um mentor –e, consequentemente, de ter uma carreira bem sucedida após se formarem– do que as minorias (mulheres e negros).

Esse resultado é importantíssimo. Se as universidades quiserem ser mais atrativas para minorias, devem se certificar de que as minorias também estejam no seu corpo docente. Simples assim.

De acordo com Busteed, os egressos entrevistados pelo estudo não hesitaram ao serem questionados sobre a mentoria durante a graduação. “Se o egresso teve um mentor durante a graduação, a pessoa é identificada na hora”, diz. Fato: quando Busteed me perguntou sobre a minha experiência eu também não titubeei: no meu caso, posso chamar de “mentor” um professor de história que tive durante a graduação em jornalismo, Célio José Losnak. Ele me orientou por dois anos em uma bolsa de iniciação científica.

Pois veja que coincidência: outro estudo, da FGV-SP, já havia relacionado a atividade de iniciação científica durante a graduação a egressos bem sucedidos na área de administração. Ou seja: a importância da mentoria e de um trabalho próximo de professores e alunos durante a universidade só se reforça.

SEM INFORMAÇÃO

Isso tudo é uma novidade porque as universidades dos EUA têm pouca informação sobre os egressos. Poucas acompanham os formados para saber se estão empregados na área em que estudaram, se ganham bem e se ocupam cargos de liderança. O mesmo acontece no Brasil: as três edições do RUF – Ranking Universitário Folha tentaram levantar, sem sucesso, dados sobre egressos do ensino superior brasileiro.

Mas se não sabemos como está o egresso, como é possível saber se o serviço prestado (ensino superior) foi eficiente? “A indústria acompanha o consumidor quando vende um produto. Da mesma forma, as universidades poderiam acompanhar os egressos”, diz Busteed. Concordo.

 

Esse post foi escrito de Washington D.C., EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Einsenhower Fellowships.

Para estudante brasileiro, livro é como Bíblia

Por sabine
01/12/14 06:00

Existe um fenômeno na escola brasileira muito relacionado à religião: a maneira como os estudantes se relacionam com os professores e com os livros. É uma ligação hierárquica e pouco questionadora muito parecida com a que encontramos nas igrejas e em outros espaços religiosos.

Funciona mais ou menos assim: as pessoas aprendem que não devem questionar a Bíblia e nem os padres ou pastores, afinal, o que eles trazem é verdade absoluta. Como consequência, acabam levando esse mesmo comportamento para a escola. Tudo o que se aprende é verdade, estático e imutável.

Escolas e universidades desestimulam aluno empreendedor

O problema é que o conhecimento não é estático e imutável. Quem trabalha com ciência sabe que os livros didáticos mudam lentamente conforme os cientistas avançam nos laboratórios de todo o mundo. Um exemplo? Antes, a gente aprendia na escola que a menor parte da matéria eram as partículas atômicas prótons, nêutrons e elétrons. Hoje já se fala em bóson de higgs, uma partícula elementar que forma todas as outras –incluindo os mesmos prótons, nêutrons e elétrons. O que aprendemos muda o tempo todo.

Então por que lidamos com os livros como lidamos com a Bíblia?

Esse fenômeno, vale dizer, não é só brasileiro. Para especialistas em educação com os quais conversei nas últimas semanas, durante uma pesquisa que estou fazendo nos Estados Unidos, o comportamento religioso na escola é observado especialmente na América Latina e no Oriente Médio, onde estão os países mais religiosos do mundo como a Jordânia (de maioria islâmica).

LATINOS E ÁRABES

Muitos professores que trabalham com empreendedorismo em universidades “top” dos EUA–como Harvard, MIT, Universidade de Michigan e Carnegie Mellon– sabem que os estudantes da América Latina e do Oriente Médio tendem a ser menos questionadores que os demais alunos estrangeiros (que são 25% do total matriculado) e não gostam de arriscar em novos negócios. Isso, claro, está ligado a vários fatores sociais e econômicos e, também, à educação desde os primeiros anos da escolas. “Se eu não tomar cuidado para diversificar, acabo trabalhando só com alunos asiáticos e indianos”, diz Paulo Bottino, que coordena um curso de inovação e empreendedorismo de Harvard, a melhor universidade do mundo.

Com esse comportamento religioso em sala de aula, passivo e pouco criativo, o aluno acaba se envolvendo pouco e procura poucas respostas fora da sala de aula porque é treinado para não ter muitas perguntas. O problema é que não dá para ser um país desenvolvido, inovador e competitivo internacionalmente se os estudantes brasileiros –os 50 milhões da educação básica e os sete milhões do ensino superior– continuarem agindo passivamente e de maneira pouco questionadora.

Não se trata, veja bem, de relacionar a religião com piores índices de educação –ainda que muitos especialistas façam isso. O debate não é sobre fé e empreendedorismo, por exemplo. A abordagem aqui diz respeito à influência do comportamento religioso na sala de aula. Alguém aí tem alguma ideia de como ensinar de maneira questionadora desde os primeiros anos da escola?

 

Esse post foi escrito da Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Einsenhower Fellowships.

App mais baixado do que Tinder ensina a lidar com finanças pessoais

Por sabine
18/11/14 13:29

No ano passado, escrevi uma reportagem sobre algumas escolas particulares que oferecem disciplinas e esportes extra-curriculares bem inusitados para segurar os alunos pós-aulas regulares. Com pai e mãe trabalhando fora, e com empregado doméstico cada vez mais raro, quanto mais a escola oferecer, melhor para a família.

Entre iatismo, esgrima e interpretação de notícias, encontrei apenas uma escola bilíngue que oferecia um curso de “finanças pessoais”. A ideia era dar aos alunos uma noção de gastos pessoais e de como funciona o nosso sistema financeiro no Brasil. Ou seja: o ensino de finanças pessoais ainda é uma raridade nas escolas brasileiras.

Estou contando tudo isso porque conheci aqui nos Estados Unidos um dos criadores de um aplicativo que “ensina” os usuários a lidar com finanças, o GuiaBolso.com.br. E, adivinhem: o app está fazendo o maior sucesso e tem mais downloads do que o Tinder, famoso aplicativo de paquera on-line. Hoje, são 220.000 usuários.

Por que tanta procura? Simples: porque nós, brasileiros, não sabemos lidar com nosso dinheiro.

“Aprendemos química de alta complexidade no ensino médio, mas não aprendemos a lidar com um assunto com o qual lidaremos a vida inteira: as finanças pessoais”, diz Thiago Alvarez, um dos criadores da start-up responsável pela ideia –que nesta semana ganhou um prêmio de melhor start-up consolidada do Brasil– e meu companheiro de pesquisa aqui nos Estados Unidos.

QUÍMICA COMPLEXA

“Apesar de serem essenciais para todas pessoas viverem no mundo real, os princípios de finanças (juros, inflação e diversificação de investimentos) são ignorados por boa parte dos sistemas escolares não só no Brasil, mas em todo mundo.”

Não se trata de criar uma nova disciplina para as finanças –e nem é o caso de um curso extra. O ensino médio brasileiro já tem 12 cursos diferentes. Mas por que não incluir finanças pessoais nas aulas de matemática, por exemplo? Além de atrair o aluno para o uso de números no mundo real, essa prática pode render bons exercícios de cálculo de juros, por exemplo.

Isso já está sendo feito aqui nos Estados Unidos em alguns estados (aqui, o currículo é definido regionalmente). Mas no mundo todo as iniciativas são raras. O problema é que, no caso brasileiro, em que o cartão de crédito chega a ter juros de 241% ao ano, o consumidor desaviado e sem informação pode pagar muito caro (literalmente).

Alvarez tem alguns levantamentos sobre o cenário brasileiro. Sabe, por exemplo, que um em cada quatro usuários do app termina o mês no cheque especial, ou seja, gasta mais do que tem na conta e pega emprestado um dinheiro extra do banco mensalmente –a um juros de cerca de 9% ao mês.

E quem aí sabe calcular quanto significa, no bolso, 9% de juros ao mês?

Pois é. Quanto mais informação financeira tivermos, melhores serão as nossas decisões. Por que, então, não discutir finanças na escola?

 

Esse post foi escrito de Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Einsenhower Fellowships.

"O problema é que se eu estudar matemática não terei namorada"

Por sabine
16/11/14 01:28

Imagine que seu país seja o último colocado em uma avaliação internacional importante de matemática. Agora pense que você precisa resolver esse problema. O que você faria?

Estamos falando do Peru, último na lista de 65 países avaliados em matemática pelo último exame internacional Pisa, de 2012. O país tem 368 pontos no quesito –bem abaixo da média (que é 494). Para se ter uma ideia, a China, que lidera a lista, tem 613 pontos. O Brasil está um pouco na frente do Peru, em 57 lugar, com 391 pontos.

O Peru piorou na avaliação: no Pisa de 2009, ainda ganhava do Azerbaidjão e do Quirguistão (a avaliação é feita a cada três anos). Em 2012, foi para o final da lista.

O que fazer?

O governo do Peru tem discutido essa questão com alguns especialistas em educação e com consultores há alguns anos. Entre eles está Alvaro Delgado, que é consultor de inovação do Grupo Apoyo e, atualmente, faz parte do meu grupo de pesquisa de inovação aqui nos Estados Unidos.

A primeira reação diante do trágico desempenho com os números foi: vamos mudar os currículos! Mas, pergunta: é o currículo que precisa ser alterado?

Delgado –que é extremamente criativo, artista e também trabalha como produtor– fez parte de um grupo que sugeriu uma investigação in loco com os aluninhos peruanos. Afinal, qual é o problema com a matemática? É difícil de entender? É chato? É mal explicado?

SEM NAMORADA

Para surpresa geral, a resposta mais comum dos estudantes foi algo do tipo: “se eu estudar matemática, não vou arrumar uma namorada.” Ou seja: a percepção de matemática dos estudantes peruanos –e, arrisco dizer, dos alunos latinos em geral,– é extremamente negativa. No lugar de ser associada com solução de problemas, criatividade, construção, engenharia e afins, a matemática é tida como um obstáculo à vida social promissora.

Trata-se de uma percepção muito diferente da encontrada em países asiáticos que, surpresa, lideram o ranking de matemática do Pisa. Na China, por exemplo, números são associados às engenharias e às atividades bancárias, que são bem remuneradas. Significam uma chance real de ascensão social em um país extremamente competitivo. As possibilidades de se arrumar uma namorada ou um namorado indo bem em matemática aumentam!

Mas como, então, mudar a percepção de matemática do Peru? Para Delgado, isso só será possível por meio de arte e de criatividade. É preciso mostrar aos estudantes peruanos a parte divertida e construtiva da matemática. É possível ser “cool” lidando bem com os números.

O Grupo Apoyo, liderado por Delgado, está diretamente envolvido com o programa peruano “Matemática para todos”, que tem o objetivo de ensinar matemática por meio de jogos, de comunicação, de vídeos, de maneira divertida. Vai dar certo? Ainda não dá para saber, pois uma intervenção assim, em educação, leva alguns anos para mostrar resultado.

Mas a iniciativa é muito importante. Um país só consegue se desenvolver se tiver alunos envolvidos com os números. É preciso muita matemática e muita ciência para desenvolver novas tecnologias, para construir infra-estrutura parruda, para desenvolver uma indústria competitiva internacionalmente, para criar soluções de peso em problemas em todas as áreas –ambiente, saúde, transporte, energia.

No Brasil, há iniciativas bacanas, como as Olimpíadas Brasileiras de Matemática, promovidas pelo Impa (os premiados, aliás, serão anunciados em dezembro –leia aqui). Mas o que o governo está fazendo nacionalmente para atrair os seus estudantes para matemática na sala de aula, para subir umas casas no Pisa e para conseguir ter uma base intelectual sólida para o desenvolvimento? Qual é o problema com a matemática no Brasil?

Eu, infelizmente, não tenho respostas.

 

Esse post foi escrito de Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Einsenhower Fellowships.

 

Educação só funciona se aluno estiver emocionalmente envolvido

Por sabine
31/10/14 00:28

Pergunta: você consegue citar, num piscar de olhos, um professor ou uma experiência que tenha marcado profundamente a sua experiência na escola? Se não consegue, não se preocupe: você faz parte de um enorme grupo de pessoas que passou por uma escola em que professor, aluno e conteúdo não conseguem se conectar.

O problema é que a educação nesse modelo simplesmente não funciona: vira um processo burocrático, árduo e complicado. Quem trata disso é a educadora finlandesa e consultora em educação Anu Passi-Rauste, especialista que conheci durante a pesquisa que estou fazendo nos EUA. De acordo com ela, a educação de qualidade é aquela que toca os alunos profundamente. Ou seja: o aluno estuda porque está motivado, emocionalmente engajado, vê lógica e utilidade naquilo que está aprendendo.

Lá na Finlândia, país com indicadores de educação invejáveis, os professores conseguem criar esse ambiente em sala de aula porque têm autonomia. Eles podem, por exemplo, decidir se vão ensinar matemática usando a lousa ou peças de lego, dependendo do perfil da turma que estão ensinando. Isso é possível porque as escolas têm recursos e os professores são altamente qualificados. Para dar aula em uma escola finlandesa é preciso ter graduação, mestrado e estágio docente. O professor ganha bem e é valorizado na sociedade. Todo mundo quer ser professor!

Em cenários adversos, como no Brasil, esse processo criativo e acolhedor em sala de aula também é possível. Já tratei disso quando contei a história da Jonilda Ferreira, professora de matemática de uma escola pública do sertão de Pernambuco que faz vaquinha e leva os alunos na pizzaria para ensinar fração. “Se não for assim, desenho fração na lousa e ninguém entende nada”, diz. Resultado? A cidade é campeã nacional em medalhas nas olimpíadas de matemática promovidas pelo Impa.  (leia mais aqui).

LIGAÇÃO AFETIVA

Quando conversei com os alunos da professora do Nordeste, eles demonstraram uma enorme ligação sentimental com a professora. E vice-versa. Jonilda atua como uma mentora dos seus aluninhos –o que, de acordo com a especialista finlandesa, é fundamental no processo de aprendizado. “Muita gente cita o nome de um professor específico quando pergunto sobre experiências marcantes na vida escolar”, conta.

Jonilda, claro, é exceção no Brasil. Ganha R$ 1,5 mil ao mês e conta que mal consegue pagar suas contas. Faz todo esse sacrifício por amor à educação.

A pergunta que fica: como construir um cenário educacional em grande escala de modo que todos os docentes tenham o perfil da Jonilda –com formação, estrutura e salários finlandeses?  A própria Passi-Rauste está tentando encontrar uma resposta.

A educação “personalizada” funciona na Finlândia porque lá há muito dinheiro e pouca gente (a população da Finlândia equivale à metade da cidade de São Paulo). Mas como criar escolas acolhedoras, com docentes autônomos e engajados, junto com alunos e com gestores, em um contexto em que é preciso educar mais de 50 milhões de estudantes, como é o caso do Brasil? Deixa a questão para debate.

 

Esse post foi escrito de Detroit, nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com financiamento da Eisenhower Fellowships.

Na internet, PTistas e PSDBistas revelam incapacidade de debate

Por sabine
23/10/14 12:00

Tenho acompanhado com curiosidade as discussões acirradas entre PTistas e PSDBistas na internet, especialmente nas redes sociais. Boa parte dos comentários que leio abusa de adjetivos, desqualifica o adversário, mas pouco fala sobre proposições do candidato de sua preferência. Estamos passando longe de um debate de alto nível entre pessoas que pensam politicamente de maneira diferente.

Por que isso acontece? Simples: porque não somos treinados para debates.

Explico. Na formação escolar predominante no Brasil, de formato expositivo, o professor fala, o aluno ouve, decora e faz a prova. Ninguém é convidado a refletir sobre um assunto e a expor publicamente sua opinião. Mais: ninguém, na escola, é estimulado a expor os motivos pelos quais pensa diferente do colega.

Quem não sabe debater xinga

Não há, na nossa escola, um ambiente que construa um debate saudável, com base em ideias e em argumentos. Sem saber como fazer isso, encontramos uma única saída: desqualificar o adversário. Essa “técnica”, aliás, tem sido uma prática recorrente dos próprios candidatos nos debates que acompanhei recentemente.

O debate tampouco é promovido no ensino universitário do Brasil. Eu nunca acompanhei nenhum. Aqui nos EUA, onde estou nesse momento, os debates fazem parte da rotina dos estudantes desde os primeiros anos –eles debatem entre si e acompanham debates sobre um mesmo tema entre docentes. Em alguns casos, a plateia de estudantes vota no professor vencedor do debate–ou seja, naquele que melhor construiu sua argumentação com base em dados, em fatos e em informações expostas de maneira clara. Depois, os dois professores saem juntos com os alunos e vão tomar um café ou uma cerveja, sem mágoas ou ressentimentos.

No Brasil, a coisa é bem diferente. Quem aí nunca se deparou com a seguinte sequência nas redes sociais: a pessoa xinga o candidato adversário e critica as suas propostas, mas não comenta as propostas do seu próprio candidato? Basta navegar um pouco na internet para encontrar esse fenômeno. Será que isso acontece porque as pessoas desconhecem as propostas dos candidatos?

Mas se desconhecem, como, então, foi feita a a escolha do voto?

Pois é. Os programas de governo de todos os candidatos estão disponíveis na internet. Alguém aí leu essas propostas antes de expor sua opinião publicamente na internet? Alguém sabe detalhar as conquistas do seu candidato em administrações anteriores? Volto à pergunta: como, então, foi feita a a escolha do voto?

NAZISTAS?

O que mais me intriga é o uso de algumas palavras específicas nesses “debates” na internet. A palavra “nazista”, por exemplo. Já vi muita gente chamar Dilma Rousseff (PT) ou Aécio Neves (PSDB) de “nazista”. O próprio ex-presidente Lula usou esse termo nesta semana e causou repúdio da Federação Israelita de São Paulo. Eu mesma, que nem sou candidata, já fui chamada de “nazista” por alguns leitores neste blog.  Alguém aí sabe qual é o conceito por trás de “nazista”?

De acordo com Houaiss, “nazismo” é um movimento político e social alemão, fundado e liderado por Adolph Hitler (1889-1945), de cunho revolucionário e totalitário, fascista e antissemita. Qual é exatamente a ligação do PT ou do PSDB com o nazismo? Pois é: nenhuma.

Já vi também muita gente chamando Dilma de “lésbica” ou Aécio de “playboy”. Já vi gente criticando a aparência dos dois candidatos; Dilma muito carrancuda, Aécio muito irônico. Alguém me explica o que isso tem a ver com as propostas de governo e com sua capacidade de executá-las?

Em uma passagem rápida por uma rede social agora, enquanto escrevia esse post, encontrei palavras como “imbecil”, “idiota”, “ladrão”, entre outras que prefiro não escrever aqui. O que isso acrescenta ao debate?

ANALFABETISMO POLÍTICO

Há, ainda, outra característica comum nos debates em redes sociais: uma confusão generalizada dos papeis da prefeitura, do governo estadual e do governo federal. Se eu for PSDBista, por exemplo, vou dizer que tudo de ruim que acontece no meu estado é culpa do PT –mesmo que ele seja administrado pelo PSDB. Oi?

Sem saber o que cabe a cada gestor ou a cada partido, fica muito difícil cobrar resultados. E sem cobrar resultados, os políticos podem fazer o que eles quiserem. Precisamos todos colaborar para elevar o nível das discussões.  Quanto mais entendermos de política, melhor será o debate e a escolha dos nossos representantes.

 

Esse post foi escrito de São Francisco, nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio de Eisenhower Fellowships.

Quantas universidades você visitou antes de escolher a sua?

Por sabine
23/10/14 00:51

Já me fizeram essa pergunta algumas vezes: quantas universidades você visitou antes de escolher a instituição na qual estudou? No meu caso, assim como acontece com a maioria dos brasileiros, a resposta não tem rodeios: nenhuma.

Fui estudar em uma universidade pública do interior de São Paulo sem saber o que o curso oferecia, como era o campus, quais eram as perspectivas de trabalho após formada e como a universidade estava colocada em relação às demais do país. Foi uma decisão completamente às escuras, com altíssima chance de dar errado. Por sorte, deu certo.

Aqui nos Estados Unidos, onde estou nesse momento, um estudante de uma universidade de grande porte visita, em média, estima-se, de dez a 20 universidades antes de escolher onde estudar. Avalia tudo: o campus, a moradia estudantil, formas de financiamento (aqui todas as instituições são pagas) e até o perfil do egresso.

Isso é importante porque cursos iguais podem ter focos completamente diferentes dependendo da instituição.

Quer um exemplo? Os cursos de engenharia de Yale (Connecticut), Carnegie Mellon (Pitttsburgh) e Santa Clara (Califórnia), por exemplo, são completamente diferentes. O primeiro tem um foco mais executivo –saem de Yale grandes líderes de empresas  (e, de vez em quando, algum presidente dos EUA, como George W. Bush). Carnegie Mellon tende a formar aqueles que vão encabeçar pesquisa e desenvolvimento no setor privado. Já Santa Clara, sob o slogan “engenharia com uma missão”, tem um foco mais social e passagem obrigatória pelo Frugal Lab, que desenvolve projetos inovadores de baixo custo em países em desenvolvimento.

São perfis de cursos completamente diferentes. Quem visita essas universidades acaba descobrindo isso.

Durante a pesquisa que estou fazendo aqui nos EUA, encontrei alguns estudantes de ensino médio de passagem pelas universidades por onde andei para avaliar onde deveriam estudar. A maioria estava com os pais. Alguns tinham reuniões marcadas com professores e até com diretores de departamento das universidades. Faz parte da rotina desses profissionais conversar com os alunos em fase de tomada de decisão.

CALIFÓRNIA

Mas, claro, nem tudo é assim tão racional. Entre os critérios de escolha desses estudantes entram na conta fatores que não lá muito a ver com qualidade da escola –mas que podem impactar a produção acadêmica dos alunos. Muita gente pode escolher Santa Clara no lugar de Carnegie Mellon simplesmente porque a Califórnia é uma região mais agradável que a gélida e (na maioria das vezes) nublada Pittsburgh. Besteira? Não. O clima tem um impacto importante na produção acadêmica dos estudantes. Tem gente que simplesmente não consegue se adaptar em locais de muito frio e longas temporadas de neve.

E há outros critérios. Alguns estudantes preferem as escolas menores, com um ou dois cursos, por exemplo. Nessas instituições, a relação aluno-professor costuma ser mais próxima e os estudantes acabam formando uma espécie de “família”. Outros querem os campus universitários do tamanho de cidades, com prédios enormes afastados por áreas arborizadas.

Curiosamente, a pesquisa pregressa feita pelos estudantes de ensino médio dos EUA não resulta em menores taxas de evasão. Estima-se que 40% dos estudantes não terminem seus respectivos cursos nas universidades norte-americanas. O principal problema é financeiro –aqui nos EUA todas as instituições são pagas e, recentemente, as taxas estão subindo mais rápido do que a inflação do país.

Já no Brasil, conhecer os cursos e as instituições de ensino pode ser importante para reduzir as taxas de evasão locais, que giram em torno de 25% de evasão no ensino superior público –e chegam a 40% em cursos noturnos ou licenciaturas. Nas universidades brasileiras há pouca ou nenhuma mobilidade entre cursos da mesma instituição ou entre instituições. Um aluno que entra em engenharia na USP dificilmente consegue mudar para economia, por exemplo. Quem desiste da universidade no Brasil alega, em geral, que errou na escolha do curso ou da instituição.

Pois bem. Estamos entrando em época dos processos seletivos para as universidades do Brasil, como vestibular e Enem. Se você estiver pensando em fazer alguma universidade, já fez sua pesquisa para decidir onde estudar? Conte para o blog!

 

Esse post foi escrito de São Francisco, nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio da Fundação Eisenhower.

 

Argentina e Costa Rica recebem mais alunos dos EUA do que o Brasil

Por sabine
17/10/14 06:00

O Brasil está no fim da lista de países para os quais os estudantes das universidades dos EUA –consideradas as melhores do mundo– viajam durante a graduação ou a pós. Só 1,4% dos alunos norte-americanos escolhem as instituições brasileiras para passar um período de estudos.

O destino preferido dos estudantes norte-americanos é o Reino Unido, com 12,2% do total de viajantes. Outros três países europeus –Itália, Espanha e França– aparecem na sequência. Um em cada quatro alunos dos EUA escolhe um desses países como destino de estudos.

As instituições brasileiras ocupam o 14º lugar da lista de destinos. O Brasil perde para países como Costa Rica (8º lugar), Argentina (11º) e Índia (12º). Os dados, de 2012, são do “Open doors report”, produzido recentemente pelo governo americano.

Para se ter uma ideia, cerca de 4 mil estudantes norte-americanos vieram para o Brasil em 2012.  Do outro lado da rota, o tráfego é mais intenso: 10,8 mil estudantes brasileiros foram estudar em instituições de ensino superior americanas no mesmo período. O Brasil é o 7º país que mais envia alunos aos EUA; o primeiro, disparado, é a China, com 235,6 mil alunos enviados para os EUA em 2o12.

Por que isso é tudo importante?

Bom, o intercâmbio é fundamental para desenvolver a ciência e a produção do conhecimento. Os dados do relatório americano sinalizam que estamos indo bem quando se trata de enviar alunos para fora, mas estamos recebendo pouca gente de escolas de ponta.

O problema, claramente, não é a língua portuguesa. Se fosse uma questão meramente de idioma, Itália e França, que ensinam em seus respectivos idiomas italiano e francês, não receberiam tantos estudantes norte-americanos –e a Austrália (7º lugar na demanda) estaria mais para cima da lista.

POUCO ATRAENTES

Ao que tudo indica, as instituições brasileiras simplesmente não têm interessado os estudantes dos EUA. Isso é um bem ruim.

O estudante estrangeiro é muito bem vindo e deve ser cativado. Ele traz novos problemas, novas soluções, traz possibilidades de parcerias e de trabalhos futuros. E, na maioria dos casos, pode trazer dinheiro para a universidade e para a região.

As universidades norte-americanas sabem muito bem disso –as instituições “top” dos EUA têm, em média, 20% dos alunos estrangeiros. A Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, cidade onde estou nesse momento, tem cerca de metade dos alunos vindo de fora. Para se ter uma ideia, os EUA recebeu 819,6 mil estudantes estrangeiros em 2012. É muita gente. Todos pagam taxas nas universidades, aluguel, alimentação e outros serviços.

Vamos comparar: na USP, a melhor do país, a quantidade de alunos estrangeiros não chega a 4%. A maioria vem do Peru e da Colômbia. Ou seja: estamos atraindo, na maioria das vezes, apenas a vizinhança.

CIÊNCIAS HUMANAS

Quase metade dos alunos que faz intercâmbio vindo dos EUA vem de ciências sociais, administração e humanas –o que ajuda a explicar a preferência por destinos como a França. Agora, o governo americano quer incentivar outras áreas do conhecimento a terem experiências fora do país e também quer aumentar a quantidade total de viajantes. Para se ter uma ideia, um total de 283,3 mil estudantes de universidades norte-americanas fizeram estudos em outros países em 2012 –isso é cerca de um terço do total de alunos estrangeiros que desembargaram nos EUA.

Uma das ideias, de acordo com Mary Besterfield-Sacre, da Universidade de Pittsburgh, que é estadual, é incentivar os alunos especificamente de engenharia a terem experiências no exterior. Hoje, apenas 3,9% de quem estuda fora dos EUA está matriculado em alguma engenharia.

“O intercâmbio é importante para que os alunos entendam que projetos de engenharia muito bem sucedidos aqui nos EUA podem não funcionar em outros locais do mundo. É preciso conhecer diferentes realidades.”

Pronto: temos aqui uma oportunidade para o Brasil.

As instituições brasileiras têm, sim, potencial para atrair estudantes estrangeiros inclusive nas engenharias: de acordo com Besterfield-Sacre, o setor energético do Brasil, por exemplo, é extremamente interessante para estudos. Ela própria já veio ao Brasil com um grupo de alunos para visitar o sistema de geração de energia hidroelétricas. Só que ela ainda é uma exceção por aqui. Que tal trabalharmos para esse tipo de visita se torna cotidiana?

 

Esse post foi escrito de Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio de Eisenhower Fellowships.

Presidenciáveis falam sobre redução de disciplinas na escola; entenda

Por sabine
15/10/14 01:16

Quem assistiu ao debate dos candidatos à presidência, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), nesta terça-feira (14), viu que a necessidade de redução de disciplinas no ensino médio foi mencionada, mas não foi explicada. Alguém sabe por que ter menos disciplinas é um dos assuntos da pauta de educação do país?

Hoje, o ensino médio brasileiro tem 12 disciplinas, como as tradicionais matemática, português, biologia e também cursos como sociologia e filosofia, que passaram a ser obrigatórios por lei a partir de 2008.

O que os especialistas em educação dizem é que ter tantas disciplinas assim faz com que os estudantes não consigam se conectar com nenhuma das disciplinas. E com nenhum professor. Ou seja: o professor entra, fala, sai e o aluno fica perdido no meio do conteúdo.

O resultado? É no ensino médio que estão os piores indicadores de educação do país.

As alternativas ao excesso de disciplinas são interessantes. Uma das propostas que o MEC estuda –mas que não foi mencionada no debate dos presidenciáveis– é a unificação de alguns cursos em grupos. Assim, história, geografia, filosofia e sociologia, por exemplo, ficariam juntas em “ciências humanas”. Outros grupos seriam “ciências da natureza”, “matemática e suas tecnologias” e “linguagens”.

É com essa divisão, aliás, que são dispostas as questões no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Há quem diga ainda que o ensino médio poderia ser ainda mais multidisciplinar. Desse modo, biologia e matemática, por exemplo, poderiam ser ensinadas juntas, misturando cálculo e botânica, por exemplo. O problema é que o professor de biologia é formado em uma licenciatura e, quem dá aula em matemática, faz outra licenciatura. Quem vai dar aula de um curso com formato multidisciplinar?

A formação de professores, aliás, vale dizer, nem passou pelo debate dos presidenciáveis. Também não ouvi nada sobre currículo comum nas diferentes etapas de ensino –hoje, o que se ensina na escola é baseado principalmente no conteúdo cobrado em exames como o Enem. Mais: os candidatos à presidência falaram sobre a importância do ensino em período integral, mas não explicaram como farão para ampliar a quantidade de horas de estudos dos estudantes.

‘GAP’ DO ENSINO MÉDIO

Discutir o ensino médio é especialmente importante no Brasil. Apenas 50% dos brasileirinhos que entram na escola simplesmente não terminam o ensino médio. Isso significa que um em dois estudantes do Brasil fica pelo caminho. Isso é grave demais.

O que se diz no Brasil e em outros países, como nos Estados Unidos, onde estou nesse momento, é que o estudante desiste da escola quando não consegue mais acompanhar as aulas. Vai mal em algumas das muitas disciplinas, não recebe assistência, acaba se perdendo e desiste.

O aluno também desiste porque não vê perspectiva depois da escola, não enxerga possibilidades, oportunidades. Ou simplesmente acha a escola chata, fora da sua realidade, irreal, abstrata –e muitas vezes a escola é tudo isso, mesmo.

Em algum momento do debate dos candidatos à presidência, foi mencionado que o ensino médio é responsabilidade dos estados e não do governo federal. É verdade. Mas os indicadores de educação no Brasil estão péssimos e só pioram. É preciso reagir. Cabe ao governo federal definir políticas públicas para melhorar a educação como um todo e cabe à sociedade cobrar os governos e contribuir para que a educação no Brasil suba de nível.

Vamos nessa?

 

Esse post foi escrito de Pittsburgh, Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio da Fundação Eisenhower.

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