Abecedário

Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Escolas e universidades no Brasil desestimulam aluno empreendedor

Por sabine
29/09/14 08:00

Responda rápido: o que é, na sua opinião, um estudante universitário bem sucedido?

Se você respondeu que é o aluno que consegue um estágio ou um trabalho em uma grande empresa –de preferência uma “multinacional”– você acaba de dar uma resposta muito comum entre brasileiros.

Aqui nos Estados Unidos, onde estou nesse momento, a resposta seria bem diferente. Nos EUA, um universitário bem sucedido é aquele que cria o seu próprio negócio. Ele identifica uma oportunidade, tem uma ideia e desenvolve uma solução. É um tipo Mark Zuckerberg, 30, que criou o Facebook quando ainda estudava em Harvard. Há vários exemplos como ele pelo país.

No Brasil, assim como em muitos países latino-americanos, ou países em desenvolvimento, as escolas e as universidades não preparam seus estudantes para criar, para arriscar, para ousar. O gol é trabalhar em uma empresa na sua área de estudos, ganhar bem e conseguir manter seu emprego.

De onde vem isso? Tenho algumas hipóteses.

A primeira hipótese é que países de economia historicamente instável, como o Brasil, tendem a educar seus jovens para que eles arrisquem menos. É assim: arrume logo seu emprego e não invente moda. Se você trabalhar para o governo, então, melhor ainda. Atire a primeira pedra quem é da minha geração (30-40 anos) e nunca ouviu dos pais que deveria trabalhar no governo.

Pois é.

Aqui, entramos na minha segunda hipótese: a própria família desestimula os brasileiros a se arriscarem a criar novos negócios e novas soluções. É melhor arrumar um emprego, não sabemos o dia de amanhã. Uma postura protecionista, muito parecida, aliás, com a de famílias de países árabes, por exemplo.

ERRAR É FEIO

Mais: no Brasil é “feio” errar. Se você errou, você não deveria nem ter tentando. Não te avisaram que poderia dar errado? Por que foi teimoso e insistiu em tentar? Essa é, na maioria das vezes, a lógica brasileira. Já nos EUA, errar tem uma ligação com “ousadia”. Só erra quem tentou fazer diferente. Isso é extremamente bem visto na cultura local.

Eu estou justamente nos EUA, que é um dos países mais inovadores do mundo, fazendo uma pesquisa para entender o processo de inovação e de empreendedorismo por aqui. Como exatamente a escola e a universidade aqui conseguem estimular o empreendedor?

No Brasil, algumas iniciativas foram criadas recentemente na tentativa de despertar o empreendedorismo. Mas tenho dúvidas sobre a eficiência delas.

Alguns cursos tradicionais de engenharia, como a Poli-USP, criaram uma disciplina opcional sobre “inovação” há alguns anos. Neste ano, a Poli-USP criou ainda um curso opcional chamado “empreendedorismo”. Mas falar sobre inovação e empreendedorismo em um contexto em que o aluno tem uma grade fixa e pouco flexível de disciplinas, com cerca de 40 horas-aula por semana, é, de fato, estimulante? Parece-me que não.

Da mesma forma, de nada adianta colocar bilhões de reais em agências federais de fomento de inovação sendo que quem poderia recorrer a esses recursos foi educado em uma cultura de pouco risco e muita insegurança.

Se a gente começar a mudar a educação agora –e mudar também o jeito como encaramos o risco e o erro–, talvez na próxima geração teremos mais empreendedores. Mas é preciso mudar agora.

 

Esse post foi escrito da Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Fundação Einsenhower.

Escolas de São Paulo simulam eleição e promovem debates com candidatos

Por sabine
25/09/14 11:00

Um levantamento feito pelo Abecedário mostra que as eleições chegaram de diversas formas à rotina de algumas escolas de São Paulo. As iniciativas, dizem as escolas, foram motivadas pelo interesse dos próprios alunos, que começaram a prestar mais atenção em política especialmente após as manifestações de junho de 2013 (leia aqui).

No Santa Maria (zona sul), os alunos do ensino médio estão promovendo debates com candidatos de verdade na própria escola. Na agenda, há candidatos a deputado federal de vários partidos, como Ailton Amaral (PSOL), Arnaldo Faria de Sá (PTB), Floriano Pesaro (PSDB), Goulart (PSD) e Nilto Tatto (PT). A escola também vai realizar, amanhã, 26 de setembro, uma simulação do voto. Os estudantes receberão título de eleitor para participar.

Na mesma escola, os alunos do 5º ano do ensino fundamental tiveram de criar grupos partidários para discutir propostas para a escola. A ideia é parecida com a proposta do colégio Pio XII, que fica no Morumbi (zona oeste). Lá, os alunos votam para escolher o representante de classe –e fazem, eles próprios, a apuração dos votos.

A proposta, diz a escola, é preparar os alunos para o processo eleitoral que enfrentarão no futuro. “Quando iniciamos o projeto, os alunos ficam mais atentos às propagandas eleitorais. Começam a trazer santinhos e contam em quem os pais votarão”, explica Paula Neves Fava Bon, coordenadora pedagógica da educação infantil do colégio.

No Humboldt, escola bilíngue (português e alemão) da zona sul, os alunos são convidados a escrever um projeto de lei para ser, hipoteticamente, encaminhado aos poderes legislativos, municipal e federal. A ideia, diz Marilu Faricelli, professora de história da escola, é identificar uma necessidade da sociedade para, depois, criar o projeto.

NA SALA DE AULA

As eleições também entraram na pauta das aulas em colégios como o Santo Américo (zona sul) e a Escola Internacional de Alphaville, instituição bilíngue localizada em Barueri, na Grande São Paulo. Nessas escolas, o tema das votações passam pelas aulas de história, geográfica e até matemática. 

Outras escolas, como o Mary Ward (zona leste), resolveram fazer debates sobre as eleições fora do conteúdo da sala de aula. A escola realizou um debate sobre a obrigatoriedade do voto no Brasil. “O objetivo é refletir com os alunos sobre o sistema de governo do país, a questão do voto obrigatório, quais países utilizam este sistema e a opinião deles sobre o tema”, afirma Alexandra Grassini, professora do colégio.

Quem quiser introduzir o tema das eleições na sala de aula pode usar o material do Plenarinho, que explica, de maneira interativa, o que são as eleições e como é o poder no Brasil. A linguagem é simplificada, ou seja, os estudantes podem visitar o site também de maneira autônoma.

Campanha “faça um selfie com seu professor” (eu fiz o meu!)

Por sabine
24/09/14 16:19

A Unesco do Brasil acaba de lançar uma campanha bem interessante para comemorar o Dia do Professor, celebrado no próximo dia 15: “faça um selfie com seu professor”.

A ideia é que os aluninhos publiquem uma foto selfie com seu professor no Facebook, na sua própria timeline, com a hastag #selfieprofessor. É preciso fazer uma tag na página da Unesco para que a organização veja a imagem. 

Para complementar a foto, o estudante tem de responder: “O que você faria para valorizar o trabalho do seu professor?”

As três selfies mais criativas, postadas até o dia 13 de outubro, vão ganhar um tablet! O regulamento do concurso está aqui.

Eu aproveitei a campanha para fazer um selfie com a Luly Zonta, que foi minha professora de fotografia na Unesp, em Bauru, interior de São Paulo, há quase 15 anos. Hoje, nós trabalhamos juntas na Folha!

faca um selfie

Eu e Luly Zonta, que foi minha professora na Unesp

Foi com a Luly que aprendi técnicas de fotografia e que desenvolvi meu olhar fotográfico. Acabei me apaixonando pela fotografia, carrego sempre a minha câmera e já tive várias fotos publicadas na “Folha de S.Paulo”. 

O que eu faria para valorizar o trabalho do meu professor?

Bom, eu, que ainda sou estudante, gostaria que os professores tivessem melhores condições para dar suas aulas. Mais recursos, mais infraestrutura, mais material, mais autonomia, mais laboratórios. Isso poderia resultar em professores mais estimulados, aulas mais criativas e alunos mais participativos.

E você?  Faça um selfie com seu professor e dê sua opinião!

 

Unicamp é 15ª melhor universidade ‘jovem’ do mundo

Por sabine
23/09/14 18:35

Um ranking divulgado nesta 3ª feira (23) pela consultoria britânica QS coloca a Unicamp entre as 15 melhores universidades jovens do mundo –com menos de 50 anos. A escola é a única brasileiras da lista, que classifica 50 instituições jovens de vários países.

As cinco primeiras universidades da lista são todas asiáticas: estão em Cingapura, Coreia do Sul e Hong Kong.

A líder das jovens, Nanyang Technological University, de Cingapura, está também entre as 50 melhores do mundo na classificação do QS que avalia todas as universidades que existem. Já a Unicamp está em 206º lugar na classificação internacional.

Ranking QS de universidades jovens 

Ranking QS internacional de universidades 

Esse ranking mais específico permite algumas análises bacanas.

Pela listagem, vemos que a Universidade da Antuérpia, criada na Bélgica em 2003, está melhor do que a nossa Unicamp, que é de 1966. Veja, aqui, estamos comparando uma instituição que tem pouco mais de uma década com a tradicional Unicamp.

Isso mostra que há países que estão criando universidades com padrões internacionais. O Instituto de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, que está ‘no top 5′, é outro exemplo. A escola foi criada em 1991 com um monte de professores estrangeiros no seu corpo docente. Como tem aulas em inglês, atrai alunos do mundo todo.

Já a Unicamp tem cerca de 2% dos seus alunos vindos de outros países –a maioria da Colômbia e do Peru. As aulas e serviços são todos em português. Será que não precisamos investir mais em internacionalização?

Tudo bem, a Unicamp foi criada em outro contexto, com outro objetivo. OK.

Mas então vamos analisar o caso dos EUA. Aquele país tem universidades ‘world class’ criadas há alguns séculos e tem, na lista das jovens, duas instituições –Universidade da Califórnia em Irvine (7º lugar) e Universidade da Califórnia em Santa Cruz (22º lugar).

Aqui, no Brasil, temos universidades quase seculares, como a USP, mas não há nenhum movimento de desenvolvimento de novas universidades ‘world class’. Isso não deveria ser prioridade para que o país consiga alavancar o seu desenvolvimento social, econômico e tecnológico nos próximos anos? Sim, deveria.

FORA DA LISTA

A proposta da QS ao avaliar as escolas jovens é interessante. Isso porque muitos países de ensino superior recente declaram se sentir injustiçados nas comparações com outros que têm universidades há séculos. Harvard, dos EUA, a melhor do mundo, por exemplo, foi criada no século 17. USP, a melhor do Brasil, é de 1934.

O problema é que conforme as universidades envelhecem, elas saem do ranking da QS. A Unicamp, por exemplo, completa 50 anos em 2016. A partir de 2017, ela estará fora da listagem. Outra instituição entrará no seu lugar não porque tenha melhorado seus próprios indicadores, mas porque as mais velhas saíram.

Isso é meio esquisito, não?

 

Há um grupo de alunos que poderia pagar pela USP: os estrangeiros

Por sabine
22/09/14 19:24

A greve da USP acabou nesta segunda-feira (22), mas a crise financeira continua. Até o final do ano, a universidade deve ter gastado 35% mais do que recebe do governo estadual para pagar suas contas. Falta dinheiro, sobram gastos. A USP precisa urgentemente encontrar uma maneira de equilibrar as finanças.

Já falamos aqui no blog sobre a possibilidade de que os alunos mais ricos da USP pagem mensalidades. Também já discutimos que alunos uspianos de pós-graduação do tipo “especialização”, ou seja, os cursos voltados ao mercado, poderiam pagar mensalidades. Mas ainda não falamos sobre um grupo que, sim, pode, definitivamente, pagar pelos estudos: os alunos estrangeiros.

Ok, eles são pouco numerosos. Na USP, diz a reitoria, cerca de 4% dos estudantes vieram de outros países –a maioria da Colômbia, do Peru e de outros países que falam espanhol ou português. Isso dá cerca de 3.600 pessoas.

Se, numa conta grosseira, cada um deles contribuísse com R$ 500 ao mês, por exemplo, teríamos R$ 1,8 milhão nas contas da USP ao final de um ano letivo.

Parece bom, não? Agora imaginem se a universidade tivesse uma política de atração de estudantes estrangeiros?

Vejam: R$ 5.000 ao ano é o valor médio que um aluno estrangeiro paga em uma universidade pública da Espanha. Lá, há 79.000 alunos vindos de outros países espalhados pelas universidades espanholas –e o governo quer aumentar esse número. A vizinha Alemanha, por exemplo, recebe cerca de 300.00 estudantes de outros países nas suas escolas.

A gente paga para estudar em universidades públicas e particulares mundo afora. Só neste ano, o Ciência sem Fronteiras, programa federal de intercâmbio de estudantes brasileiros no exterior, deve consumir R$2,4 bilhões para pagar mensalidades e taxas de brasileiros em escolas estrangeiras.

Por que não cobrar de quem vem pra cá?

CAMINHO ESPANHOL

A receita das universidades da Espanha para atrair mais estrangeiros poderia ser seguida pela USP e por outras públicas brasileiras.

Em primeiro lugar, a Espanha aposta em tuitions fees (taxas e anuidades) mais acessíveis em relação às demais europeias. Ou seja: os R$5.000 ao ano sobre os quais falamos aqui são um dos valores mais baixos encontrados pelo aluno não-europeu que pretende estudar na Europa.

Mais: as escolas da Espanha estão tentando se tornar mais internacionalizadas. Hoje, por exemplo, é mais fácil um estudante norte-americano fazer intercâmbio na Alemanha do que na Espanha porque a língua das escolas alemãs é o inglês. Já na Espanha, ainda prevalece o espanhol. O governo espanhol quer mudar isso.

Com mais alunos estrangeiros, a Espanha, além de ter mais dinheiro vindo de fora, conseguiria melhorar sua posição em rankings universitários internacionais. Isso porque a quantidade de estrangeiros contam pontos nas avaliações. E melhores posições em rankings atraem mais alunos estrangeiros. É um efeito bola de neve.

Hoje, os espanhóis têm três universidades –todas de Barcelona– entre as 250 melhores do mundo do ranking THE (Times Higher Education). Nós, que somos bem maiores e temos mais escolas, só temos a USP.

MAIS ESTRANGEIROS

Vamos fazer mais uma conta? Hoje, uma boa universidade europeia ou norte-americana tem cerca de 20% dos seus estudantes vindos de outros países. Se a USP subisse, hipoteticamente, de 4% para 20% a quantidade de alunos estrangeiros, haveria cerca de 18.000 estudantes pagantes na universidade.

Agora imaginem se cada um desses estudantes estrangeiros (hipotéticos) colocasse nas contas da USP os mesmo R$ 500 mensais que nós, brasileiros, pagamos para estudar em uma universidade da Espanha? Isso daria cerca de R$ 10 milhões extras por ano para a USP.

Repito: tudo isso sem mexer no bolso dos brasileiros da universidade. Bom, não?

É, muito bom. O problema é que, para chegar às taxas de 20% de estrangeiros na quantidade total de alunos, a USP precisaria se internacionalizar de verdade. Ter infraestrutura adequada para receber mais estrangeiros, ter aulas da graduação e da pós em inglês, ser competitiva com as escolas que cobram para receber os estrangeiros.

Isso, parece-me, está longe de acontecer.

 

Programa de pós de Oxford atrai aluno canadense para estudar no Brasil

Por sabine
16/09/14 19:44

Há pelo menos dois grandes desafios para os programas de pós-graduação em todo o mundo: ter alunos de várias áreas e de vários países. Isso significa, na linguagem acadêmica, ser multidisciplinar e internacional.

Outro dia conheci um programa de mestrado interessante da Universidade de Oxford, no Reino Unido (a 2ª melhor do mundo, de acordo com o ranking THE), que consegue reunir os dois quesitos. Isso é bem raro. Para se ter uma ideia, um dos alunos que conheci, Nico Andrade, é canadense (de família equatoriana) e está fazendo a pesquisa de campo dele no Brasil.

O programa é um mestrado em políticas públicas da “Blavatnik School of Government”, da Universidade de Oxford. O estudante que conheci, Nico Andrade, está estudando, em Oxford, políticas públicas para prevenção de incêndios… no Brasil. A ideia surgiu após a tragédia de Santa Maria (RS), onde um incêndio em uma boate deixou 242 mortos, em janeiro de 2013.

“Não há, no Brasil, obrigatoriedade de uso de sensores de fumaça com alarme ou de splinkers, que identificam possíveis incêndios e disparam jatos de água”, diz. Esse tipo de recurso é obrigatório em vários países do mundo, inclusive nos EUA, Canadá e no Reino Unido.

Eu conheço bem esses alarmes porque eles costumavam disparar frequentemente na minha casa, durante o inverno que passei nos EUA, enquanto eu cozinhava. Sem poder deixar as janelas abertas por causa do frio, cozinhava com o ambiente fechada e os sensores identificavam a fumaça como um possível incêndio. Os alarmes disparavam.

Ainda de acordo com a pesquisa de Andrade, não há, no Brasil, bases de dados consolidadas sobre quantidades de incêndios. Esses dados são fundamentais para, justamente, desenhar políticas públicas na área. Sem saber a frequência, a localidade e as causas mais comuns dos incêndios, como evitá-los?

CAZAQUISTÃO

Além de Andrade, que é formado em ciência política e relações internacionais, outros estudantes estrangeiros do curso de Oxford também estão de passagem pelo Brasil. Um deles é do Cazaquistão e está estudando, no Brasil, as políticas públicas para o etanol –assunto que interessa seu país de origem.

Outros alunos do mestrado estão espalhados em campo por outros países. De acordo com Ranjita Rajan, uma das responsáveis pelo programa, há alunos de todas as partes do mundo e a ideia é que esses estudantes saiam da “zona de conforto” e façam o campo em um lugar, por exemplo, jamais visitado. Ou seja: estudantes do Canadá e do Cazaquistão acabam vindo para no Brasil.

Não é incrível?

A proposta fica mais interessante ainda se pensarmos que se trata de um programa de políticas públicas. Ora, para se desenhar uma política é preciso conhecer a realidade do país. Ou seja, os alunos em campo precisam fazer uma imersão em algo totalmente novo.

Hoje, não conheço nenhum programa de mestrado ou de doutorado do Brasil que tenha uma proposta parecida com essa. E nem sequer que tenha tantos alunos estrangeiros –justamente porque nossas aulas são em português.

Rajan me disse que a próxima turma do programa, que começa agora neste semestre, terá três brasileiros. Disse ainda que Oxford tem bastante interesse em estudantes daqui, mas que as vagas do curso não são muito disputadas por brasileiros (ou por latinos, de maneira geral). Isso é praticamente um convite a jovens brasileiros interessados em estudar políticas públicas, não?

 

Harvard recebe equivalente a 15% do orçamento da USP em doação única

Por sabine
15/09/14 19:57

Enquanto a USP pede mais dinheiro para o governo porque o montante que recebe não dá nem para pagar salários, Harvard, a melhor universidade do mundo, acaba de receber o equivalente a 15% do orçamento uspiano em uma doação única.

É isso mesmo. Uma família rica do Hong Kong doou R$ 805 milhões para a Escola de Saúde Pública de Harvard, o que equivale a 15% do que a USP inteira deve receber neste ano do governo estadual paulista.

A bolada é o recorde já arrecado por Harvard desde a sua criação, no século 17, –e, talvez, seja o maior valor já recebido por uma universidade dos EUA de uma só vez. Somando-se ao montante que a universidade já arrecada em doações recorrentemente, algo em torno de R$ 1,1 bilhão ao ano, é possível que Harvard bata seu próprio recorde de doações.

Algumas dessas doações são mais genéricas, para a universidade. O dinheiro doado é usado em pesquisa científica, em bolsas de estudos, em contratações de bons profissionais –digo, ótimo profissionais: Harvard tem 44 prêmios Nobel no seu corpo docente.

Outras, como essa da família chinesa, têm um objetivo específico. Nesse caso, os chineses quiseram colocar o dinheiro exclusivamente na Escola de Saúde Pública de Harvard,conhecida internacionalmente por pesquisas importantes em áreas como câncer, alimentação e epidemias como a do vírus ebola –só para citar alguns exemplos.

Trocando em miúdos, a expectativa em longo prazo é que os recursos se revertam em curas de doenças ou em novos medicamentos, por exemplo.

FILANTROPIA

Mas como Harvard consegue atrair tanto dinheiro de doadores? É uma soma de fatores.

A universidade tem credibilidade suficiente para fazer com que uma família milionária –inclusive da China– abra os bolsos.  Está no topo de todos os indicadores: é a melhor do mundo, tem as pesquisas com maior impacto, tem a maior quantidade egressos que se tornaram CEOs de empresas importantes e têm alunos geniais como o criador do Facebook.

A impressão que dá é que dinheiro, em Harvard, é revertido em boas ideias. Não tem como ser diferente.

Mais do que isso: Harvard tem uma equipe enorme de profissionais capacitados para coletar doações. Eles trabalham na “Harvard Management Company”, uma espécie de empresa que administra a universidade. Cuidam do dinheiro arrecadado, fazem aplicações, conseguem doações. Cuidam de aumentar cada vez mais o fundo já bilionário da universidade mais rica dos EUA.

E, importante: Harvard sabe prestar contas de maneira transparente.

Bom, aqui no Brasil, a USP, a melhor brasileira, enfrenta uma grave crise financeira há alguns anos. A universidade se mantém quase exclusivamente com uma fatia do ICMS, que tem crescido muito menos do que as despesas da universidade (leia sobre isso aqui).

Doações à USP? Sim, há, mas não são contabilizadas. O argumento da administração da universidade é que as doações são “descentralizadas”.

Esta repórter que aqui escreve tentou levantar as doações recebidas pela USP e parou no meio do caminho. Por causa da greve de funcionários, que já dura mais de 100 dias, é impossível conseguir essas informações. mas descobri que a FEA, por exemplo, arrecadou R$ 300 mil em doações em 2013. E só.

Bom, você doaria dinheiro para uma universidade que não contabiliza os recursos recebidos? Eu não.

Uma família milionária chinesa faria essa mesma doação? Menos ainda.

É óbvio que a USP nunca será Harvard. A universidade americana está, literalmente, alguns séculos a nossa frente. Mas poderíamos, pelo menos, tentar aprender um pouco com eles, não?

 

Terceira edição do RUF traz novo ranking de cursos e adapta indicadores

Por sabine
08/09/14 00:45

Feito desde 2012, o RUF chegou à sua terceira edição. Na publicação lançada nesta segunda-feira (8)  há dois produtos principais: o ranking de universidades e os rankings de cursos.

No ranking de universidades estão classificadas todas as 192 universidades brasileiras, públicas e privadas, a partir de cinco indicadores: pesquisa, internacionalização, inovação, ensino e mercado.

No ranking de cursos é possível encontrar a avaliação de cada um dos 40 cursos de graduação com mais ingressantes no Brasil, como administração, direito e medicina, a partir de dois indicadores: ensino e mercado. Em cada classificação são considerados os cursos oferecidos por universidades, por centros universitários e por faculdades. Isso corresponde a 93% dos cerca de 7 milhões de matriculados no ensino superior do país.

O ranking de cursos é um produto novo. Até o ano passado, o RUF trazia uma avaliação de ensino e uma avaliação de mercado em 30 cursos diferentes. Nesta nova edição, cada um dos 40 cursos com maior demanda no Brasil tem um ranking próprio.

Os dados que compõem os indicadores de avaliação do RUF são coletados por uma equipe da Folha em bases de patentes brasileiras, em bases de periódicos científicos, em bases do MEC e em pesquisas nacionais de opinião feitas pelo Datafolha. Esse trabalho leva cerca de oito meses. A Folha não recebe nenhum dado diretamente das instituições de ensino avaliadas.

ADAPTAÇÃO ‘JABUTICABA’

Nesta nova edição, o RUF traz ainda algumas adaptações dos indicadores ao cenário brasileiro.

Por exemplo, a quantidade de “mestres” foi incluída, com um peso menor, na qualificação do corpo docente na avaliação de ensino. Hoje, apenas 8% de quem dá aula no ensino superior têm doutorado. Os mestres são reconhecidamente, no Brasil, um esforço das instituições no sentido de melhorar sua qualidade.

Outra adaptação foi a exclusão do subindicador “docentes estrangeiros” da avaliação de internacionalização das universidades. Isso porque a quantidade de docentes de fora do país ainda é tão pequena no Brasil que o resultado praticamente não se alterava. Não fazia sentido manter esse critério.

O RUF, assim como todos os rankings de universidades que conhecemos, ainda deve sofrer novas modificações nas futuras edições. O ensino superior muda e o que se entende por instituições de qualidade também sofre alterações; o RUF vai mudar junto com esse movimento.

HÁ 30 ANOS

Vale dizer que fazer ranking, no Brasil, ainda é novidade e causa estranhamento, mas rankings de universidades são feitos por grupos de mídia há muitas décadas em vários países. Quem começou com essa história foi o “U.S.News” ao classificar as universidades dos Estados Unidos em 1983. Os rankings são feitos pelo jornal até hoje.

No mundo todo há grupos de mídia fazendo rankings de universidades: Tem o “Die Zeit” na Alemanha, o “The Guardian” na Inglaterra, o “Reforma” no México, a revista “Maclean’s” no Canadá, a revista “AméricaEconomia” no Chile.

Há países com mais um ranking de universidades. Nos EUA, a revista “Money” lançou neste ano um ranking concorrente ao do “U.S.News”, em que classifica as instituições de ensino superior norte-americanas considerando critérios como valor das mensalidades e salários dos egressos (leia mais aqui).

Para o “U.S.News” a melhor dos EUA é Harvard; para a “Money” é a Babson (uma espécie de FGV daquele país). Conforme mudam os critérios, mudam os resultados.  Os rankings dizem: “considerando determinado critério, tal instituição vai bem e tal vai mal.” Por isso, é importante conhecer todos os critérios.

O interessante é que os rankings criam uma cultura de avaliação e de auto-avaliação. É um instrumento transparente para orientar alunos, pais de alunos, docentes e dirigentes de escolas. Não são únicos, claro, e não devem ser absolutos, mas são muito importantes quando feitos de maneira transparente e independente como o RUF.

Avaliação da educação básica revela ineficiência extrema das escolas

Por sabine
06/09/14 22:32

A infinitude de dados sobre educação básica divulgados pelo MEC na última sexta-feira (5) deixa pelo menos uma certeza: a escola no Brasil continua sendo extremamente ineficiente. E não há nem sinal de mudança.

Vamos analisar juntos.

Os dados divulgados pelo governo são resultado da prova do Ideb (Índice Brasileiro de Educação Básica). É um exame aplicado no final de cada ciclo da educação brasileira: no 5º ano do ensino fundamental (os chamados “anos iniciais”), no 9º ano do ensino fundamental (os “anos finais”) e no 3º ano do ensino médio.

Confira as notas do Ideb por Estado

Essa prova é feita em todas as escolas públicas do país e em um conjunto de escolas particulares, de maneira que a amostra seja representativa nacionalmente.

Os dados mostram que as notas dos alunos vão despencando conforme os anos avançam.

Vamos pegar o caso do Estado de São Paulo. No final dos anos inicias (5º ano do ensino fundamental), a nota ficou em 5,70 –e até melhorou em relação à última avaliação, de 2011, quando a nota ficou em 5,40.

Na conclusão dos anos finais (9º ano do ensino fundamental), a coisa piora. A nota, em São Paulo, cai para 4,40, um pouquinho melhor do que a avaliação de 2011 (cuja nota ficou em 4,30).

GARGALO NO ENSINO MÉDIO

Aí chega o ensino médio, com 3,70 na prova –conceito ainda pior do que em 2011, quando a nota ficou em 3,90. Ao todo, 16 Estados brasileiros tiveram notas piores no ensino médio público em comparação às suas próprias notas em 2011.

Por que as notas obtidas nos anos iniciais da escola são o teto máximo da avaliação e, ao longo do caminho escolar, o aluno só piora?

Simples: isso acontece porque a escola é ineficiente. Quem chega ao ensino médio no Brasil hoje traz um acúmulo de problemas de formação desde o começo do ensino fundamental. São déficits de aprendizado que compõem uma espécie de efeito cascata ao longo dos anos escolares e desembocam com força no final do período escolar.

Funciona mais ou menos assim: sem ter aprendido direito a fazer contas ou a interpretar textos nos primeiros anos do ensino fundamental, o aluno brasileiro derrapa nos anos finais, quando encontra disciplinas específicas como física e química.

Diante de tanta dificuldade, a possibilidade de que o aluno desista é imensa. E, no Brasil, sim, os alunos desistem: hoje, metade dos estudantes brasileiros simplesmente não termina o ensino médio. Os alunos ficam pelo caminho.

Como pode um país onde faltam médicos e engenheiros permitir que metade dos jovens que entram na escola simplesmente fiquem pelo caminho sem terminar o ensino médio?

Formar metade de quem entra na escola é desastroso. É um índice de 50% de perda. Se a educação brasileira fosse uma empresa, estaria falida.

E, pior: o Ideb revela o desempenho justamente de quem permaneceu na escola, ou seja, de quem fez a prova do 3º ano do ensino médio. Trocando em miúdos, nem os melhores e mais persistentes alunos, que são os que ficaram na escola, conseguem bons resultados.

O problema, para especialistas em educação como Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, é que o sistema não olha para as crianças que estão com dificuldade ao longo do caminho: “O aluno que chega ao ensino médio não veio de Marte, ele veio do ensino fundamental que tem problemas.”

Sim, o ensino fundamental tem problemas que desembocam no ensino médio, que também tem problemas. Diante de indicadores tão negativos, a única pergunta que consigo fazer agora é: até quando vamos continuar ignorando esses problemas?

 

O dia em que fui impedida de entrar na Unicamp

Por sabine
01/09/14 20:53

Desde 2011, ministro uma disciplina em uma pós-graduação da Unicamp na área de jornalismo científico. Comecei fazendo um estágio docente durante o doutorado, depois acabei virando colaboradora oficialmente.

Funciona assim: às segundas-feiras eu acordo em torno de 5h30, pego estrada rumo a Campinas, dou cerca de duas horas de aula e volto diretamente para a redação da Folha, onde fico até à noite. Preparo as aulas no final de semana.

É exaustivo, mas muito recompensador.

Nesta primeira segunda-feira de setembro (1º) minha rotina mudou: eu não consegui entrar na Unicamp para dar aula. Fiquei cerca de 1h30 do lado de fora de uma das entradas da universidade –que, teoricamente, era a única que estava aberta,– e acabei voltando para São Paulo.

Protesto fecha acessos à Unicamp

Senti na pele a greve da universidade que já passa de três meses.

Enquanto esperava no lado de fora da Unicamp, na tentativa de entrar no campus, vários alunos me mandaram mensagens dizendo que estavam na mesma situação –eles sabem que sou intolerante com atraso, por isso ficaram preocupados. Tinha gente que veio do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, de Passo Fundo. Todos chegaram na universidade e, assim como eu, não conseguiram chegar à sala de aula.

Pensei muito nesses alunos. Pensei em mim e nas 5 horas perdidas em que passei dentro do carro entre inda e vinda da Unicamp. Pensei nos grevistas.

Pensei também nos alunos mais novos, da graduação. As aulas da pós-graduação já tinham sido retomadas há algumas semanas, mas, nesta segunda-feira, seria o primeiro dia letivo dos alunos da graduação.

Lembrei-me da paralisação que eu enfrentei quando era aluna da graduação da Unesp, em 2000, que durou quase três meses e atrasou todo o calendário. Muitos alunos desistiram do curso naquela época. Será que mais alunos desanimariam também nesta nova greve? Os índices de evasão nas universidades públicas já é altíssimo mesmo sem greve (em torno de 25%).

Pensei na quantidade de dinheiro público perdido nas evasões.

TRÊS MESES

Os piquetes nas entradas da Unicamp foram organizados por funcionários, que pedem reajuste salarial. Parte deles está paralisada desde 27 de maio.

É legítimo fazer greve. Mas é legítimo impedir que um docente seja impedido de dar aula? Ou que um grupo de estudantes seja impedido de ter aula?

Esse tipo de atitude é democrática?

Na USP, que também está paralisada há mais de três meses, e que enfrenta grave crise financeira, vi decisões sobre a continuidade da paralisação sendo tomadas por grupos de cerca de 100 pessoas. A USP tem quase 90 mil alunos e 29 mil funcionários (incluindo os aposentados, que são 23% da folha de pagamento). Decisões tomadas por 100 pessoas –0,08% do universo da universidade– são válidas para toda a maioria?

Os grevistas podem, então, argumentar que quem é contra a greve deveria participar das assembleias. Novamente: obrigar a participação em assembleias é democrático? Ou, ainda, será que vozes contra a greve teriam espaço nas assembleias?

Lembrei-me ainda do relato de uma docente da Unesp, que disse que fora chamada de “vaca” por um grupo de grevistas que invadiu sua aula. Uma secretária da reitoria da USP teria sido submetida a um “corredor polonês” para chegar ao local de trabalho.  Isso tudo é legítimo?

Não, nenhuma forma de violência é legítima.

Mas, sim, é legítimo debater sobre o ensino superior público estadual. O modelo de gestão centralizado em um reitor está ultrapassado, as universidades não conseguem se manter com o dinheiro do governo, os funcionários não se sentem parte da vida universitária, os alunos não lutam por melhorias acadêmicas (como, por exemplo, a expansão do horário de funcionamento das bibliotecas).

Há algo errado nas universidades estaduais paulistas.

 

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