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Universidades, escolas e rankings

Perfil Sabine Righetti é especialista em políticas de educação e ciência

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Argentina e Costa Rica recebem mais alunos dos EUA do que o Brasil

Por sabine
17/10/14 06:00

O Brasil está no fim da lista de países para os quais os estudantes das universidades dos EUA –consideradas as melhores do mundo– viajam durante a graduação ou a pós. Só 1,4% dos alunos norte-americanos escolhem as instituições brasileiras para passar um período de estudos.

O destino preferido dos estudantes norte-americanos é o Reino Unido, com 12,2% do total de viajantes. Outros três países europeus –Itália, Espanha e França– aparecem na sequência. Um em cada quatro alunos dos EUA escolhe um desses países como destino de estudos.

As instituições brasileiras ocupam o 14º lugar da lista de destinos. O Brasil perde para países como Costa Rica (8º lugar), Argentina (11º) e Índia (12º). Os dados, de 2012, são do “Open doors report”, produzido recentemente pelo governo americano.

Para se ter uma ideia, cerca de 4 mil estudantes norte-americanos vieram para o Brasil em 2012.  Do outro lado da rota, o tráfego é mais intenso: 10,8 mil estudantes brasileiros foram estudar em instituições de ensino superior americanas no mesmo período. O Brasil é o 7º país que mais envia alunos aos EUA; o primeiro, disparado, é a China, com 235,6 mil alunos enviados para os EUA em 2o12.

Por que isso é tudo importante?

Bom, o intercâmbio é fundamental para desenvolver a ciência e a produção do conhecimento. Os dados do relatório americano sinalizam que estamos indo bem quando se trata de enviar alunos para fora, mas estamos recebendo pouca gente de escolas de ponta.

O problema, claramente, não é a língua portuguesa. Se fosse uma questão meramente de idioma, Itália e França, que ensinam em seus respectivos idiomas italiano e francês, não receberiam tantos estudantes norte-americanos –e a Austrália (7º lugar na demanda) estaria mais para cima da lista.

POUCO ATRAENTES

Ao que tudo indica, as instituições brasileiras simplesmente não têm interessado os estudantes dos EUA. Isso é um bem ruim.

O estudante estrangeiro é muito bem vindo e deve ser cativado. Ele traz novos problemas, novas soluções, traz possibilidades de parcerias e de trabalhos futuros. E, na maioria dos casos, pode trazer dinheiro para a universidade e para a região.

As universidades norte-americanas sabem muito bem disso –as instituições “top” dos EUA têm, em média, 20% dos alunos estrangeiros. A Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, cidade onde estou nesse momento, tem cerca de metade dos alunos vindo de fora. Para se ter uma ideia, os EUA recebeu 819,6 mil estudantes estrangeiros em 2012. É muita gente. Todos pagam taxas nas universidades, aluguel, alimentação e outros serviços.

Vamos comparar: na USP, a melhor do país, a quantidade de alunos estrangeiros não chega a 4%. A maioria vem do Peru e da Colômbia. Ou seja: estamos atraindo, na maioria das vezes, apenas a vizinhança.

CIÊNCIAS HUMANAS

Quase metade dos alunos que faz intercâmbio vindo dos EUA vem de ciências sociais, administração e humanas –o que ajuda a explicar a preferência por destinos como a França. Agora, o governo americano quer incentivar outras áreas do conhecimento a terem experiências fora do país e também quer aumentar a quantidade total de viajantes. Para se ter uma ideia, um total de 283,3 mil estudantes de universidades norte-americanas fizeram estudos em outros países em 2012 –isso é cerca de um terço do total de alunos estrangeiros que desembargaram nos EUA.

Uma das ideias, de acordo com Mary Besterfield-Sacre, da Universidade de Pittsburgh, que é estadual, é incentivar os alunos especificamente de engenharia a terem experiências no exterior. Hoje, apenas 3,9% de quem estuda fora dos EUA está matriculado em alguma engenharia.

“O intercâmbio é importante para que os alunos entendam que projetos de engenharia muito bem sucedidos aqui nos EUA podem não funcionar em outros locais do mundo. É preciso conhecer diferentes realidades.”

Pronto: temos aqui uma oportunidade para o Brasil.

As instituições brasileiras têm, sim, potencial para atrair estudantes estrangeiros inclusive nas engenharias: de acordo com Besterfield-Sacre, o setor energético do Brasil, por exemplo, é extremamente interessante para estudos. Ela própria já veio ao Brasil com um grupo de alunos para visitar o sistema de geração de energia hidroelétricas. Só que ela ainda é uma exceção por aqui. Que tal trabalharmos para esse tipo de visita se torna cotidiana?

 

Esse post foi escrito de Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio da Fundação Eisenhower.

Presidenciáveis falam sobre redução de disciplinas na escola; entenda

Por sabine
15/10/14 01:16

Quem assistiu ao debate dos candidatos à presidência, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), nesta terça-feira (14), viu que a necessidade de redução de disciplinas no ensino médio foi mencionada, mas não foi explicada. Alguém sabe por que ter menos disciplinas é um dos assuntos da pauta de educação do país?

Hoje, o ensino médio brasileiro tem 12 disciplinas, como as tradicionais matemática, português, biologia e também cursos como sociologia e filosofia, que passaram a ser obrigatórios por lei a partir de 2008.

O que os especialistas em educação dizem é que ter tantas disciplinas assim faz com que os estudantes não consigam se conectar com nenhuma das disciplinas. E com nenhum professor. Ou seja: o professor entra, fala, sai e o aluno fica perdido no meio do conteúdo.

O resultado? É no ensino médio que estão os piores indicadores de educação do país.

As alternativas ao excesso de disciplinas são interessantes. Uma das propostas que o MEC estuda –mas que não foi mencionada no debate dos presidenciáveis– é a unificação de alguns cursos em grupos. Assim, história, geografia, filosofia e sociologia, por exemplo, ficariam juntas em “ciências humanas”. Outros grupos seriam “ciências da natureza”, “matemática e suas tecnologias” e “linguagens”.

É com essa divisão, aliás, que são dispostas as questões no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Há quem diga ainda que o ensino médio poderia ser ainda mais multidisciplinar. Desse modo, biologia e matemática, por exemplo, poderiam ser ensinadas juntas, misturando cálculo e botânica, por exemplo. O problema é que o professor de biologia é formado em uma licenciatura e, quem dá aula em matemática, faz outra licenciatura. Quem vai dar aula de um curso com formato multidisciplinar?

A formação de professores, aliás, vale dizer, nem passou pelo debate dos presidenciáveis. Também não ouvi nada sobre currículo comum nas diferentes etapas de ensino –hoje, o que se ensina na escola é baseado principalmente no conteúdo cobrado em exames como o Enem. Mais: os candidatos à presidência falaram sobre a importância do ensino em período integral, mas não explicaram como farão para ampliar a quantidade de horas de estudos dos estudantes.

‘GAP’ DO ENSINO MÉDIO

Discutir o ensino médio é especialmente importante no Brasil. Apenas 50% dos brasileirinhos que entram na escola simplesmente não terminam o ensino médio. Isso significa que um em dois estudantes do Brasil fica pelo caminho. Isso é grave demais.

O que se diz no Brasil e em outros países, como nos Estados Unidos, onde estou nesse momento, é que o estudante desiste da escola quando não consegue mais acompanhar as aulas. Vai mal em algumas das muitas disciplinas, não recebe assistência, acaba se perdendo e desiste.

O aluno também desiste porque não vê perspectiva depois da escola, não enxerga possibilidades, oportunidades. Ou simplesmente acha a escola chata, fora da sua realidade, irreal, abstrata –e muitas vezes a escola é tudo isso, mesmo.

Em algum momento do debate dos candidatos à presidência, foi mencionado que o ensino médio é responsabilidade dos estados e não do governo federal. É verdade. Mas os indicadores de educação no Brasil estão péssimos e só pioram. É preciso reagir. Cabe ao governo federal definir políticas públicas para melhorar a educação como um todo e cabe à sociedade cobrar os governos e contribuir para que a educação no Brasil suba de nível.

Vamos nessa?

 

Esse post foi escrito de Pittsburgh, Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio da Fundação Eisenhower.

No dia das crianças, que tal ler em voz alta uma história infantil?

Por sabine
12/10/14 02:22

A proposta é simples: que tal aproveitar o dia das crianças, comemorado neste domingo (12), para ler em voz alta uma história infantil para os seus filhos, sobrinhos ou para as crianças da sua vizinhança?

A única regra é que o livro não pode ter vínculo com nenhuma religião. E, depois da leitura, a publicação deve permanecer com as crianças, para que elas explorem as imagens, as páginas, as cores.

A leitura de histórias infantis em voz alta ajuda a desenvolver a criatividade e a imaginação das crianças –algo que deve ser estimulado justamente nos primeiros anos de vida. Também estreita laços entre a criança e quem está lendo a história infantil. E o mais importante: incentiva a criançada para a literatura e para os livros de maneira geral.

Não é legal?

Trouxe a proposta para o dia das crianças de um projeto de uma cientista molecular da Jordânia, Rana Dajani, que conheci durante a pesquisa que estou fazendo nos Estados Unidos. O projeto se chama “We love reading” (em português, “Nós amamos ler”).

Começou assim: depois de morar um tempo nos EUA e voltar para a Jordânia, Rana se deu conta de que no seu país não há muitas bibliotecas –assim como acontece no Brasil (já escrevi sobre isso). Consequentemente, as crianças da Jordânia não são estimuladas à leitura “por prazer” e acabam associando os livros a provas e exames. Leem pouco ou quase não leem.

Quase não há bibliotecas na Jordânia, mas há muitas mesquitas (o país é de maioria muçulmana). Ela, então, decidiu reunir as crianças do seu bairro semanalmente na mesquita mais próxima para ler em voz alta histórias infantis de contexto não religioso. Isso foi em 2006. Adivinhem o que aconteceu? A quantidade de crianças para as sessões começou a aumentar e outros adultos replicaram a proposta em outros bairros.

Hoje, o “We love reading” já se espalhou por outros países árabes e chegou até na África. O projeto virou uma ONG, que já recebeu prêmios no mundo todo –e vai receber o Wise Award daqui uns dias como projeto de destaque em inovação educacional.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Na Jordânia, a iniciativa acabou crescendo mais do que o esperado. Tanto que Rana acabou desenvolvendo uma série de livros infantis sobre temas importantes da atualidade, como mudanças climáticas, para estimular as crianças, por meio da leitura, para as áreas científicas. Não é sensacional?

A cientista me disse que há estudos que mostram que um adulto que cresceu ouvindo histórias encontra nos livros uma espécie de aconchego. É como se, ao ler, sozinho, ele reencontrasse o colo da mãe dele. Trocando em miúdos: a leitura vira um prazer.

Pois então volto à minha proposta: que tal reunir a criançada no dia das crianças para ler uma história? Depois compartilhem aqui no blog a experiência! Quem sabe o hábito de leitura em voz alta acaba virando uma saudável rotina.

 

Esse post foi escrito de Chicago, nos Estados Unidos, onde estou fazendo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com financiamento da Fundação Eisenhower.

 

Antes de votar, analise o que seu candidato planeja para educação

Por sabine
05/10/14 00:37

Há pelo menos uma ideia comum no discurso dos especialistas em educação com quem estou conversando nos últimos dias: um país “do futuro” tem bons indicadores de educação.

Isso significa que quanto mais um governo investir em educação pública e melhorar seus resultados na escola, maior será a chance de desenvolvimento social e econômico no futuro. Haverá menos desigualdade, mais inovação e menos violência. A melhora nos níveis de educação traz um efeito cascata. Sim, a educação é a base de tudo.

No Brasil, os indicadores de educação são péssimos. Por isso, antes de votar neste domingo (5), vale a pena gastar alguns minutos fazendo uma pesquisa sobre o que o seu candidato anda falando sobre educação.

Vale saber: os governos estaduais são responsáveis especialmente pela oferta do ensino médio público, ensino técnico e pelas universidades estaduais. Já o governo federal, ou seja, o presidente, cuida de projetos específicos de educação em várias áreas (por exemplo, enviando recursos para prefeituras e governos) e também é responsável pelas universidades federais do país.

Se for um candidato à reeleição, vale verificar o que ele já fez na região que comandou. Por exemplo: como estão os indicadores do Estado que ele governou?

Nessa análise, é importantíssimo olhar os números do último Ideb (Índice de Educação Básica). Verifique, por exemplo, se o Estado governado pelo seu candidato melhorou ou piorou as notas do Ideb no ensino médio de 2011 para 2013.

Confira as notas do Ideb por Estado

O ensino médio é, aliás, o gargalo da educação brasileira. Para se ter uma ideia, apenas metade de quem entra na escola ainda criança consegue concluir o ensino médio no Brasil (leia mais aqui). O que o seu candidato fez para atrair os alunos e reduzir os dados de evasão escolar?

Se for um candidato novo, sem experiência em administração pública pregressa, vale a pena ler o que ele fala sobre educação no seu programa de governo. Se as promessas forem vagas, desconfie. Não basta falar “vamos aumentar o salário dos professores”. É preciso saber como isso será feito. De onde virá o dinheiro extra? De quanto será o aumento?

E como está o desempenho das universidades estaduais e federais? E das instituições particulares mais beneficiadas pelo Prouni? Essa análise pode ser feita pelos dados do último RUF (Ranking Universitário Folha).

Veja a classificação das universidades no RUF 2014

Senadores e deputados estaduais e federais, que também serão escolhidos nesta eleição, são os responsáveis pela legislação e cuidam de apresentar e de votar em projetos de lei. Seu candidato tem ou já apresentou projetos de lei na área de educação? Faça uma pesquisa!

O Brasil está no fim da lista de exames internacionais como o Pisa, da OCDE, que avalia o ensino de ciências, de matemática e interpretação de textos.  Se continuar nesse ritmo, será cada vez menos competitivo internacionalmente. A eleição é uma oportunidade de escolher bons nomes para que o “país do futuro” fique menos distante. Aproveite!

 

Esse post foi escrito de Washington D.C., nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio da Fundação Eisenhower.

Escolas e universidades no Brasil desestimulam aluno empreendedor

Por sabine
29/09/14 08:00

Responda rápido: o que é, na sua opinião, um estudante universitário bem sucedido?

Se você respondeu que é o aluno que consegue um estágio ou um trabalho em uma grande empresa –de preferência uma “multinacional”– você acaba de dar uma resposta muito comum entre brasileiros.

Aqui nos Estados Unidos, onde estou nesse momento, a resposta seria bem diferente. Nos EUA, um universitário bem sucedido é aquele que cria o seu próprio negócio. Ele identifica uma oportunidade, tem uma ideia e desenvolve uma solução. É um tipo Mark Zuckerberg, 30, que criou o Facebook quando ainda estudava em Harvard. Há vários exemplos como ele pelo país.

No Brasil, assim como em muitos países latino-americanos, ou países em desenvolvimento, as escolas e as universidades não preparam seus estudantes para criar, para arriscar, para ousar. O gol é trabalhar em uma empresa na sua área de estudos, ganhar bem e conseguir manter seu emprego.

De onde vem isso? Tenho algumas hipóteses.

A primeira hipótese é que países de economia historicamente instável, como o Brasil, tendem a educar seus jovens para que eles arrisquem menos. É assim: arrume logo seu emprego e não invente moda. Se você trabalhar para o governo, então, melhor ainda. Atire a primeira pedra quem é da minha geração (30-40 anos) e nunca ouviu dos pais que deveria trabalhar no governo.

Pois é.

Aqui, entramos na minha segunda hipótese: a própria família desestimula os brasileiros a se arriscarem a criar novos negócios e novas soluções. É melhor arrumar um emprego, não sabemos o dia de amanhã. Uma postura protecionista, muito parecida, aliás, com a de famílias de países árabes, por exemplo.

ERRAR É FEIO

Mais: no Brasil é “feio” errar. Se você errou, você não deveria nem ter tentando. Não te avisaram que poderia dar errado? Por que foi teimoso e insistiu em tentar? Essa é, na maioria das vezes, a lógica brasileira. Já nos EUA, errar tem uma ligação com “ousadia”. Só erra quem tentou fazer diferente. Isso é extremamente bem visto na cultura local.

Eu estou justamente nos EUA, que é um dos países mais inovadores do mundo, fazendo uma pesquisa para entender o processo de inovação e de empreendedorismo por aqui. Como exatamente a escola e a universidade aqui conseguem estimular o empreendedor?

No Brasil, algumas iniciativas foram criadas recentemente na tentativa de despertar o empreendedorismo. Mas tenho dúvidas sobre a eficiência delas.

Alguns cursos tradicionais de engenharia, como a Poli-USP, criaram uma disciplina opcional sobre “inovação” há alguns anos. Neste ano, a Poli-USP criou ainda um curso opcional chamado “empreendedorismo”. Mas falar sobre inovação e empreendedorismo em um contexto em que o aluno tem uma grade fixa e pouco flexível de disciplinas, com cerca de 40 horas-aula por semana, é, de fato, estimulante? Parece-me que não.

Da mesma forma, de nada adianta colocar bilhões de reais em agências federais de fomento de inovação sendo que quem poderia recorrer a esses recursos foi educado em uma cultura de pouco risco e muita insegurança.

Se a gente começar a mudar a educação agora –e mudar também o jeito como encaramos o risco e o erro–, talvez na próxima geração teremos mais empreendedores. Mas é preciso mudar agora.

 

Esse post foi escrito da Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Fundação Einsenhower.

Escolas de São Paulo simulam eleição e promovem debates com candidatos

Por sabine
25/09/14 11:00

Um levantamento feito pelo Abecedário mostra que as eleições chegaram de diversas formas à rotina de algumas escolas de São Paulo. As iniciativas, dizem as escolas, foram motivadas pelo interesse dos próprios alunos, que começaram a prestar mais atenção em política especialmente após as manifestações de junho de 2013 (leia aqui).

No Santa Maria (zona sul), os alunos do ensino médio estão promovendo debates com candidatos de verdade na própria escola. Na agenda, há candidatos a deputado federal de vários partidos, como Ailton Amaral (PSOL), Arnaldo Faria de Sá (PTB), Floriano Pesaro (PSDB), Goulart (PSD) e Nilto Tatto (PT). A escola também vai realizar, amanhã, 26 de setembro, uma simulação do voto. Os estudantes receberão título de eleitor para participar.

Na mesma escola, os alunos do 5º ano do ensino fundamental tiveram de criar grupos partidários para discutir propostas para a escola. A ideia é parecida com a proposta do colégio Pio XII, que fica no Morumbi (zona oeste). Lá, os alunos votam para escolher o representante de classe –e fazem, eles próprios, a apuração dos votos.

A proposta, diz a escola, é preparar os alunos para o processo eleitoral que enfrentarão no futuro. “Quando iniciamos o projeto, os alunos ficam mais atentos às propagandas eleitorais. Começam a trazer santinhos e contam em quem os pais votarão”, explica Paula Neves Fava Bon, coordenadora pedagógica da educação infantil do colégio.

No Humboldt, escola bilíngue (português e alemão) da zona sul, os alunos são convidados a escrever um projeto de lei para ser, hipoteticamente, encaminhado aos poderes legislativos, municipal e federal. A ideia, diz Marilu Faricelli, professora de história da escola, é identificar uma necessidade da sociedade para, depois, criar o projeto.

NA SALA DE AULA

As eleições também entraram na pauta das aulas em colégios como o Santo Américo (zona sul) e a Escola Internacional de Alphaville, instituição bilíngue localizada em Barueri, na Grande São Paulo. Nessas escolas, o tema das votações passam pelas aulas de história, geográfica e até matemática. 

Outras escolas, como o Mary Ward (zona leste), resolveram fazer debates sobre as eleições fora do conteúdo da sala de aula. A escola realizou um debate sobre a obrigatoriedade do voto no Brasil. “O objetivo é refletir com os alunos sobre o sistema de governo do país, a questão do voto obrigatório, quais países utilizam este sistema e a opinião deles sobre o tema”, afirma Alexandra Grassini, professora do colégio.

Quem quiser introduzir o tema das eleições na sala de aula pode usar o material do Plenarinho, que explica, de maneira interativa, o que são as eleições e como é o poder no Brasil. A linguagem é simplificada, ou seja, os estudantes podem visitar o site também de maneira autônoma.

Campanha "faça um selfie com seu professor" (eu fiz o meu!)

Por sabine
24/09/14 16:19

A Unesco do Brasil acaba de lançar uma campanha bem interessante para comemorar o Dia do Professor, celebrado no próximo dia 15: “faça um selfie com seu professor”.

A ideia é que os aluninhos publiquem uma foto selfie com seu professor no Facebook, na sua própria timeline, com a hastag #selfieprofessor. É preciso fazer uma tag na página da Unesco para que a organização veja a imagem. 

Para complementar a foto, o estudante tem de responder: “O que você faria para valorizar o trabalho do seu professor?”

As três selfies mais criativas, postadas até o dia 13 de outubro, vão ganhar um tablet! O regulamento do concurso está aqui.

Eu aproveitei a campanha para fazer um selfie com a Luly Zonta, que foi minha professora de fotografia na Unesp, em Bauru, interior de São Paulo, há quase 15 anos. Hoje, nós trabalhamos juntas na Folha!

faca um selfie

Eu e Luly Zonta, que foi minha professora na Unesp

Foi com a Luly que aprendi técnicas de fotografia e que desenvolvi meu olhar fotográfico. Acabei me apaixonando pela fotografia, carrego sempre a minha câmera e já tive várias fotos publicadas na “Folha de S.Paulo”. 

O que eu faria para valorizar o trabalho do meu professor?

Bom, eu, que ainda sou estudante, gostaria que os professores tivessem melhores condições para dar suas aulas. Mais recursos, mais infraestrutura, mais material, mais autonomia, mais laboratórios. Isso poderia resultar em professores mais estimulados, aulas mais criativas e alunos mais participativos.

E você?  Faça um selfie com seu professor e dê sua opinião!

 

Unicamp é 15ª melhor universidade 'jovem' do mundo

Por sabine
23/09/14 18:35

Um ranking divulgado nesta 3ª feira (23) pela consultoria britânica QS coloca a Unicamp entre as 15 melhores universidades jovens do mundo –com menos de 50 anos. A escola é a única brasileiras da lista, que classifica 50 instituições jovens de vários países.

As cinco primeiras universidades da lista são todas asiáticas: estão em Cingapura, Coreia do Sul e Hong Kong.

A líder das jovens, Nanyang Technological University, de Cingapura, está também entre as 50 melhores do mundo na classificação do QS que avalia todas as universidades que existem. Já a Unicamp está em 206º lugar na classificação internacional.

Ranking QS de universidades jovens 

Ranking QS internacional de universidades 

Esse ranking mais específico permite algumas análises bacanas.

Pela listagem, vemos que a Universidade da Antuérpia, criada na Bélgica em 2003, está melhor do que a nossa Unicamp, que é de 1966. Veja, aqui, estamos comparando uma instituição que tem pouco mais de uma década com a tradicional Unicamp.

Isso mostra que há países que estão criando universidades com padrões internacionais. O Instituto de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, que está ‘no top 5′, é outro exemplo. A escola foi criada em 1991 com um monte de professores estrangeiros no seu corpo docente. Como tem aulas em inglês, atrai alunos do mundo todo.

Já a Unicamp tem cerca de 2% dos seus alunos vindos de outros países –a maioria da Colômbia e do Peru. As aulas e serviços são todos em português. Será que não precisamos investir mais em internacionalização?

Tudo bem, a Unicamp foi criada em outro contexto, com outro objetivo. OK.

Mas então vamos analisar o caso dos EUA. Aquele país tem universidades ‘world class’ criadas há alguns séculos e tem, na lista das jovens, duas instituições –Universidade da Califórnia em Irvine (7º lugar) e Universidade da Califórnia em Santa Cruz (22º lugar).

Aqui, no Brasil, temos universidades quase seculares, como a USP, mas não há nenhum movimento de desenvolvimento de novas universidades ‘world class’. Isso não deveria ser prioridade para que o país consiga alavancar o seu desenvolvimento social, econômico e tecnológico nos próximos anos? Sim, deveria.

FORA DA LISTA

A proposta da QS ao avaliar as escolas jovens é interessante. Isso porque muitos países de ensino superior recente declaram se sentir injustiçados nas comparações com outros que têm universidades há séculos. Harvard, dos EUA, a melhor do mundo, por exemplo, foi criada no século 17. USP, a melhor do Brasil, é de 1934.

O problema é que conforme as universidades envelhecem, elas saem do ranking da QS. A Unicamp, por exemplo, completa 50 anos em 2016. A partir de 2017, ela estará fora da listagem. Outra instituição entrará no seu lugar não porque tenha melhorado seus próprios indicadores, mas porque as mais velhas saíram.

Isso é meio esquisito, não?

 

Há um grupo de alunos que poderia pagar pela USP: os estrangeiros

Por sabine
22/09/14 19:24

A greve da USP acabou nesta segunda-feira (22), mas a crise financeira continua. Até o final do ano, a universidade deve ter gastado 35% mais do que recebe do governo estadual para pagar suas contas. Falta dinheiro, sobram gastos. A USP precisa urgentemente encontrar uma maneira de equilibrar as finanças.

Já falamos aqui no blog sobre a possibilidade de que os alunos mais ricos da USP pagem mensalidades. Também já discutimos que alunos uspianos de pós-graduação do tipo “especialização”, ou seja, os cursos voltados ao mercado, poderiam pagar mensalidades. Mas ainda não falamos sobre um grupo que, sim, pode, definitivamente, pagar pelos estudos: os alunos estrangeiros.

Ok, eles são pouco numerosos. Na USP, diz a reitoria, cerca de 4% dos estudantes vieram de outros países –a maioria da Colômbia, do Peru e de outros países que falam espanhol ou português. Isso dá cerca de 3.600 pessoas.

Se, numa conta grosseira, cada um deles contribuísse com R$ 500 ao mês, por exemplo, teríamos R$ 1,8 milhão nas contas da USP ao final de um ano letivo.

Parece bom, não? Agora imaginem se a universidade tivesse uma política de atração de estudantes estrangeiros?

Vejam: R$ 5.000 ao ano é o valor médio que um aluno estrangeiro paga em uma universidade pública da Espanha. Lá, há 79.000 alunos vindos de outros países espalhados pelas universidades espanholas –e o governo quer aumentar esse número. A vizinha Alemanha, por exemplo, recebe cerca de 300.00 estudantes de outros países nas suas escolas.

A gente paga para estudar em universidades públicas e particulares mundo afora. Só neste ano, o Ciência sem Fronteiras, programa federal de intercâmbio de estudantes brasileiros no exterior, deve consumir R$2,4 bilhões para pagar mensalidades e taxas de brasileiros em escolas estrangeiras.

Por que não cobrar de quem vem pra cá?

CAMINHO ESPANHOL

A receita das universidades da Espanha para atrair mais estrangeiros poderia ser seguida pela USP e por outras públicas brasileiras.

Em primeiro lugar, a Espanha aposta em tuitions fees (taxas e anuidades) mais acessíveis em relação às demais europeias. Ou seja: os R$5.000 ao ano sobre os quais falamos aqui são um dos valores mais baixos encontrados pelo aluno não-europeu que pretende estudar na Europa.

Mais: as escolas da Espanha estão tentando se tornar mais internacionalizadas. Hoje, por exemplo, é mais fácil um estudante norte-americano fazer intercâmbio na Alemanha do que na Espanha porque a língua das escolas alemãs é o inglês. Já na Espanha, ainda prevalece o espanhol. O governo espanhol quer mudar isso.

Com mais alunos estrangeiros, a Espanha, além de ter mais dinheiro vindo de fora, conseguiria melhorar sua posição em rankings universitários internacionais. Isso porque a quantidade de estrangeiros contam pontos nas avaliações. E melhores posições em rankings atraem mais alunos estrangeiros. É um efeito bola de neve.

Hoje, os espanhóis têm três universidades –todas de Barcelona– entre as 250 melhores do mundo do ranking THE (Times Higher Education). Nós, que somos bem maiores e temos mais escolas, só temos a USP.

MAIS ESTRANGEIROS

Vamos fazer mais uma conta? Hoje, uma boa universidade europeia ou norte-americana tem cerca de 20% dos seus estudantes vindos de outros países. Se a USP subisse, hipoteticamente, de 4% para 20% a quantidade de alunos estrangeiros, haveria cerca de 18.000 estudantes pagantes na universidade.

Agora imaginem se cada um desses estudantes estrangeiros (hipotéticos) colocasse nas contas da USP os mesmo R$ 500 mensais que nós, brasileiros, pagamos para estudar em uma universidade da Espanha? Isso daria cerca de R$ 10 milhões extras por ano para a USP.

Repito: tudo isso sem mexer no bolso dos brasileiros da universidade. Bom, não?

É, muito bom. O problema é que, para chegar às taxas de 20% de estrangeiros na quantidade total de alunos, a USP precisaria se internacionalizar de verdade. Ter infraestrutura adequada para receber mais estrangeiros, ter aulas da graduação e da pós em inglês, ser competitiva com as escolas que cobram para receber os estrangeiros.

Isso, parece-me, está longe de acontecer.

 

Programa de pós de Oxford atrai aluno canadense para estudar no Brasil

Por sabine
16/09/14 19:44

Há pelo menos dois grandes desafios para os programas de pós-graduação em todo o mundo: ter alunos de várias áreas e de vários países. Isso significa, na linguagem acadêmica, ser multidisciplinar e internacional.

Outro dia conheci um programa de mestrado interessante da Universidade de Oxford, no Reino Unido (a 2ª melhor do mundo, de acordo com o ranking THE), que consegue reunir os dois quesitos. Isso é bem raro. Para se ter uma ideia, um dos alunos que conheci, Nico Andrade, é canadense (de família equatoriana) e está fazendo a pesquisa de campo dele no Brasil.

O programa é um mestrado em políticas públicas da “Blavatnik School of Government”, da Universidade de Oxford. O estudante que conheci, Nico Andrade, está estudando, em Oxford, políticas públicas para prevenção de incêndios… no Brasil. A ideia surgiu após a tragédia de Santa Maria (RS), onde um incêndio em uma boate deixou 242 mortos, em janeiro de 2013.

“Não há, no Brasil, obrigatoriedade de uso de sensores de fumaça com alarme ou de splinkers, que identificam possíveis incêndios e disparam jatos de água”, diz. Esse tipo de recurso é obrigatório em vários países do mundo, inclusive nos EUA, Canadá e no Reino Unido.

Eu conheço bem esses alarmes porque eles costumavam disparar frequentemente na minha casa, durante o inverno que passei nos EUA, enquanto eu cozinhava. Sem poder deixar as janelas abertas por causa do frio, cozinhava com o ambiente fechada e os sensores identificavam a fumaça como um possível incêndio. Os alarmes disparavam.

Ainda de acordo com a pesquisa de Andrade, não há, no Brasil, bases de dados consolidadas sobre quantidades de incêndios. Esses dados são fundamentais para, justamente, desenhar políticas públicas na área. Sem saber a frequência, a localidade e as causas mais comuns dos incêndios, como evitá-los?

CAZAQUISTÃO

Além de Andrade, que é formado em ciência política e relações internacionais, outros estudantes estrangeiros do curso de Oxford também estão de passagem pelo Brasil. Um deles é do Cazaquistão e está estudando, no Brasil, as políticas públicas para o etanol –assunto que interessa seu país de origem.

Outros alunos do mestrado estão espalhados em campo por outros países. De acordo com Ranjita Rajan, uma das responsáveis pelo programa, há alunos de todas as partes do mundo e a ideia é que esses estudantes saiam da “zona de conforto” e façam o campo em um lugar, por exemplo, jamais visitado. Ou seja: estudantes do Canadá e do Cazaquistão acabam vindo para no Brasil.

Não é incrível?

A proposta fica mais interessante ainda se pensarmos que se trata de um programa de políticas públicas. Ora, para se desenhar uma política é preciso conhecer a realidade do país. Ou seja, os alunos em campo precisam fazer uma imersão em algo totalmente novo.

Hoje, não conheço nenhum programa de mestrado ou de doutorado do Brasil que tenha uma proposta parecida com essa. E nem sequer que tenha tantos alunos estrangeiros –justamente porque nossas aulas são em português.

Rajan me disse que a próxima turma do programa, que começa agora neste semestre, terá três brasileiros. Disse ainda que Oxford tem bastante interesse em estudantes daqui, mas que as vagas do curso não são muito disputadas por brasileiros (ou por latinos, de maneira geral). Isso é praticamente um convite a jovens brasileiros interessados em estudar políticas públicas, não?

 

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