Harvard recebe equivalente a 15% do orçamento da USP em doação única

Por Sabine Righetti

Enquanto a USP pede mais dinheiro para o governo porque o montante que recebe não dá nem para pagar salários, Harvard, a melhor universidade do mundo, acaba de receber o equivalente a 15% do orçamento uspiano em uma doação única.

É isso mesmo. Uma família rica do Hong Kong doou R$ 805 milhões para a Escola de Saúde Pública de Harvard, o que equivale a 15% do que a USP inteira deve receber neste ano do governo estadual paulista.

A bolada é o recorde já arrecado por Harvard desde a sua criação, no século 17, –e, talvez, seja o maior valor já recebido por uma universidade dos EUA de uma só vez. Somando-se ao montante que a universidade já arrecada em doações recorrentemente, algo em torno de R$ 1,1 bilhão ao ano, é possível que Harvard bata seu próprio recorde de doações.

Algumas dessas doações são mais genéricas, para a universidade. O dinheiro doado é usado em pesquisa científica, em bolsas de estudos, em contratações de bons profissionais –digo, ótimo profissionais: Harvard tem 44 prêmios Nobel no seu corpo docente.

Outras, como essa da família chinesa, têm um objetivo específico. Nesse caso, os chineses quiseram colocar o dinheiro exclusivamente na Escola de Saúde Pública de Harvard,conhecida internacionalmente por pesquisas importantes em áreas como câncer, alimentação e epidemias como a do vírus ebola –só para citar alguns exemplos.

Trocando em miúdos, a expectativa em longo prazo é que os recursos se revertam em curas de doenças ou em novos medicamentos, por exemplo.

FILANTROPIA

Mas como Harvard consegue atrair tanto dinheiro de doadores? É uma soma de fatores.

A universidade tem credibilidade suficiente para fazer com que uma família milionária –inclusive da China– abra os bolsos.  Está no topo de todos os indicadores: é a melhor do mundo, tem as pesquisas com maior impacto, tem a maior quantidade egressos que se tornaram CEOs de empresas importantes e têm alunos geniais como o criador do Facebook.

A impressão que dá é que dinheiro, em Harvard, é revertido em boas ideias. Não tem como ser diferente.

Mais do que isso: Harvard tem uma equipe enorme de profissionais capacitados para coletar doações. Eles trabalham na “Harvard Management Company”, uma espécie de empresa que administra a universidade. Cuidam do dinheiro arrecadado, fazem aplicações, conseguem doações. Cuidam de aumentar cada vez mais o fundo já bilionário da universidade mais rica dos EUA.

E, importante: Harvard sabe prestar contas de maneira transparente.

Bom, aqui no Brasil, a USP, a melhor brasileira, enfrenta uma grave crise financeira há alguns anos. A universidade se mantém quase exclusivamente com uma fatia do ICMS, que tem crescido muito menos do que as despesas da universidade (leia sobre isso aqui).

Doações à USP? Sim, há, mas não são contabilizadas. O argumento da administração da universidade é que as doações são “descentralizadas”.

Esta repórter que aqui escreve tentou levantar as doações recebidas pela USP e parou no meio do caminho. Por causa da greve de funcionários, que já dura mais de 100 dias, é impossível conseguir essas informações. mas descobri que a FEA, por exemplo, arrecadou R$ 300 mil em doações em 2013. E só.

Bom, você doaria dinheiro para uma universidade que não contabiliza os recursos recebidos? Eu não.

Uma família milionária chinesa faria essa mesma doação? Menos ainda.

É óbvio que a USP nunca será Harvard. A universidade americana está, literalmente, alguns séculos a nossa frente. Mas poderíamos, pelo menos, tentar aprender um pouco com eles, não?