Há um grupo de alunos que poderia pagar pela USP: os estrangeiros

Por Sabine Righetti

A greve da USP acabou nesta segunda-feira (22), mas a crise financeira continua. Até o final do ano, a universidade deve ter gastado 35% mais do que recebe do governo estadual para pagar suas contas. Falta dinheiro, sobram gastos. A USP precisa urgentemente encontrar uma maneira de equilibrar as finanças.

Já falamos aqui no blog sobre a possibilidade de que os alunos mais ricos da USP pagem mensalidades. Também já discutimos que alunos uspianos de pós-graduação do tipo “especialização”, ou seja, os cursos voltados ao mercado, poderiam pagar mensalidades. Mas ainda não falamos sobre um grupo que, sim, pode, definitivamente, pagar pelos estudos: os alunos estrangeiros.

Ok, eles são pouco numerosos. Na USP, diz a reitoria, cerca de 4% dos estudantes vieram de outros países –a maioria da Colômbia, do Peru e de outros países que falam espanhol ou português. Isso dá cerca de 3.600 pessoas.

Se, numa conta grosseira, cada um deles contribuísse com R$ 500 ao mês, por exemplo, teríamos R$ 1,8 milhão nas contas da USP ao final de um ano letivo.

Parece bom, não? Agora imaginem se a universidade tivesse uma política de atração de estudantes estrangeiros?

Vejam: R$ 5.000 ao ano é o valor médio que um aluno estrangeiro paga em uma universidade pública da Espanha. Lá, há 79.000 alunos vindos de outros países espalhados pelas universidades espanholas –e o governo quer aumentar esse número. A vizinha Alemanha, por exemplo, recebe cerca de 300.00 estudantes de outros países nas suas escolas.

A gente paga para estudar em universidades públicas e particulares mundo afora. Só neste ano, o Ciência sem Fronteiras, programa federal de intercâmbio de estudantes brasileiros no exterior, deve consumir R$2,4 bilhões para pagar mensalidades e taxas de brasileiros em escolas estrangeiras.

Por que não cobrar de quem vem pra cá?

CAMINHO ESPANHOL

A receita das universidades da Espanha para atrair mais estrangeiros poderia ser seguida pela USP e por outras públicas brasileiras.

Em primeiro lugar, a Espanha aposta em tuitions fees (taxas e anuidades) mais acessíveis em relação às demais europeias. Ou seja: os R$5.000 ao ano sobre os quais falamos aqui são um dos valores mais baixos encontrados pelo aluno não-europeu que pretende estudar na Europa.

Mais: as escolas da Espanha estão tentando se tornar mais internacionalizadas. Hoje, por exemplo, é mais fácil um estudante norte-americano fazer intercâmbio na Alemanha do que na Espanha porque a língua das escolas alemãs é o inglês. Já na Espanha, ainda prevalece o espanhol. O governo espanhol quer mudar isso.

Com mais alunos estrangeiros, a Espanha, além de ter mais dinheiro vindo de fora, conseguiria melhorar sua posição em rankings universitários internacionais. Isso porque a quantidade de estrangeiros contam pontos nas avaliações. E melhores posições em rankings atraem mais alunos estrangeiros. É um efeito bola de neve.

Hoje, os espanhóis têm três universidades –todas de Barcelona– entre as 250 melhores do mundo do ranking THE (Times Higher Education). Nós, que somos bem maiores e temos mais escolas, só temos a USP.

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MAIS ESTRANGEIROS

Vamos fazer mais uma conta? Hoje, uma boa universidade europeia ou norte-americana tem cerca de 20% dos seus estudantes vindos de outros países. Se a USP subisse, hipoteticamente, de 4% para 20% a quantidade de alunos estrangeiros, haveria cerca de 18.000 estudantes pagantes na universidade.

Agora imaginem se cada um desses estudantes estrangeiros (hipotéticos) colocasse nas contas da USP os mesmo R$ 500 mensais que nós, brasileiros, pagamos para estudar em uma universidade da Espanha? Isso daria cerca de R$ 10 milhões extras por ano para a USP.

Repito: tudo isso sem mexer no bolso dos brasileiros da universidade. Bom, não?

É, muito bom. O problema é que, para chegar às taxas de 20% de estrangeiros na quantidade total de alunos, a USP precisaria se internacionalizar de verdade. Ter infraestrutura adequada para receber mais estrangeiros, ter aulas da graduação e da pós em inglês, ser competitiva com as escolas que cobram para receber os estrangeiros.

Isso, parece-me, está longe de acontecer.