Argentina e Costa Rica recebem mais alunos dos EUA do que o Brasil

Por Sabine Righetti

O Brasil está no fim da lista de países para os quais os estudantes das universidades dos EUA –consideradas as melhores do mundo– viajam durante a graduação ou a pós. Só 1,4% dos alunos norte-americanos escolhem as instituições brasileiras para passar um período de estudos.

O destino preferido dos estudantes norte-americanos é o Reino Unido, com 12,2% do total de viajantes. Outros três países europeus –Itália, Espanha e França– aparecem na sequência. Um em cada quatro alunos dos EUA escolhe um desses países como destino de estudos.

As instituições brasileiras ocupam o 14º lugar da lista de destinos. O Brasil perde para países como Costa Rica (8º lugar), Argentina (11º) e Índia (12º). Os dados, de 2012, são do “Open doors report”, produzido recentemente pelo governo americano.

Para se ter uma ideia, cerca de 4 mil estudantes norte-americanos vieram para o Brasil em 2012.  Do outro lado da rota, o tráfego é mais intenso: 10,8 mil estudantes brasileiros foram estudar em instituições de ensino superior americanas no mesmo período. O Brasil é o 7º país que mais envia alunos aos EUA; o primeiro, disparado, é a China, com 235,6 mil alunos enviados para os EUA em 2o12.

Por que isso é tudo importante?

Bom, o intercâmbio é fundamental para desenvolver a ciência e a produção do conhecimento. Os dados do relatório americano sinalizam que estamos indo bem quando se trata de enviar alunos para fora, mas estamos recebendo pouca gente de escolas de ponta.

O problema, claramente, não é a língua portuguesa. Se fosse uma questão meramente de idioma, Itália e França, que ensinam em seus respectivos idiomas italiano e francês, não receberiam tantos estudantes norte-americanos –e a Austrália (7º lugar na demanda) estaria mais para cima da lista.

POUCO ATRAENTES

Ao que tudo indica, as instituições brasileiras simplesmente não têm interessado os estudantes dos EUA. Isso é um bem ruim.

O estudante estrangeiro é muito bem vindo e deve ser cativado. Ele traz novos problemas, novas soluções, traz possibilidades de parcerias e de trabalhos futuros. E, na maioria dos casos, pode trazer dinheiro para a universidade e para a região.

As universidades norte-americanas sabem muito bem disso –as instituições “top” dos EUA têm, em média, 20% dos alunos estrangeiros. A Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, cidade onde estou nesse momento, tem cerca de metade dos alunos vindo de fora. Para se ter uma ideia, os EUA recebeu 819,6 mil estudantes estrangeiros em 2012. É muita gente. Todos pagam taxas nas universidades, aluguel, alimentação e outros serviços.

Vamos comparar: na USP, a melhor do país, a quantidade de alunos estrangeiros não chega a 4%. A maioria vem do Peru e da Colômbia. Ou seja: estamos atraindo, na maioria das vezes, apenas a vizinhança.

CIÊNCIAS HUMANAS

Quase metade dos alunos que faz intercâmbio vindo dos EUA vem de ciências sociais, administração e humanas –o que ajuda a explicar a preferência por destinos como a França. Agora, o governo americano quer incentivar outras áreas do conhecimento a terem experiências fora do país e também quer aumentar a quantidade total de viajantes. Para se ter uma ideia, um total de 283,3 mil estudantes de universidades norte-americanas fizeram estudos em outros países em 2012 –isso é cerca de um terço do total de alunos estrangeiros que desembargaram nos EUA.

Uma das ideias, de acordo com Mary Besterfield-Sacre, da Universidade de Pittsburgh, que é estadual, é incentivar os alunos especificamente de engenharia a terem experiências no exterior. Hoje, apenas 3,9% de quem estuda fora dos EUA está matriculado em alguma engenharia.

“O intercâmbio é importante para que os alunos entendam que projetos de engenharia muito bem sucedidos aqui nos EUA podem não funcionar em outros locais do mundo. É preciso conhecer diferentes realidades.”

Pronto: temos aqui uma oportunidade para o Brasil.

As instituições brasileiras têm, sim, potencial para atrair estudantes estrangeiros inclusive nas engenharias: de acordo com Besterfield-Sacre, o setor energético do Brasil, por exemplo, é extremamente interessante para estudos. Ela própria já veio ao Brasil com um grupo de alunos para visitar o sistema de geração de energia hidroelétricas. Só que ela ainda é uma exceção por aqui. Que tal trabalharmos para esse tipo de visita se torna cotidiana?

 

Esse post foi escrito de Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre educação, inovação e empreendedorismo com apoio de Eisenhower Fellowships.