“O problema é que se eu estudar matemática não terei namorada”

Por Sabine Righetti

Imagine que seu país seja o último colocado em uma avaliação internacional importante de matemática. Agora pense que você precisa resolver esse problema. O que você faria?

Estamos falando do Peru, último na lista de 65 países avaliados em matemática pelo último exame internacional Pisa, de 2012. O país tem 368 pontos no quesito –bem abaixo da média (que é 494). Para se ter uma ideia, a China, que lidera a lista, tem 613 pontos. O Brasil está um pouco na frente do Peru, em 57 lugar, com 391 pontos.

O Peru piorou na avaliação: no Pisa de 2009, ainda ganhava do Azerbaidjão e do Quirguistão (a avaliação é feita a cada três anos). Em 2012, foi para o final da lista.

O que fazer?

O governo do Peru tem discutido essa questão com alguns especialistas em educação e com consultores há alguns anos. Entre eles está Alvaro Delgado, que é consultor de inovação do Grupo Apoyo e, atualmente, faz parte do meu grupo de pesquisa de inovação aqui nos Estados Unidos.

A primeira reação diante do trágico desempenho com os números foi: vamos mudar os currículos! Mas, pergunta: é o currículo que precisa ser alterado?

Delgado –que é extremamente criativo, artista e também trabalha como produtor– fez parte de um grupo que sugeriu uma investigação in loco com os aluninhos peruanos. Afinal, qual é o problema com a matemática? É difícil de entender? É chato? É mal explicado?

SEM NAMORADA

Para surpresa geral, a resposta mais comum dos estudantes foi algo do tipo: “se eu estudar matemática, não vou arrumar uma namorada.” Ou seja: a percepção de matemática dos estudantes peruanos –e, arrisco dizer, dos alunos latinos em geral,– é extremamente negativa. No lugar de ser associada com solução de problemas, criatividade, construção, engenharia e afins, a matemática é tida como um obstáculo à vida social promissora.

Trata-se de uma percepção muito diferente da encontrada em países asiáticos que, surpresa, lideram o ranking de matemática do Pisa. Na China, por exemplo, números são associados às engenharias e às atividades bancárias, que são bem remuneradas. Significam uma chance real de ascensão social em um país extremamente competitivo. As possibilidades de se arrumar uma namorada ou um namorado indo bem em matemática aumentam!

Mas como, então, mudar a percepção de matemática do Peru? Para Delgado, isso só será possível por meio de arte e de criatividade. É preciso mostrar aos estudantes peruanos a parte divertida e construtiva da matemática. É possível ser “cool” lidando bem com os números.

O Grupo Apoyo, liderado por Delgado, está diretamente envolvido com o programa peruano “Matemática para todos”, que tem o objetivo de ensinar matemática por meio de jogos, de comunicação, de vídeos, de maneira divertida. Vai dar certo? Ainda não dá para saber, pois uma intervenção assim, em educação, leva alguns anos para mostrar resultado.

Mas a iniciativa é muito importante. Um país só consegue se desenvolver se tiver alunos envolvidos com os números. É preciso muita matemática e muita ciência para desenvolver novas tecnologias, para construir infra-estrutura parruda, para desenvolver uma indústria competitiva internacionalmente, para criar soluções de peso em problemas em todas as áreas –ambiente, saúde, transporte, energia.

No Brasil, há iniciativas bacanas, como as Olimpíadas Brasileiras de Matemática, promovidas pelo Impa (os premiados, aliás, serão anunciados em dezembro –leia aqui). Mas o que o governo está fazendo nacionalmente para atrair os seus estudantes para matemática na sala de aula, para subir umas casas no Pisa e para conseguir ter uma base intelectual sólida para o desenvolvimento? Qual é o problema com a matemática no Brasil?

Eu, infelizmente, não tenho respostas.

 

Esse post foi escrito de Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Einsenhower Fellowships.