App mais baixado do que Tinder ensina a lidar com finanças pessoais

Por Sabine Righetti

No ano passado, escrevi uma reportagem sobre algumas escolas particulares que oferecem disciplinas e esportes extra-curriculares bem inusitados para segurar os alunos pós-aulas regulares. Com pai e mãe trabalhando fora, e com empregado doméstico cada vez mais raro, quanto mais a escola oferecer, melhor para a família.

Entre iatismo, esgrima e interpretação de notícias, encontrei apenas uma escola bilíngue que oferecia um curso de “finanças pessoais”. A ideia era dar aos alunos uma noção de gastos pessoais e de como funciona o nosso sistema financeiro no Brasil. Ou seja: o ensino de finanças pessoais ainda é uma raridade nas escolas brasileiras.

Estou contando tudo isso porque conheci aqui nos Estados Unidos um dos criadores de um aplicativo que “ensina” os usuários a lidar com finanças, o GuiaBolso.com.br. E, adivinhem: o app está fazendo o maior sucesso e tem mais downloads do que o Tinder, famoso aplicativo de paquera on-line. Hoje, são 220.000 usuários.

Por que tanta procura? Simples: porque nós, brasileiros, não sabemos lidar com nosso dinheiro.

“Aprendemos química de alta complexidade no ensino médio, mas não aprendemos a lidar com um assunto com o qual lidaremos a vida inteira: as finanças pessoais”, diz Thiago Alvarez, um dos criadores da start-up responsável pela ideia –que nesta semana ganhou um prêmio de melhor start-up consolidada do Brasil– e meu companheiro de pesquisa aqui nos Estados Unidos.

QUÍMICA COMPLEXA

“Apesar de serem essenciais para todas pessoas viverem no mundo real, os princípios de finanças (juros, inflação e diversificação de investimentos) são ignorados por boa parte dos sistemas escolares não só no Brasil, mas em todo mundo.”

Não se trata de criar uma nova disciplina para as finanças –e nem é o caso de um curso extra. O ensino médio brasileiro já tem 12 cursos diferentes. Mas por que não incluir finanças pessoais nas aulas de matemática, por exemplo? Além de atrair o aluno para o uso de números no mundo real, essa prática pode render bons exercícios de cálculo de juros, por exemplo.

Isso já está sendo feito aqui nos Estados Unidos em alguns estados (aqui, o currículo é definido regionalmente). Mas no mundo todo as iniciativas são raras. O problema é que, no caso brasileiro, em que o cartão de crédito chega a ter juros de 241% ao ano, o consumidor desaviado e sem informação pode pagar muito caro (literalmente).

Alvarez tem alguns levantamentos sobre o cenário brasileiro. Sabe, por exemplo, que um em cada quatro usuários do app termina o mês no cheque especial, ou seja, gasta mais do que tem na conta e pega emprestado um dinheiro extra do banco mensalmente –a um juros de cerca de 9% ao mês.

E quem aí sabe calcular quanto significa, no bolso, 9% de juros ao mês?

Pois é. Quanto mais informação financeira tivermos, melhores serão as nossas decisões. Por que, então, não discutir finanças na escola?

 

Esse post foi escrito de Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Einsenhower Fellowships.