Em universidades ‘top’, quem não empreende é ‘loser’

Por Sabine Righetti

Já escrevi sobre isso: no Brasil, escolas e universidades não preparam seus estudantes para inovar e empreender, mas sim para que consigam bons empregos. Ok, disso já sabemos. O que não sabemos é como, então, as universidades ‘top’ estimulam seus alunos para que eles tenham ideias e para que desenvolvam suas ideias.

Durante mais de dois meses, visitei algumas das melhores universidades do mundo –Harvard, MIT, Berkeley, Stanford, Michigan, Columbia– tentando responder a essa pergunta. Conversei com docentes e alunos. Cheguei à primeira conclusão: quem entra nessas universidades, em geral, tem perfil empreendedor e quer inovar. “Aqui, quem não empreende é loser [perdedor]”, disse uma aluna do curso de administração da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Ninguém, claro, quer ser loser.

Se cada aluno já é um pouco empreendedor, então é preciso incentivá-los e conectá-los. Isso porque as chances de uma ideia dar certo aumentam significativamente se essa ideia for compartilhada, especialmente com pessoas de áreas diferentes do conhecimento. O que as universidades ‘top’ fazem, então, é dar um empurrãozinho nesse processo criativo, promovendo uma interação entre estudantes em alguns espaços específicos.

No Brasil, escolas e universidades desestimulam aluno empreendedor

Na melhor do mundo, Harvard, em Boston, esse espaço de interação é chamado de “laboratório de inovação”, I-lab. É aberto a alunos de todos os cursos que queiram desenvolver suas ideias. E, adivinhe? Está sempre lotado. No I-lab, os estudantes fazem cursos e assistem a palestras sobre inovação e empreendedorismo –que, atenção, não contam crédito para a graduação– e também usam a infra-estrutura para trocar ideias e fazer conexões.

‘SEJA O CHEFE’

Essa estrutura para conectar os alunos é relativamente simples, mesmo em Harvard. Trata-se de um prédio bonito com sofás, mesas, salas de reunião e muitas paredes em que é possível escrever coisas e fazer desenhos. Em uma delas, há post-its com mensagem de alunos do tipo “procuro parceiros para desenvolver app na área de transporte” ou “estudantes de engenharia buscam alunos de educação para start-up”. Em outras paredes, há mensagens incentivadoras como “pare de agir como um chefe e seja o chefe”. Tudo escrito pelos próprios alunos.

Esse tipo de espaço, de conexão entre alunos, também existe na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, famosa pelos cursos de engenharia. Lá, estudantes de diversas áreas podem se encontrar uma vez por semana, em um evento promovido pela aceleradora de start-ups da universidade, para jantar e conversar.

Entre cookies e coca-cola, eles anunciam o que estão pensando e o que precisam para que a ideia dê certo. No encontro que acompanhei, uma bióloga doutoranda encontrou um parceiro em potencial na área de engenharia. O objetivo dela era desenvolver um aparelho inédito voltado à reabilitação humana em uma doença específica. Ela entendia da doença, ele, de como fazer o aparelho. Bingo!

“Fazemos uma espécie de speed-dating [encontros para arrumar parceiro amoroso], só que com o objetivo de conectar empreendedores”, diz Kit Needham, diretora do Olympus, que é a aceleradora de start-ups da universidade.

O bacana desses espaços, em Harvard e na Carnegie Mellon, é que eles permitem que o aluno que tem uma simples ideia comece a se expor e a buscar parceiros. Não precisa ser nada muito elaborado, um projeto, não precisa ter pesquisa de mercado (como exige boa parte das aceleradoras de start-ups de universidades). Basta ter uma ideia.

Fiquei pensando em como podemos incentivar o aluno brasileiro a ter ideias, a expor suas ideias e a se conectar com outros estudantes de maneira que todos façam com que a ideia saia do papel. Será que precisamos de espaços como o de Harvard para conseguir resultados bacanas? Ou será que esse tipo de espaço não funcionaria no Brasil, pois falta cultura empreendedora e sobram entraves econômicas para inovação?

Deixo a pergunta para o debate.

 

A pesquisa mencionada nesse post foi financiada pela Eisenhower Fellowships.