Domínio de inglês é problema também para classe ‘A’

Por Sabine Righetti

Fala inglês fluentemente quem tem dinheiro para pagar um curso particular ou para estudar fora do país, certo? Errado.

Uma pesquisa que consultou aleatoriamente pessoas que moram em cidades como São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza e outros grandes centros do país mostrou que, dos entrevistados, seis em cada dez pessoas das classes A e B não compreendem outro idioma além do português. Entre os entrevistados da classe C, o índice sobe um pouco: oito em cada dez entrevistados só entendem o português.

Os dados compõem o Índice de Proficiência em Inglês e foram divulgados para a Folha pelo Google na semana passada. A pesquisa foi feita com 10.368 pessoas que se dispuseram a fazer uma espécie de prova de inglês on-line, com 30 questões. A amostra de respondentes não foi previamente selecionada e, por isso, não segue a proporção brasileira de sexo, idade e faixa econômica –o que significa que os dados não podem ser extrapolados para o Brasil. Ou seja: eles valem apenas para os respondentes que vivem em grandes centros urbanos.

Dentre os consultados, uma surpresa: poucos dos que só sabem falar português estão estudando outro idioma. De quem respondeu ao questionário e tem de 18 a 34 anos –do começo da idade “universitária” até o final da primeira década após a formatura–, apenas 5% disseram que estão matriculados em alguma escola de inglês.

Quem não está estudando outro idioma como o inglês alega falta de tempo e de dinheiro.

O que esse estudo revela? Primeiro: quem vive em cidades grandes parece não dar conta de modelos tradicionais de ensino do idioma, em escolas, salas de aulas, turmas fechadas, essas coisas. Não seria o momento, então, de flexibilizar aulas e horários ou até investir em ensino a distância? O Índice de Proficiência em Inglês estima que pelo menos seis milhões de brasileiros tenham interesse em estudar inglês, mas estão fora das escolas. Parece uma oportunidade de negócios, não?

Mais: se a gente não fala inglês nem nas grandes cidades, onde, em geral, estão as grandes empresas, as melhores universidades e as boas possibilidades de carreira, como conseguiremos ser um país minimamente desenvolvido e competitivo internacionalmente?

Pois é.

Bom, parece que não somos competitivos internacionalmente com esses indicadores. De acordo com o ranking do Índice de Proficiência em Inglês, que faz esse tipo de pesquisa em vários países, o resultado de domínio de um segundo idioma encontrado entre os respondentes do Brasil é pior se comparado a quem participou da pesquisa nos BRICs. Veja abaixo a listagem:

1º. Suécia
19º. Argentina
21º. Índia
31º. Rússia
34º. China
38º. Brasil

Arrisco a dizer, ainda, que parte dos respondentes que declarou só falar português já deve ter passado por aula de inglês na escola. Claro: no Brasil, o ensino de inglês é obrigatório em toda a rede de educação básica a partir da 5ª série ou 6º ano. Isso acontece há quase duas décadas. Então escutamos Rihanna e, sei lá, Justin Bieber na rádio, chamamos liquidação de “sale”, temos aulas obrigatórias de inglês na escola e, mesmo assim, mostramos que só conhecemos o português nesse tipo de pesquisa. Oi?

Algo está errado.

Precisamos discutir o ensino de inglês com a profundidade que o assunto merece da sala de aula às políticas públicas nacionais. Enquanto não entendermos o problema, não teremos a solução.