Antes de demissão, Cid Gomes já estava ‘se estranhando’ na pasta

Por Sabine Righetti

A gestão ligeira do ministro da Educação Cid Gomes, que pediu demissão à presidente Dilma Rousseff nesta quarta-feira (18), menos de três meses após sua posse, já era esperada por gestores do MEC e por especialistas de educação. Segundo apuração do Abecedário, o chefe máximo de educação do país estava agindo de maneira isolada no ministério e tinha pouco apoio de especialistas em educação por falta de experiência na área –antes do MEC, Cid fora governador do Ceará.

O pedido de demissão veio após um desgaste com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), causada por uma declaração do ministro feita no final de fevereiro, na Universidade Federal do Ceará. Ele afirmou, entre outras frases polêmicas, que “a direção da Câmara será um problema grave para o Brasil” –e reforçou seu descontentamento recentemente diante de deputados.

Antes de tudo isso, porém, Cid já derrapava em decisões e agia isoladamente no ministério. Ele teria, por exemplo, viajado sozinho aos Estados Unidos, principal parceiro do programa Ciência sem Fronteiras (e pupila dos olhos da presidente Dilma), para saber detalhes do programa com instituições norte-americanas sem ter consultado previamente os seus coordenadores dentro do MEC.

Em outro episódio, na mesma semana em que alunos de escolas particulares se apinhavam em filas durante madrugadas para fazer o recadastramento no Fies (sistema de financiamento estudantil), o ministro estava nos Estados Unidos para participar de um evento. O sistema do Fies foi alterado recentemente e apresentou falhas; enquanto isso, Cid foi palestrar sobre educação e “as principais necessidades do país” na Universidade Yale, em uma conferência de três dias promovida pela Fundação Lemann.

A viagem do ministro ao exterior em um momento de crise do Fies teria causado mal estar internamente na pasta. Segundo apuração do Abecedário, o que se dizia é que Cid Gomes deveria estar no Brasil para responder à crise. “Ele poderia ter enviado um representante da pasta, como, aliás, geralmente se faz nesse tipo de evento”, disse um gestor interno do MEC.

MADRUGADAS

Desde o começo do mês, praticamente todos os alunos de faculdades particulares do Brasil –são 5,3 milhões de estudantes (quase 75% dos 7,3 milhões de matriculados no ensino superior de acordo com o censo 2013)– têm sofrido para fazer seu cadastro no Fies (leia mais aqui). O sistema apresentou uma série de falhas, que foram admitidas pela própria presidente Dilma Rousseff (leia aqui). As reclamações dos estudantes começaram antes da viagem do ministro ao evento de Yale, que aconteceu na primeira semana de março.

Além das falhas tecnológicas, muitos estudantes derraparam nas novas regras do sistema de financiamento. Isso porque só estão aptos a acessar ou renovar o Fies os estudantes de universidades que tiveram reajuste máximo de 6,4% no valor das mensalidades. O problema, dizem as escolas, é que o aumento inferir a 6,4% impede a manutenção dos quadros docentes. O MEC também determinou que , para ter financiamento, os alunos devem ter obtido nota mínima de 450 pontos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Resultado: quem estuda em universidades com aumento superior a 6,4% ou quem obteve uma nota abaixo de 450 pontos no Enem perdeu o direito ao crédito estudantil, mesmo que já estivesse estudando. Pois é.

SEM CHEFE

Até a conclusão deste post, o comando da pasta de Educação seguia sem indicação de um novo nome. Entre especialistas de educação, um dos currículos mais lembrados é o do especialista em venenos de serpente e doutor em biologia molecular Jorge Guimarães, que está onze anos à frente da Capes (órgão do MEC responsável por políticas de ensino superior, como os sistemas de avaliação de programas de pós-graduação).

Guimarães, no entanto, teria entregue sua carta de demissão da Capes por estar insatisfeito com a nova gestão. Ele estaria apenas aguardando um sinal verde para deixar a pasta.

Além dos problemas de gestão, o Ministério de Educação também deve sofrer com um corte de cerca de 30% no seu orçamento neste ano. O tema “educação”, vale lembrar, foi destacado como assunto prioritário da gestão 2015-2018 no discurso de posse da presidente Dilma Rousseff.