Onde estão os formados pelo ensino superior do país?

Por Sabine Righetti

Toda vez que apresento a metodologia do RUF – Ranking Universitário Folha em alguma conferência, reunião ou congresso surge a mesma pergunta: por que vocês não avaliam os egressos do ensino superior do país? E eu sempre respondo que adoraríamos fazer isso, mas não temos dados suficientes para essa avaliação.

Dessa vez não foi diferente. Apresentei o RUF na 67a reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em São Carlos, interior de SP. É a principal reunião científica do país, vem gente do Brasil todo e também tem muitos estrangeiros. A sessão da qual participei como palestrante estava lotada. A primeira pergunta da plateia foi relacionada à avaliação dos egressos do ensino superior brasileiro.

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A literatura científica sobre avaliação de ensino superior sabe que uma das melhores formas de avaliar a qualidade de uma escola é, de fato, verificar onde está quem se formou ali. São algumas análises: o egresso está empregado? Trabalha na área? Tem posição de liderança? Dependendo das respostas, é possível verificar se a universidade está apenas formando gente, se está formando e empregando e, melhor, se está definindo quem serão os líderes do futuro.

Pois bem. No Brasil, temos 2.300 instituições de ensino superior, das quais cerca de 200 são universidades (as demais são faculdades e centros universitários). O problema é que as próprias instituições brasileiras não têm a menor ideia de onde estão seus egressos. Muitas nem sequer têm dados (nome, telefone) de quem se formou ali. Pouquíssimas compilam esses dados de forma sistemática.

Hoje, sem dados sobre egressos do ensino superior, o indicador de “mercado” do RUF se baseia em uma pesquisa de opinião feita com empregadores de todo o país, conduzida pelo Datafolha, na qual pedimos que o entrevistado liste as melhores instituições de ensino da sua área.

RUMO CEGO

E aí eu pergunto: as instituições de ensino não deveriam ter interesse em saber onde estão seus egressos? Como exatamente um diretor ou reitor de uma faculdade, universidade ou centro universitário define quais cursos abrir, quais expandir, quais investir se não souber exatamente o que está dando certo?

Essa pergunta também foi levantada pelo meu companheiro de mesa na SBPC, Luiz Roberto Curi, presidente do Conselho Nacional de Educação _nós dividimos a sessão com três especialistas em qualidade do ensino superior da Alemanha. As instituições de ensino superior brasileiras são avaliadas pelo RUF, pela Capes (no caso da pós-graduação), por rankings internacionais. Mas elas se auto-avaliam? Essas instituições têm instrumentos para saber para onde estão indo?

Quase metade de quem está matriculado no ensino superior do país, hoje, cursa administração, direito, pedagogia ou ciências contábeis, mas o que se prega é que precisamos de médicos e de engenheiros. Será que a falta de auto-avaliação do nosso ensino superior _e falta de conexão dessa avaliação com políticas públicas_ não estaria relacionada ao descompasso entre a oferta de cursos pelas escolas e as necessidades do país?

 

Agradeço à SBPC pelo convite para apresentar e debater o RUF junto à comunidade científica!