Sobre o incrível fenômeno dos pais que se preocupam com os filhos universitários

Por Sabine Righetti

Outro dia fui a uma reunião em uma conceituada universidade particular paulista e, na fila da recepção, havia uma estudante com seus pais. Ela queria reclamar de uma nota que supostamente estava errada. Era aluna de uma especialização.

Hoje recebi um e-mail de uma mãe me perguntando como ela faz para descobrir as notas do filho, que cursa administração em uma universidade particular do Nordeste. Ontem foi vez de outra mãe me escrever tirando dúvidas sobre a escolha da universidade do filho, que é vestibulando.

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Não quero tornar esse texto subjetivo demais, mas quando eu entrei na universidade, há mais de 15 anos, meus pais mal sabiam qual curso eu estava prestando. Quando fui aprovada em jornalismo na Unesp, em Bauru, eles foram comigo fazer a matrícula e só. Eu me mudei para o interior paulista e, a partir daí, passei a me virar sozinha.

Parece, no entanto, que a nova geração de pais de vestibulandos e de universitários ainda trata os filhos como se eles estivessem na escola. Querem verificar o boletim, conferem se o filho não está “cabulando” as aulas. Vão às reuniões da universidade com os seus filhos de 20, 25 ou até 30 anos. Oi?

Antes de escrever esse post conversei com alguns professores universitários, de escolas públicas e privadas. Todos relataram o mesmo fenômeno. Ressaltaram até que, antes, os pais se preocupavam mais com os filhos que estavam nos primeiros anos da graduação, com seus 17 ou 18 anos. Tudo bem, ok, isso é praticamente o final da adolescência. Recentemente, no entanto, começaram a participar até de reuniões da pós-graduação dos seus filhotes de quase 30.

Não é um pouco demais? Sim, é.

Fico imaginando o que vai acontecer quando essa meninada começar a trabalhar. Será que os pais vão reclamar com os chefes de seus filhos quando eles levarem uma bronca? Ou vão pessoalmente ao trabalho para ver se o filho ou filha está, sei lá, trabalhando direitinho?

Há uma escritora americana da qual gosto muito, Anne Mathews, autora de “Bright College Years” (algo como “Anos brilhantes na universidade”), que descreve a passagem para o ensino superior como uma espécie de ritual. É uma mudança para a vida adulta e de responsabilidades. Na universidade, na teoria, os estudantes devem escolher suas disciplinas e decidem qual rumo querem seguir dentro da carreira pretendida. Se perderem uma ou outra aula, eles serão os únicos prejudicados.

O problema é que se os pais assumirem a responsabilidade dos filhos justamente no momento em que eles estão aprendendo a assumir seus próprios passos, a coisa pode desandar. Na ansiedade de garantirem que tudo vai dar certo na vida, na carreira e na profissão dos filhos, os pais acabam exagerando e o tiro sai pela culatra.

Ser adulto cansa pra caramba, às vezes até eu desanimo, mas é um “mal” necessário e inevitável. Deixar que os filhos assumam a responsabilidade pelos seus atos é, inclusive, uma grandessíssimo aprendizado.