Pesquisadores ‘top’ falam sobre ciência com visitantes do Museu do Amanhã

Por Sabine Righetti

O Museu do Amanhã –aquele espaço lindo de ciência que acabou de ser inaugurado no Rio de Janeiro– está começando neste mês  de janeiro uma programação muito bacana, gratuita e, infelizmente, ainda rara no Brasil: um ciclo de conversas de cientistas “top” com os visitantes.

A ideia é que todas as terças e quintas-feiras de janeiro e de fevereiro o museu traga um cientista para debater um dos temas que está “em cartaz” no museu. Em janeiro, há pesquisadores falando sobre assuntos que vão de mudanças climáticas a funcionamento do cérebro, por exemplo.

Isso é muito bacana porque a educação científica dos brasileiros é bem ruim e carente desse tipo de iniciativa. Quer ver? Na última avaliação internacional Pisa, da OCDE, ficamos em 59º lugar de um total de 65 países no exame de ciências. A prova mostrou que mais da metade dos brasileiros alcança apenas o nível 1 de conhecimento em ciências. Isso significa que os brasileirinhos são capazes de aplicar o que aprendem sobre ciências apenas superficialmente no seu cotidiano.

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É justamente em espaços como museus de ciências que as pessoas conectam o que se aprende na escola com a vida real. O museu não ensina, mas instiga. Estimula os visitantes para que tenham vontade de aprender mais lá no museu mesmo ou em outros lugares.

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Essa iniciativa do Museu do Amanhã é rara porque boa parte dos cientistas brasileiros ainda não está assim tão disposta a falar com a sociedade (ou com os que não são cientistas). Eles não têm a educação científica como parte de suas atividades rotineiras, que incluem dar aulas na universidade e fazer pesquisa. Isso justamente em um país que carece tanto de atividades de educação na área de ciências.

‘NÃO POSSO FALAR’

Muitos cientistas brasileiros tampouco priorizam falar sobre ciência e sobre seus trabalhos com a imprensa –uma das principais pontes entre ciência e a “sociedade”. Quer ver? Há alguns dias, escrevi um texto na Folha sobre um estudo publicado na “Science”, uma das principais revistas científicas do mundo, que trazia a colaboração de cientistas brasileiros de instituições de norte a sul do país. Tentei falar com todos para escrever o meu artigo, mas não consegui encontrar nenhum. No mesmo dia, entrei em contato com um cientista da Universidade do Texas, nos EUA, e recebi retorno imediato. Ele falou comigo e ainda me mandou um e-mail com material complementar.

Esse episódio me fez recordar outra experiência com cientistas brasileiros. Há alguns anos, escrevendo sobre um assunto complexo de física que envolvia formação e expansão for Universo, um cientista brasileiro se recusou a falar comigo com o seguinte argumento: “Sabine, a educação científica dos brasileiros é tão ruim que ninguém vai entender a minha explicação.” Ok, mas se a educação científica brasileira é ruim mesmo, então não deveríamos contribuir para melhorá-la?

Pois é.

Bom, por enquanto, o Museu do Amanhã está um sucesso. Em um país em que só 4% da população visita espaços de ciência, de acordo com dados oficiais, o Museu do Amanhã já bateu números inimagináveis: quatro mil visitantes por dia. Se os ciclos de conversas com os cientistas forem assim cheios, e se tivermos mais iniciativas com essa pelo país, certamente nossos índices de educação científica podem mudar drasticamente no futuro.