Sobre o ensino do assunto ‘morte’ na escola e a morte de minha mãe

Por Sabine Righetti

Eu perdi minha mãe para um câncer há algumas semanas. Poucos meses antes de ela partir, enquanto ainda tentávamos alguns tratamentos, uma médica me chamou e disse que eu precisava me “preparar para sua morte.” É possível se preparar para a morte de alguém? Hoje, parece-me que sim e que esse processo pode passar pela escola.

Explico. Lidar com a morte de alguém que amamos é algo que envolve uma série de sentimentos bem complexos. Poderia listar um monte deles aqui, mas destaco alguns que têm me perseguido: frustração, sensação de impotência, raiva e tristeza são alguns deles.

Leia blog da Folha ‘Morte sem Tabu’

A literatura científica que tenho acompanhado sobre luto e perdas destaca que é assim mesmo, é normal sentir-se frustrado, impotente e triste. Tudo está dentro do esperado para enlutados. Dá para se preparar, então, para um processo que é, enfim, normal e inevitável?

Sim.

A capacidade de lidar com sentimentos como frustração tem a ver como o desenvolvimento de resiliência, que é a nossa “habilidade elástica”. É a nossa capacidade de superar uma situação difícil, esticar e voltar, claro, sem estourar.

Em alguns casos, como no luto, a resiliência inclui a capacidade de se adaptar a uma nova forma de vida. Quando a gente perde alguém, a vida nunca mais é a mesma. Tudo muda e você precisa se adaptar a uma nova história, uma nova forma de vida que vai sempre ter uma parte faltando.

A resiliência é uma habilidade chamada “não cognitiva”, que pode ser desenvolvida junto com outras, como capacidade de se comunicar, de resolver conflitos e de liderar situações.

Pois vejam que interessante: o desenvolvimento desse tipo de habilidade está sendo cada vez mais debatida por especialistas de educação. Quer ver? A avaliação internacional de educação Pisa, da OCDE, está estudando como avaliar aspectos não cognitivos dos alunos nos próximos anos. A prova vai medir o quanto os estudantes sabem de matemática, de ciências, de línguas e também a sua capacidade de resiliência, por exemplo.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Aqui no Brasil, já tem gente se preocupando com o desenvolvimento de habilidades não cognitivas –ou inteligência emocional– das crianças. Um dos projetos interessantes que encontrei é da ASEC (Associação pela Saúde Emocional de Crianças), uma entidade sem fins lucrativos que desenvolve projetos que ajudam a desenvolver, na escola, habilidades como a resiliência.

Um dos projetos da ASEC, chamado Amigos do Zippy, trabalha com os alunos uma série de sentimentos como frustração e raiva por meio de uma história contada ao longo do ano letivo.

Zippy é um bichinho do personagem da história, um menininho. Juntos, menino e Zippy vão se deparando com um monte de situações e de sentimentos, que são discutidos pelos alunos na escola.

O menino sente ciúmes do tratamento que a mãe dá ao irmãozinho. Como lidar com isso? O menino se sente frustrado porque não pode levar o Zippy na escola. E agora? O menino está com raiva e briga com um amiguinho. Como resolver? Por aí vai.

As respostas para as questões do menino são trazidas pelos próprios alunos da escola. O pessoal da ASEC me contou, por exemplo, que em uma das escolas, os aluninhos sugeriram deixar duas carteiras em sala de aula para que os amiguinhos brigados possam se sentar para conversar e resolver o conflito. Não é sensacional?

PRECISAMOS FALAR SOBRE A MORTE

Bom, acontece que no final da história (atenção ao spoiler aqui!) o Zippy morre. É, ele morre. Muito triste. E, aí, nosso menininho personagem tem de aprender a lidar com a perda, com o luto e com tudo que vem junto com ele –justamente o que eu estou enfrentando agora.  No projeto, as crianças são convidadas a falar sobre a morte e, inclusive, a visitarem um cemitério. Vejam só!

Eu nunca falei sobre morte na minha escola (ou fora dela), nunca refleti sobre a capacidade de resiliência que precisamos ter para vencer um luto. Nunca sequer pensei sobre um luto e sobre os sentimentos que ele envolve.

Preparar-se para a morte, como me recomendava a médica lá atrás, é estar pronto para enfrentar uma perda e para superá-la. Dói, é difícil, mas é preciso ter instrumentos necessários para sobreviver. E isso, sim, pode e deve nos ser ensinado.