Universidade deve ter lógica produtivista de empresa?

Por Sabine Righetti

Para comemorar seus 70 anos, a UFBA (Universidade Federal da Bahia) decidiu fazer uma espécie de audiência pública gigante em um congresso de quatro dias que começou com o seguinte questionamento: universidade tem de produzir com a lógica de empresa? Para a filósofa da USP Marilena Chauí, que abriu o evento da UFBA, a resposta é negativa.

“Hoje, a universidade passou a ser encarada como uma organização social”, disse Chauí na abertura do congresso. “Como mostrou a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, a ideia de administração é inseparável do modo de produção capitalista como produção de equivalentes para o mercado” (leia o discurso dela na íntegra aqui).

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De fato, a universidade brasileira –assim como toda universidade do mundo– está sendo cada vez mais cobrada para produzir. É isso que Chauí chama de “modo de produção capitalista”.

Na pós-graduação brasileira, por exemplo, a quantidade de dinheiro que a universidade recebe do governo depende da nota recebida na avaliação feita pelo próprio governo. Funciona basicamente assim: quem publica mais artigos científicos –produz mais– tem mais dinheiro.

Essa lógica é controversa, claro, mas faz certo sentido. Ora, metade das universidades brasileiras são públicas, o que significa que sobrevivem com dinheiro meu, seu e de todo mundo que paga impostos. Parece racional que a sociedade cobre que essas instituições sejam produtivas, certo? Pois é.

O problema é que, dizem cientistas como Chauí, essa lógica produtivista faz com que as universidades passem a ter a produção como elemento central de sua existência. Assim, deixam de lado, por exemplo, a qualidade do ensino e as atividades de extensão.

É importante analisar o que acontece na universidade, inclusive para decidir o que será feito de agora em diante. A UFBA está justamente fazendo, agora, no seu aniversário de 70 anos, esse exercício que poucas universidades fazem: está olhando para si mesma.

Para se ter uma ideia, há, na programação do congresso de aniversário da universidade, mais de 2.000 trabalhos de docentes em todas as áreas do conhecimento. De acordo com a assessoria de imprensa da universidade, dois em cada três docentes da universidade submeteram trabalhos para serem apresentados no evento.  “É uma oportunidade única de a universidade buscar se conhecer e se reinventar”, diz, em nota, o reitor da UFBA João Carlos Salles.

Isso é muito legal porque não é muito comum. A universidade não gosta muito de ser colocada na berlinda, de ser questionada ou de ser avaliada. Seria bacana se esse exercício de autocrítica fosse mais rotineiro na universidade brasileira.

 

A jornalista SABINE RIGHETTI viajou a Salvador (BA) a convite da UFBA