Avaliação da pós no Brasil: há alternativas?

Sabine Righetti

O MEC divulgou nesta semana as notas dos programas de pós-graduação brasileiros avaliados a cada três anos pela Capes.

Os números vão de um a sete. Apenas 12% deles estão no topo e têm nível internacional (leia sobre isso aqui).

Para chegar às notas, a Capes se debruça em cima dos mais de três mil programas de mestrado e de doutorado do país em busca de dados que revelem excelência dos programas.

Por exemplo, a qualificação dos docentes, a quantidade de teses defendidas e de artigos publicados.

Essa metodologia foi criada há mais de três décadas pela própria academia e, justamente por isso, costuma receber respaldo dos cientistas.

Mas há quem se manifeste contra a avaliação da Capes.

Corre pelos corredores acadêmicos que a avaliação da Capes faz com que alunos e professores entrem em uma neurose por mais publicações de artigos científicos — e aí coisas ruins acontecem.

Diz-se que os docentes acabam se preocupando mais em publicar e menos em preparar suas aulas, por exemplo. E que a qualidade dos trabalhos acadêmicos publicados é questionável.

Diz-se ainda que teses que não são lá tão bacanas acabam sendo aprovadas nos departamentos para que o grupo não perca pontos na avaliação da Capes.

Tudo isso tem seu fundo de verdade, em menores e maiores proporções, claro. Ainda mais porque boas notas na avaliação da Capes significam mais dinheiro para os programas de pós-graduação, mais bolsas, mais recursos para pesquisa. É a cenourinha que faz a mula andar.

Mas como, então, seria possível avaliar os programas de prós-graduação senão principalmente pela produção científica?

Há quem defenda que a pós-graduação nem deveria ser avaliada porque o conhecimento é o bem final da ciência.

Tudo bem.

O problema é que quase metade das nossas 192 universidades são públicas e sobrevivem com dinheiro de quem paga imposto. As universidades não devem mesmo prestar contas?

Comentários

    1. Será que os pesquisadores daqui terão tanto dinheiro de empresas privadas quanto tem os pesquisadores da Coréia do Sul. Porque no Brasil, os empresários querem resultados da Universidades, mas não querem investir em pesquisa, como acontece em outros países. A maioria das patentes saem de parcerias entre as Universidades e empresas. Quase não tem dinheiro do Governo.

    2. Em medicina os estágios obrigatórios,em
      direito o exame da OAB,caso os engenheiros
      tivessem algum contrôle,talves houvessem
      menos ruínas…

  1. Avaliação pela produção acadêmica faz sentido, mas deveriam considerar a qualidade e não só a quantidade. Por exemplo, dar maior peso ao impacto (citações) por artigo e não apenas olhar para o número de artigos publicados. Há muitos programas especializados em gerar uma inflação de artigos sem importância científica realmente significativa e que acabam sendo mais bem avaliados que programas com menos produção quantitativa, mas com contribuições seminais à área de pesquisa.

    Há alguns critérios também sobrevalorizados que não deveriam nem ser considerados, por exemplo, tempo de titulação. Concordo que, se um aluno leva 10 anos para terminar o doutorado, isso é ruim, mas por que penalizar programas onde doutorados sejam concluídos por exemplo em 5 anos ao invés de quatro ? Nos EUA, é normal um doutorado ser concluído em mais de 4 anos e ninguém liga para isso desde que o aluno esteja ativo e seja produtivo.

  2. Entendo que a avaliação interna das escolas sirva, dentre outras coisas, para mitigar os pontos falhos da externa, não acham? Bons programas demandam bons processos de avaliação interna.

  3. O colega acima pergunta se algum dia pesquisaremos com a eficiência da Coreia do Sul. Eu acho que nunca, não com esse modelo. Nosso modelo não é direcionado, cada um faz o que bem entende como se estivéssemos no jardim das delícias, bem diferente da Coréia ou de Israel que fazem render o investimento, direcionando a pesquisa e dando recursos a quem gera patentes etc

  4. Só 3 décadas? As vezes parece que é o mesmo modelo do tempo de Darwin. É um sistema elitista onde os professores vivem descolados da realidade do país financiados com dinheiro público. Pior que frequentemente se dizem contra a elite? Deveria haver um esforço voltado para interesses nacionais mais concretos. Mas parece que acima de tudo o sistema visa resolver primeiro o problema do mundo.

  5. Concordo com a avaliação institucional.
    Se eu não correr por fora, eu sairei apenas com um título de especialização com pouco conhecimento. Os livros são muito caros. Eu já comprei mais de 60 livros só nesse ano, a fim de construir um saber verdadeiro, e não apenas o a conquista de mais um título.
    A propósito, por que essas universidades recebem o aviso em que dia elas serão avaliadas dando tempo para tampar. buracos? Recentemente uma aluna foi chamada para ser entrevistada pelos representantes do MEC com a seguinte orientação: ” não fale das suas reclamações sobre essa universidade”. Apesar de tudo, a discente reclamou com o MEC sobre as irregularidades da mesma. E no entanto, não aconteceu nada. Ou seja, parece que foi feito na metodologia ” faz de conta”.

  6. A CAPES exige que se publique muito, além de reduzir o tempo para a conclusão dos cursos de Mestrado e Doutorado.
    O resultado: artigos ruins, sem nenhuma relevância, publicados em revistas piores ainda.
    Caro Celso, chegaremos no mesmo nível da Coréia do Sul..mas vai demorar muito ainda…

  7. Sabine acertou em cheio: críticos devem oferecer alternativas melhorando as imperfeições ou injustiças do sistema — retroceder à ausência de avaliação seria inaceitável e irresponsável!

  8. Infelizmente os professores, com a complacência/negligência dos coordenadores de cursos e diretores de departamentos, estão transformando as Universidades Federais brasileiras em faculdades de ensino a distância.
    Apesar de serem doutores e pós-doutores em suas especialidades, em cursos no exterior pagos com dinheiro público, não querem transmitir conhecimento, mas apenas reproduzir os mesmos e surrados slides, de semestre a semestre, além das xero’x de fragmentos de livros.
    Na UFSC (entre as melhores do País) criou-se a modalidade de prova e recuperação por email, quando o auno responde e devolve ao professor dentro de 3 ou 4 dias.
    Não conheço os cursos de exatas, mas como formaremos bons professores?

  9. A avaliação usando critérios muito bem definidos é um desastre, por causa da lei de Goodhart: quando um índice é usado como critério de avaliação, a correlação entre o índice e o que está sendo avaliado desaparece.

    Os pesquisadores trabalham para o índice, não mais pela pesquisa e pós-graduação que são o que o índice queria medir.

    A pós no Brasil tornou-se como um curso onde os alunos só estudam para tirar nota na prova.

  10. Quantidade nao é qualidade!Infelizmente ate na hora de fazer o concurso pra entrar nas pós eles contam pontos em quem publicou mais artigos no iniciação cientifica, e vários profs acabam explorando alunos de gradução para aumentar sua listinha de publicaçoes.

  11. Isso é no mundo todo, infelizmente. Sou aluno do programa Ciência sem Fronteiras e é muito difícil encontrar bons professores por aqui. A Universidade é conceituada, mas o ensino é superficial. No final, eles exigem muitíssimo de algo que eles nem ensinaram muito bem. Acho que o que ocorre é exatamente isso: o cara prefere pesquisar do que dar aula, afinal, além de dinheiro, pesquisa dá prestígio, e cada um deles precisa inflar seu ego perdido. Estou na Europa, e parece que isso ocorre em muitos países, pelo que amigos vêm relatando, inclusive nos EUA.

  12. Ok, vamos criticar a CAPES, as avaliações unilaterais, meramente quantitativas…mas não vamos esquecer que a profissão de pesquisador sequer existe no Brasil, sequer é reconhecida. Os professores precisam fazer pesquisa, extensão, estudar, preparar aulas, orientar, avaliar, precisam escrever, escrever, escrever, ler, ler, ler, ler, refletir, refletir, refletir, e nunca é o bastante, inevitavelmente são criticados por quem sabe menos do que eles, por burocratas que só querem números, “impactos”, “resultados”, “pontos”, ou por estudantes que não querem estudar, que apenas querem notas, números, diplomas, etc. Pesquisa é um caminho árduo, incerto, que em nada se assemelha a uma linha reta, a um “programa”. Pesquisa está mais para “engrama” do que para “programa”. Mas quem se interessa por isso? Quem quer saber como vive o pesquisador? Quem sabe que cerca de 50% do tempo de pesquisa se desenvolve nos finais-de-semana, nos feriados, nas férias…porque nos dias “normais” a irracionalidade burocrática bloqueia e fragmenta os esforços dos pesquisadores? Pesquisador no Brasil é um grande explorado, vergonhosamente explorado, muito mal reconhecido, e não se imagine que no setor dito “público” o “massacre” seja menor do que no setor privado.

  13. Ok, vamos criticar a CAPES, as avaliações unilaterais, meramente quantitativas…mas não vamos esquecer que a profissão de pesquisador sequer existe no Brasil, sequer é reconhecida. Os professores precisam fazer pesquisa, extensão, estudar, preparar aulas, orientar, avaliar, precisam escrever, escrever, escrever, ler, ler, ler, ler, refletir, refletir, refletir, e nunca é o bastante, inevitavelmente são criticados por quem sabe menos do que eles, por burocratas que só querem números, “impactos”, “resultados”, “pontos”, ou por estudantes que não querem estudar, que apenas querem notas, números, diplomas, etc. Pesquisa é um caminho árduo, incerto, que em nada se assemelha a uma linha reta, a um “programa”. Pesquisa está mais para “engrama” do que para “programa”. Mas quem se interessa por isso? Quem quer saber como vive o pesquisador? Quem sabe que cerca de 50% do tempo de pesquisa se desenvolvem nos finais-de-semana, nos feriados, nas férias…porque nos dias “normais” a irracionalidade burocrática bloqueia e fragmenta os esforços dos pesquisadores? Pesquisador no Brasil é um grande explorado, vergonhosamente explorado, muito mal reconhecido, e não se imagine que no setor dito “público” o “massacre” seja menor do que no setor privado.

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