Em carta, reitor da USP diz que vai contratar auditoria e fala em desvios

A USP vai contratar uma auditoria externa para examinar os recentes gastos orçamentários “vultuosos” da universidade.

A informação é do próprio reitor da universidade, Marco Antonio Zago, em uma carta enviada por e-mail nesta semana aos cerca de 92.000 alunos da universidade.

USP e Unicamp ganham posições em ranking dos Brics

PUC do Chile passa a USP na lista de melhores da América Latina

A possibilidade de uma auditoria externa já havia sido cantada no início de junho (leia aqui), mas não estava confirmada pelo reitor.

Foi confirmada porque, de acordo com Zago, a crise financeira da USP “é real”.

Hoje, a USP consome 105% do orçamento apenas em salários –o que significa um déficit mensal de R$15 milhões só na folha de pagamentos.

Considerando todos os gastos da universidade, o déficit deve chegar a R$ 1 bilhão neste ano, diz Zago.

O balanço no vermelho fez com que o reitor negasse o pedido de ajuste salarial a docentes e funcionários, que entraram em greve em maio.

Como a situação chegou neste ponto?

Zago diz que não sabe, apesar de que fazia parte da gestão anterior como pró-reitor de pesquisa.

“Para esclarecer os aspectos envolvidos, identificar os eventuais erros e desvios e apurar as responsabilidades, nomeei uma Comissão de Sindicância com plenos poderes para examinar os documentos e ouvir a quem julgar necessário para se desincumbir de sua missão”, escreve Zago na carta.

DESVIOS

Essa é a primeira vez que a universidade fala em “desvios”. Até o momento, a crise era atribuída a problemas de gestão, excesso de obras e até “supersalários” de docentes.

Pelo menos 167 docentes (3% do total da USP) ganhavam acima do teto estabelecido constitucionalmente –o que levou à reprovação das contas da universidade no TCE (Tribunal de Contas do Estado) em março deste ano.

Na carta aos alunos, Zago anuncia também uma maior transparência dos gastos financeiros da USP.

Hoje, não está claro como a USP gasta seu orçamento, para onde vai o dinheiro de doações e quanto há na “poupança” da universidade (se ainda houver alguma coisa).

Já escrevi sobre isso no blog (leia aqui).

A Folha vai acompanhar de perto a revisão dos gastos da USP mencionada pelo reitor. Todos os alunos, funcionários e docentes deveriam fazer o mesmo.

 

Leia carta do reitor aos alunos da USP: 

Aos estudantes da Universidade de São Paulo:

Ciente das preocupações do corpo discente, provocadas pelas atuais discussões sobre a questão orçamentária e a greve de servidores e docentes, acredito serem necessários esclarecimentos que ajudem os alunos a compreenderem o momento político.

A atual greve decretada pelos sindicatos de servidores e de docentes da USP é resultado da decisão do Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) de não conceder reajuste salarial neste momento, em virtude da situação financeira das três Universidades. Todas estão com mais de 95% dos respectivos orçamentos comprometidos com o pagamento de salários e outras vantagens pessoais. No caso da USP, esse percentual ultrapassa 100%.

Para que se tenha ideia da gravidade desse quadro, basta dizer que o Tribunal de Contas do Estado, nos recentes julgamentos das contas das três Universidades, tem repetidamente advertido as Instituições sobre o excessivo comprometimento com os gastos de pessoal, entre os anos de 2007 a 2011, em que a folha de pagamento perfazia até 86% do total.

Contrariamente ao que se procura difundir, a crise financeira é real. Durante o ano de 2013, houve apenas duas reuniões ordinárias do Conselho Universitário; não houve discussão e aprovação do orçamento de 2014.

Ao assumir a Reitoria, em janeiro de 2014, os atuais gestores encontraram um comprometimento sem precedentes do orçamento com gastos com pessoal: a USP desembolsa hoje, por mês, apenas com pagamento de pessoal, R$ 15 milhões a mais do que recebe de repasse da parcela que lhe cabe do ICMS do Estado.

Diante disso, a nova gestão convocou a todos os diretores e demais gestores da Universidade para estudar alternativas; suspendeu as contratações e, como lhe cabe fazer, transmitiu as informações disponíveis à Comissão de Orçamento e Patrimônio do Conselho Universitário, que encaminhou ao Co a proposta orçamentária, com a redução dos gastos de custeio aos níveis de 2010, e recomendou à gestão que procure limitar o déficit financeiro, no presente ano, a R$ 570 milhões.

Infelizmente, como os gastos com pessoal continuam crescendo, o ritmo atual projeta déficit de mais de R$ 1 bilhão para o presente ano (sendo que, nos anos de 2011, 2012 e 2013, já houve déficits crescentes de R$ 275 milhões, R$ 570 milhões e R$ 1 bilhão, respectivamente).

A sobrevivência da USP neste período, aí incluído o pagamento dos salários, somente foi possível devido à existência de uma “poupança”, da qual estão sendo sacados recursos para cobrir o déficit. Tal “poupança”, entretanto, está se reduzindo rapidamente, ao ritmo atual de R$ 90 milhões por mês.

A crise é, portanto, real e sua causa está no excessivo comprometimento com salários. Em 2009, a USP gastava com salários 82% dos repasses de ICMS. Entre 2009 e 2013, os recursos orçamentários da USP aumentaram em 50%, mas a massa salarial cresceu 83%, elevando para 100% o percentual do orçamento comprometido com a folha de pagamento no ano passado. Hoje, esse comprometimento atinge 105%.

Por que aconteceu isso? Para esclarecer os aspectos envolvidos, identificar os eventuais erros e desvios e apurar as responsabilidades, nomeei uma Comissão de Sindicância com plenos poderes para examinar os documentos e ouvir a quem julgar necessário para se desincumbir de sua missão. Além disso, determinei, ainda, providências para contratar firma de auditoria externa para examinar os procedimentos que resultaram em gastos vultosos de recursos orçamentários.

Visando evitar a repetição desses fatos, criei um Grupo de Trabalho para organizar uma Controladoria na USP, órgão que funcionará de maneira independente da Reitoria, podendo referir-se diretamente ao Conselho Universitário, para fazer o acompanhamento da execução orçamentária e, também, se responsabilizar pela divulgação e publicidade dos dados financeiros da USP.

Nenhuma decisão de monta sobre uso de recursos tem sido tomada sem exame pela Comissão de Orçamento e Patrimônio e pelo próprio Conselho Universitário. Assim, a solicitada transparência sobre contas e procedimentos está sendo progressivamente implantada por meio de ações concretas tomadas até o momento. Obviamente, esses procedimentos podem ser aperfeiçoados e ampliados e, para isso, contamos com as sugestões de todos.

Essas medidas fazem parte do conjunto de ações iniciadas desde a posse da nova equipe, marcando o início do processo de democratização da USP, consoante a demanda dos estudantes e nosso compromisso durante a campanha. Para isso:

  • Convoquei o Conselho Universitário, no dia 25 de março, com uma pauta exclusiva para organizar a reforma. Naquela sessão, foram definidos um calendário de reuniões, uma pauta específica e uma comissão de dez membros (seis docentes, dois estudantes e dois servidores) foi escolhida para estruturar os trabalhos, coletar e sistematizar as propostas e organizar os debates. No dia 3 de junho, ocorreu a primeira reunião de debates, gravada e transmitida pela IPTV-USP. A meu convite, manifestaram-se, na reunião, a Adusp, o Sintusp e o DCE. Naquela reunião, 34 conselheiros se manifestaram sobre os três primeiros temas da agenda (missão, responsabilidade social e princípios da Universidade; ensino, pesquisa, cultura e extensão; e gestão, transparência e resp onsabilidade fiscal). A próxima reunião está agendada para 2 de setembro e os estudantes dispõem de meios para participar plenamente do debate.
  • Por minha iniciativa, na segunda reunião do Conselho Universitário, realizada em 25 de fevereiro deste ano, foi votada mudança do Estatuto da USP, que aboliu a lista tríplice para escolha de diretor e vice-diretor das Unidades de Ensino e Pesquisa, Museus e Institutos Especializados, cabendo ao reitor apenas a designação dos mais votados e não mais a escolha desses dirigentes.

Quanto ao debate sobre pagamentos de mensalidades na Universidade, há que se enfatizar que eu e todos os membros da atual gestão jamais apoiamos essa opção como forma de resolver as dificuldades financeiras presentes. Pelo contrário, tenho alertado às representações de estudantes, servidores e docentes sobre os riscos de que um confronto sobre questões salariais leve à desqualificação das lideranças da USP no que se refere à capacidade de administrar uma crise financeira que, não tendo sido gerada pelos atuais gestores, nos cabe resolver. Mas, acredito ser importante que esta crise seja enfrentada sem desprestigiar a autonomia universitária. O enfraquecimento da USP nesse contexto representa o maior risco possível para o ensino universitário público gratuito e de qualidade.

Tenho reiterado minha disposição em conversar com toda a comunidade, em especial os estudantes. Embora tenha participado de vários encontros com muitos discentes neste último mês, há, ainda, espaços para ampliar essa comunicação. Por esse motivo, foi criado um novo canal direto com o reitor: o formulário “Fale com o Reitor”, cujo link está disponível no Portal da USP.

Atenciosamente,

Marco Antonio Zago

Reitor

 

Comentários

  1. MEUS EFUSIVOS PARABÉNS AO GRANDE PROF. E AMIGO PROF. ZAGO. TENHO CERTEZA QUE SEUS 04 ANOS À FRENTE DA NOSSA USP SERÃO MUITO PROFÍCUOS E VOCÊ VAI RESOLVER ESSA CRISE, CERTEZA. MEUS VOTOS DE SAÚDE, PAZ E PROSPERIDADE. DO ADMIRADOR DR. ADÃO. SUPLENTE DE VEREADOR EM RIBEIRÃO PRETO

  2. Quero ver se alguém vai ser punido nessa sindicância. Na USP tem medo de aplicar a lei. E essas medidas é só pra desviar a atenção.

  3. Na boa… Como é que uma instituição de ensino superior que se julga uma das melhores do mundo, gasta 105% do seu orçamento só com salários ? Imagina a qualidade do ensino em Economia e Administração…

    1. Acho muito complicado o atual reitor dizer que enquanto era pró-reitor desconhecia a situação da universidade. Mais complicado ainda é afirmar que o colegiado máximo da universidade teve apenas duas reuniões no ano passado. Sou professor da Unesp, que obedece as mesmas normas. Na Unesp são seis reuniões ordinárias do conselho universitário e todo o orçamento está disponível para consulta na internet. Claro que alguns gastos não são tão visíveis, mas nada que implique algo da ordem de 10% do orçamento.

    2. Ocorre que os 105% se referem ao gasto acumulado comparado ao ICMS acumulado. Como a arrecadação desse imposto é muito maior no segundo semestre e a folha de pagamento cresce menos, então normalmente se encerra o ano gastando bem menos que 100% do orçamento com salários. O problema na USP é que a gestão anterior aumentou muito o gasto com salários de funcionários não docentes, esperando um crescimento maior do ICMS, que não ocorreu.

      1. “bem menos que 100% do orçamento com salários”

        Uma afirmacao bem solta no ar….
        Pode qiantificar o que e’ “bem menos”?

    3. Pq no governo de sampa os presidentes e diretores dessas empresas publicas dao varias benesses salariais para os peixinhos.
      Tem uns peixinhos que sao protegidos dos tubaroes e tem salarios bem maior que os outros funcionarios. Pq na usp seria diferente.
      O que vcs pensaram – que isso era exclusividade do pt.
      Quem trabalha de verdade nao tem reconhecimento nenhum na geraldolandia.

  4. Um desvio não é necessariamente de dinheiro. Mais provável que sejam de comportamento ou de cumprimento desleixado do procedimento definido.
    A USP merece mais respeito e isto é do interesse de todos.

  5. O verdadeiro tabu é esse: administração profissional. Auditoria, levantamento de irregularidades, apuração de responsabilidades, punição e criação de mecanismos que dificultem a atuação dos bhanddiddos. Simples assimmmm…

  6. O que mais me assusta na usp é ver a maneira como este assunto é tratado. Estive em um debate que ocorreu no campus de São Carlos, segunda feira passada. Basicamente, em meio a longos discursos, a única coisa que afirmavam os funcionários, alunos e professores presentes era que 0% é inaceitável.

  7. Uma possível investigação de desvio seria relacionada a instalação de um sistema nas nuvens para os serviços da usp. Foram gastos em torno de 230 milhões no ano passado em investimento para isso, mas quando foi inaugardo este serviço não foi capaz de suportar 3 mil acessos.

  8. A Universidade deve abrir suas contas e ponto. Isso sim seria transparência.
    Neste momento em que cada vez menos se acredita nas afirmações do reitor sobre a crise atual, pagar uma auditoria externa com o dinheiro da própria instituição, da aumentaria ainda mais a desconfiança. Como disse um amigo meu: “Quem paga a banda, escolhe a música

  9. Triste ver o que fizeram os governos do PSDB na administração da USP; o campus de SP (cidade universitária) se tornou a central bancaria do Butantã; a maior parte dos prédios das faculdades esta caindo aos pedaços ,ou seja , estão a muito tempo sendo sucateados para que possa ser justificada uma privatização. Infelizmente estando o estado nas mão dos ignorantes, irresponsáveis e hipócritas que atualmente nos governam só podemos mesmo é esperar a decadência daquilo que um dia foi a maior universidade da América latina e uma das melhores do planeta.

    1. Arthur, antes de falar mal do PSDB, vá ver a porcaria que os petistas fizeram com a Universidade Federal de São Paulo, ex-Escola Paulista de Medicina.

      Depois, se você ainda tiver cara de pau o suficiente, você volta aqui pra fazer sua campanha lulista, ok?

      abs.

  10. Acho muito complicado o atual reitor dizer que enquanto era pró-reitor desconhecia a situação da universidade. Mais complicado ainda é afirmar que o colegiado máximo da universidade teve apenas duas reuniões no ano passado. Sou professor da Unesp, que obedece as mesmas normas. Na Unesp são seis reuniões ordinárias do conselho universitário e todo o orçamento está disponível para consulta na internet. Claro que alguns gastos não são tão visíveis, mas nada que implique algo da ordem de 10% do orçamento.

  11. A USP não precisa de auditoria, necessita de uma CPI porque é dinheiro que sai do bolso de todo paulista, seja ele pobre ou rico pra financiar graduação, pós-graduação, etc. Não sou xenófobo mas a USP está aumentando o número de estrangeiros na pós-graduação, motivo: é grátis. O atual reitor participou de um artigo no Estado de São Paulo elogiando a autonomia universitária conquistada na constituição de 1988. Quer dizer, antes sob o governo militar os docentes e reitores (oligarquia da USP) não podiam cometer “desvios”; agora podem. Se PUC brasileira chegasse a esse patamar o MEC fecharia suas portas. Mas como disse um governador romano: “Quando o estado é o mais corrupto, mais as leis se multiplicam”. Viva o Brasil!

  12. Deveriam cortar gastos com as áreas de humanas que só existe como celeiro de esquerdistas cabeças-ocas, demitir funcionários que só estão lá para fazer greve e política sindical, tomando a universidade (que é mantida com nossos impostos) como se fossem deles. Finalmente, tem que fazer auditoria para ver se há realmente desvio de dinheiro.

  13. Gostaria de acrescentar o seguinte: você sabia que a USP devolve ao docente os 11% de contribuição previdenciária, caso ele tenha atingido o tempo de contribuição para aposentar, mas opte por permanecer na universidade? Parece-me que esse benefício também é estendido a docentes que aposentam e optam por permanecer na universidade (docente sênior). Quanto será que esse benefício representa no orçamento da USP? Um questão interessante para vocês da imprensa explorarem. Um abraço

Comments are closed.